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Lupa na Ciência: Pesquisa lista cinco medidas que países devem adotar no longo prazo contra a Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
30.set.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– Um estudo recente identificou cinco medidas que devem ser implementadas pelos países no longo prazo para evitar novos surtos da Covid-19

– Os pesquisadores avaliaram as decisões que foram bem-sucedidas e as que resultaram em novas ondas de contágio

– Entre os pontos positivos estão monitoramento de novos casos em tempo real, clareza nas restrições ou flexibilizações e adoção de estratégias para engajar e educar a população

– Os cientistas alertam para a necessidade de um sistema de saúde em que seja eficaz a testagem em massa, o rastreamento de contatos e o isolamento de novos casos 

– Controle de fronteiras e hospitais bem equipados foram outros pontos identificados como fundamentais para evitar novas ondas do vírus

– Eles destacam que a flexibilização das medidas restritivas só deve ocorrer quando esses cinco critérios forem cumpridos

Sete meses após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar que o mundo estava enfrentando uma pandemia, ainda não há consenso sobre a melhor forma de controlar a Covid-19. A partir da análise de algumas medidas bem-sucedidas e de outras que resultaram em novas ondas de contágio, um grupo de pesquisadores estabeleceu cinco critérios que consideram fundamental para que um país flexibilize suas medidas de restrição contra a doença. Segundo o estudo, publicado na última semana na revista The Lancet, as medidas necessárias são: monitoramento em tempo real de novos casos; engajamento da comunidade; sistema de saúde pública bem preparado; hospitais equipados e abastecidos; e controle de fronteiras. “Lockdown e outras restrições extremas não podem ser sustentados por um longo prazo na esperança de que haja uma vacina ou tratamento eficaz para a Covid-19”, alegam os pesquisadores. 

Os cientistas defendem que é preciso encontrar o equilíbrio certo entre “vários aspectos sociais, de saúde e econômicos”, e que essas cinco medidas são fundamentais para isso. O estudo baseia-se na análise das estratégias adotadas por nove países: Hong Kong, Japão, Nova Zelândia, Cingapura, Coreia do Sul, Alemanha, Noruega, Espanha e Reino Unido. Enquanto alguns deles flexibilizaram as medidas com segurança, outros não cumpriram os critérios necessários para evitar novas ondas de infecção e agora enfrentam o desafio de conter um novo aumento das mortes.  De acordo com os autores do estudo, “mesmo que o futuro da Covid-19 seja desconhecido, os países devem estar preparados para o pior cenário” e adotar imediatamente as medidas que já se mostraram eficazes. 

Vigilância em tempo real

Os pesquisadores fizeram um comparativo do tipo de controle epidemiológico realizado pelos países e indicaram que é necessário implementar um sistema que reúna dados sobre novos contágios em tempo real. Isso serviria para calcular o número de reprodução (R) e verificar onde a doença continua a se espalhar, permitindo assim respostas direcionadas. O valor R determina o potencial de propagação de um vírus dentro de condições específicas. Se R é superior a 1, cada pessoa transmite a doença a pelo menos uma outra pessoa, e o vírus se dissemina. Se R for menor do que 1, cada vez menos indivíduos se infectam e é possível controlar a propagação da doença. A partir das experiências de alguns países asiáticos, os cientistas indicam que o monitoramento em tempo real é eficaz principalmente para que novas medidas de contenção possam ser adotadas em regiões específicas, antes que o vírus volte a se espalhar de maneira mais abrangente, evitando a necessidade de novos lockdowns.

Além disso, destacam a necessidade de um plano que seja claro quanto aos níveis ou fases da flexibilização e das restrições,  quanto aos critérios para passar para o próximo nível ou fase e quanto às medidas de contenção que cada nível ou fase implica. De acordo com os autores do estudo, países como Cingapura e Espanha, que recorrem a conselhos de especialistas para decidir quando e como relaxar as medidas, sem critérios específicos e públicos sobre número R, estão mais suscetíveis a novas ondas de contágio. 

 Hong Kong é um dos locais que desde fevereiro realizam um monitoramento do número de reprodução em tempo real. Lá, o grau de restrições vem sendo flexibilizado ou reforçado de acordo com esse monitoramento, em uma estratégia bem-sucedida. Em meados de março e de julho, no entanto, o país viveu novos surtos da doença. Especialistas acreditam que o motivo foi o relaxamento pontual em alguns controles de fronteiras

Cuidados no ingresso de estrangeiros

O rigor adotado por países asiáticos em suas fronteiras é entendido pelos especialistas como uma estratégia eficaz para evitar novos surtos da doença. Locais como Hong Kong, Nova Zelândia e Cingapura mantiveram as fronteiras fechadas por algum tempo, e conciliaram a reabertura gradual com medidas como a obrigatoriedade de testar os viajantes e quarentena de 14 dias em casa ou em instalações designadas. 

No caso de Hong Kong, a flexibilização temporária e localizada dessas medidas resultou no aumento de casos. Já alguns países europeus foram muito flexíveis nesse ponto, isentando cidadãos da União Europeia, por exemplo, de fazerem quarentena. A estratégia resultou em novas ondas de contágio, e levou locais como Espanha a incorporar, posteriormente, processos automatizados como câmeras de imagem térmica para facilitar a triagem de temperatura dos visitantes. 

De acordo com o grupo de pesquisadores, conforme mais países começam a reabrir suas fronteiras, tornam-se essenciais triagens e medidas como quarentena obrigatória em determinados casos. A sua adoção permite identificar potenciais infectados e prevenir futuras transmissões na comunidade.

Engajamento social

Ao analisar o comportamento dos cidadãos europeus e asiáticos nos primeiros meses da pandemia, os pesquisadores comprovaram que o uso de máscaras foi adotado em uma extensão muito maior na Ásia do que na Europa. Eles atribuem essa diferença às experiências com epidemias anteriores que os asiáticos enfrentaram, como por exemplo a de SARS em 2003 e a de MERS em 2015. “O público (asiático) foi mais bem condicionado a cooperar com regras rígidas em tempos de crise em comparação com países sem experiência de grandes epidemias”, explicam. 

De acordo com o estudo, as medidas bem-sucedidas de distanciamento social, higiene e uso de proteção facial devem ser reforçadas e mantidas mesmo com a estabilização das mortes, já que comprovaram ser eficazes. “Os governos devem educar, envolver e capacitar todos os membros da sociedade, especialmente os mais vulneráveis, a participar na resposta à pandemia. Em vez de elaborar essas medidas com base em suposições sobre o que as comunidades podem ou não aceitar, os cidadãos devem ser diretamente envolvidos no processo de definição das soluções apropriadas para o contexto local”, recomendam. 

Os autores do estudo explicam que as medidas básicas de distanciamento, uso de máscaras e higiene deverão ser mantidas por tempo indeterminado, já que o futuro da pandemia é incerto. Por isso, alertam, a educação e o engajamento dos cidadãos são fundamentais.

Sistema de saúde bem preparado 

Outra questão em que a Ásia saiu na frente devido ao preparo adquirido com epidemias anteriores foi a agilidade em organizar o sistema de saúde. Muitos países asiáticos prontamente adotaram testagem em massa da população, rastreamento e isolamento de todos os casos (ou seja, não apenas de casos graves). Essa estratégia, que também foi adotada de forma eficaz pela Alemanha, contribuiu para o controle mais rápido dos casos e redução no número de mortes. 

Conforme os países flexibilizam as medidas restritivas e reabrem escolas, diferentes estudos já apontaram que localizar, testar, rastrear, isolar e apoiar pessoas infectadas é necessário para que esse processo seja seguro. Como uma das características do novo coronavírus é espalhar-se mesmo por meio de pessoas assintomáticas, o controle constante torna-se fundamental para reduzir o número de mortes e evitar a sobrecarga dos sistemas de saúde. “À medida que mais evidências se tornam disponíveis, algumas dessas estratégias podem ajudar os países a controlar os surtos da doença, evitando o retorno ao lockdown”, explicam. 

Hospitais equipados

Ao longo dos últimos meses, outro aprendizado importante foi o de que um atendimento hospitalar adequado pode salvar muitas pessoas com quadros graves da Covid-19, situação em que o tempo de internação costuma ser longo. Os pesquisadores indicam que os países devem manter e aprimorar os investimentos nessa área, aumentando o número de leitos, disponibilizando equipamentos e treinando profissionais da saúde. Recentemente, explicam os pesquisadores, o Fundo Monetário Internacional apelou para os governos priorizarem os gastos com saúde. Essas despesas devem ser acompanhadas do treinamento de trabalhadores qualificados para não só reforçar o combate à pandemia como também estimular a recuperação econômica. 

Nas conclusões do estudo, os autores apontam o caso da Nova Zelândia – que flexibilizou as medidas restritivas de forma cautelosa e com monitoramento constante – como um exemplo a ser seguido. Eles alertam que há uma percepção crescente de que o relaxamento não deve significar uma volta à realidade pré-pandemia, mas sim refletir a construção de um novo normal, em que a vigilância e os cuidados devem ser mantidos até que se tenha uma vacina eficaz contra o novo coronavírus. 

Fontes:

Organização Mundial da Saúde (OMS). Documento disponível em:
https://www.euro.who.int/en/health-topics/health-emergencies/coronavirus-covid-19/news/news/2020/3/who-announces-covid-19-outbreak-a-pandemic

The Lancet. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S0140-6736%2820%2932007-9

The Lancet Child & Adolescent Health
https://www.thelancet.com/journals/lanchi/article/PIIS2352-4642(20)30250-9/fulltext
https://www.thelancet.com/journals/lanchi/article/PIIS2352-4642(20)30251-0/fulltext

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra  a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Maurício Moraes e Chico Marés

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