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Lupa na Ciência: Resposta inicial do organismo pode explicar por que casos graves de Covid-19 são raros entre crianças

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
25.set.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– Um estudo publicado na última segunda-feira (21) avaliou amostras de sangue de crianças e adultos com Covid-19 e identificou que quanto mais jovem era o paciente, mais eficaz era a defesa inata do organismo contra o novo coronavírus

– A resposta imunológica inata é a primeira frente de batalha do corpo, que combate possíveis invasores mesmo sem criar uma memória deles

– Por outro lado, adultos apresentaram uma resposta adaptativa mais robusta. Esse é o segundo tipo de defesa, que cria nossa memória imunológica e age no combate a determinado vírus

– De acordo com os pesquisadores, os mais jovens conseguem frear com mais eficiência a replicação do vírus, o que evita a liberação de componentes de defesa como as citocinas, que podem causar danos ao organismo

– As descobertas, explicam os cientistas, podem colaborar não só para uma melhor compreensão do comportamento do vírus em crianças, mas também para ajudar no desenvolvimento de tratamentos que reforcem o sistema imunológico inato 

Uma das questões que mais intriga pesquisadores desde o início da pandemia é por que crianças tendem a desenvolver quadros bem mais leves de Covid-19 do que adultos. Várias hipóteses já foram levantadas, e um estudo publicado na revista Science Translational Medicine na última segunda-feira (21) indica que a resposta pode estar no comportamento do sistema de defesa dos mais jovens. De acordo com os pesquisadores da Yale University e Albert Einstein College of Medicine, nos Estados Unidos, as crianças expressam níveis mais elevados de duas moléculas do sistema imunológico, que atuam nas etapas iniciais da infecção e freiam a replicação do vírus. Os pesquisadores acreditam que isso pode contribuir no controle da infecção.

Para chegar a essas conclusões, o grupo analisou amostras de sangue de 60 pacientes adultos e 65 crianças e adolescentes com Covid-19 entre os meses de março e maio. Entre os pacientes pediátricos selecionados, alguns haviam desenvolvido uma rara síndrome associada à infecção pelo novo coronavírus, chamada Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P). Essa condição é caracterizada por uma grande resposta inflamatória que, em casos graves, pode acometer diversos órgãos e sistemas do corpo. Mesmo que ocorra em um baixíssimo número de crianças, os pesquisadores selecionaram algumas delas para avaliar as possíveis diferenças e semelhanças do seu sistema de defesa em comparação a outros pacientes pediátricos e adultos. O sangue dos participantes foi testado para a presença de vários tipos de células de defesa, anticorpos e proteínas inflamatórias, conhecidas como citocinas.

Todos os pacientes foram acompanhados durante o período de infecção e, como esperado, as crianças tiveram uma evolução melhor que a dos adultos: 22 adultos (37%) necessitaram de ventilação mecânica, contra cinco (8%) dos pacientes pediátricos. Além disso, 17 adultos (28%) morreram no hospital, enquanto somente duas crianças (3%) não sobreviveram ao vírus. Nenhuma morte ocorreu entre as crianças com SIM-P.

Para entender os resultados, é preciso antes compreender como se comporta o sistema de defesa humano. Ele é formado basicamente por dois tipos de imunidade: a inata e a adaptativa. A resposta inata, ou natural, é a nossa primeira linha de defesa. Esse tipo de imunidade nasce com a pessoa e sua ação é mais rápida e generalizada, já que tenta conter a propagação de qualquer corpo estranho assim que percebe algo errado. Essa linha de defesa é composta por barreiras físicas (pele, mucosa, entre outros), químicas e biológicas (proteínas, enzimas e células). Esses componentes identificam e tentam destruir aquilo que o corpo entende que é um inimigo. 

Mas nem sempre a resposta inata dá conta do recado e consegue eliminar um invasor. É aí que entra o segundo tipo de defesa, responsável por criar nossa memória imunológica. Ela demora um pouco mais para aparecer, mas é bem específica no combate. Essa é a chamada imunidade adaptativa, composta por uma série de anticorpos chamados imunoglobulinas, que cumprem diferentes funções, como identificar o patógeno, neutralizá-lo e destruí-lo. Esses anticorpos recrutam outros componentes para o combate, como células específicas de defesa, que guardam a memória do vírus para que, em uma próxima infecção, ele possa ser combatido mais rapidamente.

Nas análises sanguíneas, os pesquisadores identificaram uma resposta diferente em todas as crianças e adolescentes em comparação aos adultos. Os pacientes pediátricos apresentavam níveis mais elevados de duas moléculas pertencentes ao sistema inato: a interleucina 17A, que ajuda a mobilizar a resposta do sistema imunológico durante a infecção inicial, e o interferon gama (INF-g), que combate a replicação viral. Quanto mais jovem o paciente, maiores os níveis dessas duas moléculas. De acordo com a pesquisadora Betsy Herold, uma das autoras do estudo, isso sugere “que as crianças têm uma resposta imune inata mais eficaz contra o vírus, o que pode protegê-las da progressão da doença”. Além disso, como essa resposta inicial é mais eficiente, os mais jovens acabam não precisando desenvolver uma resposta adaptativa tão robusta. Isso ficou evidenciado também nas análises de sangue dos adultos, que apresentaram níveis mais elevados de anticorpos neutralizantes e outros componentes da resposta adaptativa. Essa segunda resposta mais expressiva, e às vezes exagerada, do organismo, explicam os autores do estudo, é o que pode levar os adultos a desenvolverem inflamações que resultam em quadros graves da Covid-19.

Nas conclusões do estudo, eles afirmam que “a resposta imune precoce e forte resulta em uma resolução mais rápida da infecção viral e evita a liberação progressiva de citocinas e outros elementos que ocorrem na resposta imune adaptativa mais robusta”. De fato, estudos publicados em revistas como Journal of Clinical Investigation e The Lancet já mostraram que muitos casos graves de Covid-19 são resultado de uma “tempestade de citocinas”, que nada mais é do que uma resposta do sistema imunológico tão aguda que acaba agredindo o organismo. Essa “tempestade” leva os pacientes a desenvolverem quadros severos, como falência múltipla de órgãos e síndrome respiratória.

Nos casos de crianças com a SIM-P, os pesquisadores identificaram que, apesar de terem uma resposta inata semelhante à dos demais pacientes pediátricos, elas apresentaram outras características do sistema imune adaptativo semelhantes à dos adultos, o que poderia justificar o desenvolvimento desses quadros graves da doença. Os motivos pelos quais isso ocorre, no entanto, ainda não estão claros para a ciência.

Esse novo estudo, ainda que tenha algumas limitações como o baixo número de participantes, se soma a outras dezenas de pesquisas que vêm tentando compreender o comportamento do novo coronavírus em jovens. Estudos anteriores já indicaram que crianças com a Covid-19 podem ter a mesma carga viral ou até maior que adultos. Mesmo assim, uma pesquisa publicada na revista British Medicine Journal (BMJ) que avaliou dados de centenas de pessoas classificou a morte por Covid-19 em crianças como “excepcionalmente rara”. Pesquisadores já haviam levantado a hipótese de que isso ocorria porque as crianças apresentavam menores quantidades da proteína ECA-2, que é usada pelo novo coronavírus para se ligar às células humanas e invadi-las. Com os novos dados sobre a reação do sistema imunológico dos mais jovens frente ao Sars-CoV-2, cientistas esperam ajudar também no desenvolvimento de medicamentos e vacinas mais eficazes.

Fontes:

Acta Pediatrica. Artigo disponível em:
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/apa.15270

Science Translational Medicine. Artigo disponível em:
https://stm.sciencemag.org/content/early/2020/09/21/scitranslmed.abd5487.full

Journal of Pediatrics. Artigo disponível em:
https://www.jpeds.com/article/S0022-3476(20)31023-4/fulltext

British Medical Journal. Artigo disponível em:
https://www.bmj.com/company/newsroom/children-and-young-people-have-less-severe-covid-19-than-adults-and-death-is-exceptionally-rare/

Journal of Clinical Investigation. Artigo disponível em:
https://www.jci.org/articles/view/139642

The Lancet. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/journals/lanres/article/PIIS2213-2600(20)30216-2/fulltext

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Marcela Duarte e Chico Marés

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