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#Verificamos: Médico usa informações falsas para dizer que gripe é mais mortal que Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
29.set.2020 | 20h48 |

Circula nas redes sociais um post de um médico que diz que a gripe é mais mortal que a Covid-19. A publicação também usa de informações sobre outras epidemias para atacar as medidas preventivas contra o novo coronavírus adotadas durante a atual pandemia, a exemplo do uso de máscaras e do distanciamento social. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Nós temos que esperar pela VACINA? NEGATIVO. No início da H1N1, também não tínhamos vacina, como na altura da SARS-CoV. No entanto: não colocamos países em isolamento não bloqueamos a economia global, não paralisamos o sistema educativo, ninguém se distanciou socialmente e não obrigamos pessoas saudáveis a usar o ABSORVENTE DE BOCA [máscara]”
Legenda de imagem publicada no Instagram que, até as 13h do dia 29 de setembro de 2020, tinha mais de 950 curtidas

EXAGERADO

A informação analisada pela Lupa é exagerada. Apesar de os efeitos da pandemia da Covid-19 serem maiores, alguns países em 2009 adotaram medidas emergenciais para diminuir a propagação da H1N1. Viajantes passaram por triagens, casos suspeitos foram isolados, e aulas chegaram a ser suspensas.

O governo da Cidade do México, por exemplo, ordenou a suspensão das atividades em todos os setores não essenciais, para prevenir a contaminação pelo vírus, durante cinco dias, no final de abril de 2009. Atividades em ginásios, cinemas e teatros, por exemplo, foram restringidas. Jogos de futebol foram realizados sem público. Houve também o cancelamento de todas as atividades de educação no Distrito Federal e em toda a sua área metropolitana, e no estado do México. Medidas de distanciamento social também foram implementadas no resto do país, em especial a suspensão das atividades escolares. Foi no México onde ocorreu o primeiro registro do vírus, em março de 2009, em um vilarejo no estado de Veracruz.

Algumas escolas no Brasil, conforme reportagens publicadas na época (a exemplo da Folha de S.Paulo e UOL), decidiram adiar a volta às aulas após o período de férias para diminuir a propagação do H1N1.

Sobre o uso de máscaras, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendava o uso das máscaras principalmente em espaços fechados onde houvesse contato próximo com pessoas com sintomas de influenza. Segundo o órgão, as evidências sugeriam que a principal via de transmissão era por gotículas respiratórias, como as liberadas durante a fala, tosse ou espirros. “Qualquer pessoa que estiver em contato próximo (1 metro aproximadamente) de alguém com sintomas de influenza (febre, coriza, tosse, espirros, calafrios, mialgia etc) está em risco de exposição a gotículas respiratórias infecciosas.” Na ocasião, a OMS informou que, apesar de não haver informações suficientes sobre a eficácia das máscaras, somente o uso delas não seria suficiente. Era preciso, por exemplo, lavar as mãos e evitar o contato com o nariz e os olhos.

H1N1

Embora a H1N1, também conhecida popularmente como gripe suína, tenha sido considerada uma pandemia pela OMS, o efeito dos dois vírus no mundo foi bastante diferente. A H1N1 foi muito menos letal do que inicialmente imaginado. Pesquisadores estimam que a taxa de mortalidade foi de apenas 0,026%. Entre os meses de março de 2009 e agosto de 2010, período no qual a OMS considerou a H1N1 uma pandemia, foram registradas 18.449 mortes.


“Mas, este vírus é muito mais mortal. MENTIRA. Se compararmos, por exemplo, 5 meses de ‘pandemia’ com a gripe no mundo, veja o resultado: GRIPE: No periodo de 5 meses temos, em média, 420 milhões de casos com 270.000 de mortos. Agora compare esses dados com os da tal ‘PANDEMIA’”
Legenda de imagem publicada no Instagram que, até as 13h do dia 29 de setembro de 2020, tinha mais de 950 curtidas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O vírus da Covid-19 é muito mais mortal que o da gripe. Apesar de não haver referências de onde os números citados no post foram retirados, a OMS estima, por exemplo, que, por ano, o vírus da gripe infecte 1 bilhão de pessoas e ocasione entre 290 e 650 mil mortes. Um estudo publicado pelo Journal of Global Health, em outubro de 2019, estima uma média anual de 389.000 óbitos por influenza.

Já em relação à Covid-19, o vírus já ocasionou mais de 1 milhão de óbitos em 33,2 milhões de casos confirmados desde dezembro de 2019. Segundo a OMS, embora se leve algum tempo para entender completamente a verdadeira taxa de mortalidade, os dados existentes sugerem que a letalidade da Covid-19 está entre 3% e 4%. Para a gripe sazonal, a mortalidade geralmente está abaixo de 0,1%.


“A taxa de mortalidade deste coronavírus é três vezes menos letal que o de 2003 (10%) e dez vezes menos letal que o de 2012 (35%)”
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VERDADEIRO, MAS

A informação analisada pela Lupa é verdadeira, mas é preciso ter cuidado com os números de epidemias anteriores. Hoje a detecção de um vírus é mais fácil e rápida, graças às novas tecnologias desenvolvidas. Com isso, os dados disponíveis levam a um cálculo mais preciso da letalidade do que no passado, dificultando comparações como a que o post menciona. “Hoje, com a biotecnologia, rapidamente temos as ferramentas para confirmar casos. Com os surtos anteriores de coronavírus, os laboratórios não tinham como fazer isso tão rápido”, explicou o professor Kleber Luz, do Instituto de Medicina Tropical da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em entrevista à BBC.

É importante mencionar também que a Covid-19 está presente em muito mais países – ao menos em 188. A título de comparação, a SARS, em 2003, alcançou, no mínimo, 28 países. A MERS, segundo a OMS, foi registrada em 27 países.

A OMS estima que a taxa de mortalidade do novo coronavírus está entre 3% e 4%. Outros estudos convergem para algo entre 0,5% e 1%. Esses dados vão variando conforme a pandemia avança.

Em relação à epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, na sigla em inglês), a OMS diz que o vírus atingiu 8.096 pessoas, dentre as quais 774 morreram. A taxa de letalidade foi de 9,6%. Sobre a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), segundo a OMS, a taxa de mortalidade foi de 34,3%. Foram confirmados 2.519 casos, com 866 mortes. Mais de 84% das infecções ocorreram somente na Arábia Saudita.


“O SARS-CoV-2 […] causa 85% das formas benignas”
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VERDADEIRO

A informação analisada pela Lupa é verdadeira. Segundo informações da OMS, os dados sugerem que 80% das infecções por Covid-19 são leves ou assintomáticas, ou seja, são casos onde os pacientes se recuperam da doença sem precisar de tratamento hospitalar. Uma em cada seis pessoas infectadas por Covid-19 fica gravemente doente e desenvolve dificuldade de respirar. Além disso, 15% dos casos são considerados graves e requerem oxigênio e 5% são críticos, exigindo ventilação. Essas porcentagens de infecções graves e críticas são mais altas que as da gripe, diz o órgão.


“[A Covid-19] não constitui um perigo para mulheres grávidas”
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FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Estudos sobre a Covid-19 publicados recentemente indicaram um maior risco de mulheres grávidas apresentarem a forma grave da doença e, consequentemente, de serem hospitalizadas em unidades de terapia intensiva.

Em agosto, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), escritório regional da OMS para as Américas, advertiu em um alerta epidemiológico os países para intensificarem os esforços com o objetivo de garantir o acesso aos serviços de atenção pré-natal para mulheres grávidas. Dados compilados pela OPAS mostram que 28.387 casos da Covid-19 em mulheres grávidas foram notificados por 10 países, com 356 mortes de janeiro a 11 de agosto de 2020. “Os dados atualmente disponíveis sugerem que as mulheres grávidas correm um risco maior de desenvolver uma forma grave de Covid-19; em alguns casos, isso pode levar à morte”, diz o texto.

Um outro estudo, publicado no relatório semanal em junho do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, apresentou evidências de que as grávidas tendem a desenvolver quadros mais graves da doença. Já no início de julho, uma pesquisa nacional, publicada no periódico International Journal of Gynecology and Obstetrics, trouxe mais um sinal de alerta para as gestantes brasileiras. De um total de 978 casos avaliados, foram registradas 124 mortes. Isso significa que a taxa de mortalidade foi de 12,7% na população obstétrica brasileira.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Maurício Moraes

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VERDADEIRO, MAS
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EXAGERADO
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CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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