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Foto: Roque de Sá/Agência Senado
Foto: Roque de Sá/Agência Senado

Em entrevistas, Salles cita dados incorretos sobre desmatamento e queimadas na Amazônia

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
30.set.2020 | 19h04 |

De 19 de agosto a 24 de setembro deste ano, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deu entrevistas e falou em transmissão ao vivo em redes sociais sobre as queimadas e o desmatamento na Amazônia, além do derramamento de óleo que atingiu o litoral brasileiro em 2019. Ele também divulgou dados sobre o fogo no Pantanal e as emissões de carbono e gás estufa.

Salles é advogado e está no cargo federal desde janeiro do ano passado. Antes disso, foi secretário de Meio Ambiente do estado de São Paulo no governo de Geraldo Alckmin (PSDB). A Justiça do Rio de Janeiro suspendeu ontem (29) uma decisão do ministro que extinguiu a proteção a manguezais e restingas do litoral brasileiro, ao ter em vista “o evidente risco de danos irrecuperáveis ao meio ambiente”.

A Lupa verificou algumas das declarações do ministro. Confira o resultado:

“Não é a toa que a Amazônia (…) [tem] a população mais pobre, o pior IDH do Brasil é dos 23 milhões que vivem lá”
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em entrevista para o programa Pânico Jovem Pan em 17 de setembro de 2020

INSUSTENTÁVEL

Não há dados públicos que comprovem essa afirmação. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), responsável pela avaliação do Índice de Desenvolvimento Humano, não divulga o IDH por região, e sim por estados, municípios e regiões metropolitanas. Além disso, a Amazônia não é tecnicamente, de acordo com a Divisão Político Administrativa do país, uma região – e sim um bioma, que abrange territórios em três regiões do país.

A Amazônia é um dos seis biomas brasileiros, que abrange o território de sete estados da região Norte (Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá e partes de Tocantins) e de partes de um estado da região Nordeste (Maranhão) e de outro estado da região Centro-Oeste (Mato Grosso).

De acordo com a plataforma Atlas Brasil, desenvolvido pela PNUD com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e a Fundação João Pinheiro (FJP), o estado com pior IDH no país é Alagoas (0,683), que não fica na Amazônia.

Se considerarmos o ranking de 10 estados com pior IDH do país, apenas três deles ficam integralmente no bioma Amazônia: Pará (0,698), Acre (0,719) e Rondônia (0,725). O Maranhão (0,687), segundo menor IDH do país, tem cerca de 34% de seu território no bioma (80%, se considerada a Amazônia Legal). Os demais estados que estão nesta lista de piores IDH, além de Alagoas, são todos localizados no Nordeste: Piauí (0,697), Sergipe (0,702), Bahia (0,714), Paraíba (0,722) e Pernambuco (0,727).


“No ano passado, nos meses setembro e outubro, [o Brasil] reduziu as queimadas [na Amazônia] nos menores índices dos últimos 20 anos”
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em entrevista no Youtube para o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em 12 de setembro de 2020

EXAGERADO

Dados divulgados pelo Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram que o número de queimadas no mês de setembro de 2019 não foi o menor dos últimos 20 anos, como afirma o ministro. Em outubro, contudo, o número de focos registrados foi o mais baixo para o mês na série histórica, iniciada em junho de 1998.

Em setembro do ano passado, foram registrados 19.925 focos de incêndio na Amazônia. Em 2013, 2011, e nos anos entre 1999 e 2001 a quantidade de incêndios foi menor. A média histórica para o mês é de 32.812. Já em outubro, foram registrados 7.855 queimadas, número mais baixo para o mês desde, pelo menos, 1998.

Vale pontuar, contudo, que no mês de agosto de 2019, o número de focos, 30.900, foi o mais alto para o período desde 2010.


“É fato que o óleo que chegou no Nordeste é um óleo extraído de postos da Venezuela”
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em entrevista no Youtube para o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em 12 de setembro de 2020

AINDA É CEDO PARA DIZER

As investigações acerca da origem do óleo que atingiu o litoral brasileiro em 2019 ainda estão em andamento. A Marinha do Brasil enviou um relatório conclusivo da investigação à Polícia Federal, que por sua vez segue com as investigações em sigilo.

A apuração da Marinha confirmou que o óleo coincide com o que é extraído em campos da Venezuela. No entanto, essa conclusão não significa que o material foi lançado por empresas daquele país. Ainda são apuradas hipóteses sobre a origem do óleo, como o derramamento em manobras de navios, a exsudação (vazamento) envolvendo poço ativo ou o rompimento de um poço anteriormente perfurado e atualmente desativado.

Contudo, o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélite (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), contesta essa avaliação. Em estudo publicado em agosto, pesquisadores da instituição afirmam que o óleo partiu do Golfo da Guiné, na costa da África, com base em análise feita por satélite. A Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha (DGDNTM) informou, em nota, que ouviu pesquisadores e cientistas que descartam essa hipótese.


“Alguns saíram dizendo ‘a Amazônia esse ano está queimando de novo’, fizeram um filminho e tudo mais. Não está”
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em entrevista à Rádio Bandeirantes em 15 de setembro de 2020

FALSO

Os dados divulgados pelo Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, de janeiro até agosto deste ano, a Amazônia registrou 34.373 km² de área queimada. Esse número é o 9º pior resultado da série histórica relativa à área queimada da região amazônica disponível no site do Inpe (de 2003 até 2020), para o período de janeiro a agosto.

O ministro também havia negado a ocorrência de queimadas na região amazônica no Twitter, cinco dias antes. A Lupa verificou à época e mostrou que a publicação era falsa.


O desmatamento [na Amazônia] nós veremos que foi […] três vezes, em 2004 e 2005, do que foi ano passado”
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em entrevista ao Jornal da Gazeta em 19 de agosto de 2020

VERDADEIRO, MAS

Em 2004, o desmatamento na Amazônia Legal foi de 27.772 quilômetros quadrados, quase três vezes mais que o ano de 2019, que foi de 10.129 quilômetros quadrados. Em relação ao período de 2005, os dados mostram que foi quase duas vezes maior que o ano passado, com 19.014 quilômetros quadrados. Os dados são do Programa de Cálculo do Desmatamento da Amazônia (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Entretanto, o desmatamento registrado na Amazônia no ano de 2019 foi o pior desde 2008. Naquele ano, foram desmatados 12.911 quilômetros quadrados de florestas na região.


“O desmatamento [na Amazônia] caiu até 2012, mas vem subindo desde então”
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em entrevista ao Jornal da Gazeta em 19 de agosto de 2020

VERDADEIRO, MAS

A taxa de desmatamento medida pelo Inpe chegou ao seu menor nível em 2012, quando foram derrubados 4.571 quilômetros quadrados de floresta na Amazônia Legal. A partir daí, os números oscilaram ao longo dos anos, mas em uma tendência de alta.

Após sucessivas reduções desde 2008, houve aumento em 2013 (5.891 quilômetros quadrados), seguido de uma queda em 2014 (5.012 quilômetros quadrados). Em 2016, o Prodes registrou crescimento de novo (7.893 quilômetros quadrados), com outra queda em 2017 (6.947 quilômetros quadrados). O número mais recente, de 2019, indicou alta na taxa de desmatamento (10.129 quilômetros quadrados).


“[Emissão de carbono]…3%, nós não somos os vilões da emissão do gás estufa no mundo”
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em participação durante a live semanal do presidente Jair Bolsonaro em 24 de setembro de 2020

VERDADEIRO

O número citado por Salles está próximo do correto. O Brasil foi responsável por 3,4% da emissão de gases do efeito estufa – que incluem o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso, por exemplo – em 2018. As informações são do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg). O país é considerado o sexto maior emissor de gases do efeito estufa no mundo, fica atrás apenas da China, Estados Unidos, Índia, Indonésia e Rússia.

Considerando somente o dióxido de carbono, o impacto do Brasil é menor. Os dados do Global Carbon Atlas mostram que o Brasil foi responsável por 1,3% da emissão de dióxido de carbono no mundo em 2018, dados mais recentes. Naquele ano, todos os países somados emitiram 36.573 megatoneladas do gás. Desse total, o Brasil foi responsável por 457 megatoneladas. Em números absolutos, o Brasil foi o 14º país que mais emitiu essa substância – China, Estados Unidos e Índia lideram esse ranking.

Editado por: Chico Marés

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