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Lupa na Ciência: Por que a OMS passou a recomendar uso de corticoides para casos graves de Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
23.set.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu novas diretrizes para o tratamento de casos graves da Covid-19 e passou a indicar o uso de corticoides 

– Esse foi o primeiro medicamento que comprovadamente reduziu a porcentagem de mortes de pacientes infectados com o novo coronavírus

– A decisão se deu a partir dos resultados de sete grandes estudos realizados em diferentes países, que indicaram uma redução de 20% no risco de morte com o tratamento utilizando essa classe de drogas

– A entidade alerta, no entanto, que o medicamento só é eficaz para tratar casos graves da doença. Por causa de sua ação no organismo, ele pode ser prejudicial nos quadros leves e moderados

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, no início deste mês, um documento direcionado a médicos e gestores recomendando o uso de corticoides para tratar os casos graves de Covid-19. A decisão foi tomada com base na publicação de um artigo que avaliou sete grandes ensaios clínicos realizados em 12 países, incluindo o Brasil, e que confirmou a eficácia dessas drogas na redução da mortalidade em pacientes com quadros críticos da doença. A notícia é boa, já que essa é primeira droga que comprovadamente reduziu a incidência de mortes pela Covid-19.  Até então, o único medicamento que havia demonstrado benefício aos pacientes infectados com o novo coronavírus em um grande ensaio clínico randomizado e controlado havia sido o remdesivir. Só que ele apenas diminuiu o tempo de internação dos pacientes, e não baixou a taxa de mortalidade de forma estatisticamente significativa.

Medicamentos corticoides não são antivirais (ou seja, não combatem diretamente o vírus), mas sim uma classe de fármacos que têm ação anti-inflamatória e imunossupressora. Há décadas, são usados para tratar diversas condições inflamatórias, respiratórias e alérgicas como, asma, pneumonia, eczema, entre outras. Também chamados de corticosteroides, eles atuam regulando os mecanismos de defesa do corpo. Por isso, costumam ser muito eficazes para combater os efeitos danosos das reações imunológicas exacerbadas do organismo, como a “tempestade de citocinas” – fenômeno recorrente em casos graves de Covid-19. Por causa de sua ação específica, a OMS afirma que o uso da droga não é recomendado para pacientes com sintomas leves a moderados da doença. Como essas drogas interferem no sistema de defesa do corpo, elas podem inclusive agravar a doença se usadas nos estágios iniciais, já que prejudicam o combate ao vírus. Por isso, seu uso deve seguir a recomendação médica:

“Recomendamos corticosteroides sistêmicos para o tratamento de pacientes com Covid-19 em estado grave e crítico. Sugerimos não usar corticosteroides no tratamento de pacientes com quadros não severos (…)”, indica a entidade no documento. O termo “sistêmicos” se refere àqueles medicamentos que atuam em todo o organismo e não em regiões específicas – como é o caso das famosas “bombinhas de asma”, cuja administração é inalatória. Para ter uma atuação sistêmica, essas drogas devem ser administradas por via oral ou intravenosa.

Estudos são realizados há meses

O potencial dos corticoides em reduzir a mortalidade pelo novo coronavírus é estudado há meses. Em meados de junho, pesquisadores britânicos do projeto Recovery Trial, considerado um dos maiores ensaios clínicos randomizados e controlados para tratamento contra o novo coronavírus, anunciaram que o medicamento dexametasona, um tipo de corticoide, reduzia em até um terço o índice de mortes pela Covid-19 em pacientes internados que respiravam com ajuda de ventilação mecânica. Na época, alguns especialistas manifestaram cautela com a divulgação do estudo, já que ele ainda não havia sido revisado por pares nem aceito em nenhuma revista científica. No entanto, um mês depois, o artigo foi publicado no periódico New England Journal of Medicine.

A partir daí, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reuniu esforços para investigar mais a fundo o tratamento com esse e outros corticoides e fez uma parceria com coordenadores de sete estudos clínicos para “fornecer rapidamente evidências adicionais” sobre a eficácia do medicamento que permitissem o desenvolvimento de diretrizes atualizadas. O resultado foi uma metanálise publicada no início de setembro na revista Journal of the American Medical Association (Jama), que foi usada como base para o documento emitido pela entidade. Metanálise é uma metodologia que busca integrar os resultados de dois ou mais estudos realizados com uma mesma questão de pesquisa para chegar a uma conclusão única a partir de todos eles. Nesse caso, incluiu estudos que contemplaram dados de 1,7 mil pacientes com a Covid-19 em estado grave. Todos os ensaios clínicos foram randomizados e controlados, ou seja, os participantes de cada grupo (o que recebeu o medicamento e o grupo controle) foram escolhidos por sorteio. Os testes foram feitos no Brasil, Reino Unido, Canadá, Espanha, França, China e Estados Unidos. 

No grupo que tomou algum dos corticoides, 32% dos pacientes morreram após o período de seguimento de 28 dias. Já entre os pacientes que só receberam o suporte clínico padrão ou placebo, a mortalidade no período foi de 40%. Isso significa que aqueles que receberam tratamento com corticoides tiveram um risco 20% menor de óbito do que os do grupo controle. A pesquisa também apontou que os corticoides se mostraram seguros, sem risco aumentado de efeitos colaterais graves.

Enquanto estudos com outras potenciais drogas contra o novo coronavírus seguem em andamento, a nova orientação da OMS já passou a ser adotada como prática em diversos países. Aqui no Brasil, “as orientações do governo federal são atualizadas conforme o surgimento de novas evidências científicas”, segundo o Ministério da Saúde, que não detalhou se irá incorporar o uso de corticoides em seus documentos. Mesmo assim, médicos e pacientes podem, em conjunto, decidir sobre o uso ou não.

Fontes:

Organização Mundial da Saúde. Documento disponível em:
https://www.who.int/publications/i/item/WHO-2019-nCoV-Corticosteroids-2020.1

New England Journal of Medicine. Artigo disponível em:
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2021436

Journal of the American Medical Association (JAMA). Artigo disponível em:
https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2770279

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Marcela Duarte e Chico Marés

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