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Lupa na Ciência: Estudo mostra que ‘super contaminadores’ são responsáveis pela maioria dos casos de Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
05.out.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– O maior estudo de rastreamento de contato já feito, que avaliou quase meio milhão de pessoas expostas ao SARS-Cov-2, reforçou a hipótese de que poucas pessoas são responsáveis por espalhar o novo coronavírus

– De acordo com os pesquisadores, 71% dos mais de 80 mil infectados não transmitiram o vírus para outras pessoas, enquanto 8% dos indivíduos infectados foram responsáveis ​​por 60% das novas infecções

– Os autores do estudo avaliaram, ainda, que crianças e jovens têm um papel importante na transmissão da doença

– Ainda não se sabe o que leva algumas pessoas a serem “super contaminadores”, mas especialistas acreditam que isso é resultado de uma combinação de fatores biológicos e comportamentais

– Como não se tem como prever os aspectos biológicos que definem um “super contaminador”, os cientistas alertam que os cuidados de distanciamento social e higiene devem ser cumpridos por todos

O estudo mais abrangente já feito em relação à atual pandemia, que contou com cerca de meio milhão de pessoas na Índia expostas ao SARS-CoV-2, trouxe novas evidências sobre uma das teses mais aceitas em relação à forma como o novo vírus se espalha. Sua propagação é impulsionada, de forma geral, por uma pequena porcentagem de pessoas, denominadas “superspreaders” (em português, algo como “super contaminadores”). O estudo, publicado na última semana na revista Science, apontou também que crianças e jovens adultos são potencialmente muito mais importantes do que se imaginava para a transmissão do vírus. 

Para chegar a essas conclusões, pesquisadores americanos do Princeton Environmental Institute (PEI), da Johns Hopkins University e da University of California, Berkeley, trabalharam com funcionários da saúde pública em dois estados do sudeste da Índia, que contam com uma população de 128 milhões de pessoas e estão entre os locais mais afetados do país. Eles utilizaram dados de 575.071 indianos expostos ao vírus, sendo que 84.965 tinham testado positivo para a infecção pelo SARS-CoV-2 (um terço era composto por crianças e jovens adultos). As informações foram colhidas desde o início da pandemia até 1º de agosto. Entre os dados coletadas estavam as vias de infecção e as taxas de mortalidade. Esse é considerado o maior estudo de rastreamento de contato – que é o processo de identificação de pessoas que entraram em contato com uma pessoa infectada – realizado no mundo para qualquer doença. Entre os resultados, os pesquisadores descobriram que 71% dos infectados não foram responsáveis por contaminar nenhum de seus contatos, enquanto 8% dos indivíduos infectados foram responsáveis ​​por 60% das novas infecções. Os autores do estudo apontaram, ainda, que o potencial dos mais jovens de transmitir a doença, algo que vem sendo debatido há meses por pesquisadores, é significativo. Foi identificada uma alta prevalência de infecções entre crianças que entraram em contato umas com as outras. 

Em uma entrevista após a publicação do estudo, um dos autores da pesquisa, Ramanan Laxminarayan, do Princeton Environmental Institute (PEI), disse que “as crianças têm um papel muito importante (na transmissão). Elas provavelmente foram infectadas principalmente por jovens adultos com idades entre 20 e 40 anos e transmitiram a doença entre si. E isso é incomum, porque as escolas na Índia foram fechadas desde março”. Um dos motivos para tal, explica, é que a proporção de crianças que estão infectadas mas não apresentam nenhum sintoma é maior do que a dos adultos. Portanto, eles podem não ser reconhecidos como potenciais portadores da doença, mesmo que sejam “super contaminadores”. 

“Super contaminadores” ocorrem em diversas doenças

A tese de que poucas pessoas são responsáveis pela maior parte dos contágios na atual pandemia não é nova. Na verdade, algo semelhante já havia sido identificado em epidemias passadas, como por exemplo a de SARS e MERS, Ebola entre outras. Em um estudo publicado em 2015, George F. Gao, um pesquisador do Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças, em Pequim, afirmou que “o surto de MERS-CoV na Coréia do Sul foi causado principalmente por três indivíduos infectados, e que aproximadamente 75% dos casos podem ser rastreados a partir de três ‘super contaminadores’ que infectaram um número desproporcionalmente alto de contatos”. 

No caso da Covid-19, os estudos sobre o tema começaram a ser feitos já em janeiro, a partir da identificação de um paciente em Wuhan que infectou 14 profissionais da saúde. Como a estimativa é de que uma pessoa contaminada infecta, de maneira mais geral, de duas a três pessoas, esse caso chamou a atenção. Desde então, vários outros casos parecidos começaram a ser identificados. Entre eles, uma reunião em uma igreja na Coreia do Sul, em que uma mulher contaminada acabou transmitindo o vírus para outras 37 pessoas. 

Um dos estudos que demonstrou essa tendência, divulgado em maio, acompanhou diversos grupos de contágios em Hong Kong a partir do rastreamento dos contatos de pessoas que haviam sido infectadas. Os pesquisadores estimaram que apenas 20% dos contaminados forma responsáveis por até 80% das transmissões locais. Outra pesquisa, realizada em Israel e ainda não revisada por pares, comparou as sequências genéticas do SARS-Cov-2 de amostras de pacientes dentro e fora do país. Baseando-se nessas diferenças, conseguiram identificar as vezes que o vírus entrou no país e acompanhar como ele se espalhou dentro das famílias. Eles concluíram que 80% das transmissões comunitárias puderam ser rastreadas a partir de apenas entre 1 e 10% dos indivíduos contaminados. Conclusões semelhantes foram identificadas em diversos outros estudos, realizados em diferentes países. 

Potencial de transmissão é multifatorial 

O que faz uma pessoa ser um “super contaminador” ainda não é totalmente esclarecido pela ciência. Pesquisadores especulam que esse potencial de transmitir o vírus para várias pessoas tenha relação com o sistema imunológico de alguns, que não seria tão eficiente em combater o patógeno, e que estaria ligado também com a carga viral que a pessoa é exposta e carrega. De acordo com a especialista Elizabeth McGraw, diretora do  Center for Infectious Disease Dynamics na Universidade da Pensilvania, o mais provável é que isso dependa de uma conjunção de fatores, que está relacionada com características do vírus, do sistema imunológico e do comportamento do infectado. Uma das questões destacadas por ela é que pessoas assintomáticas ou pré-sintomáticas não costumam adotar medidas de restrição de contatos ou outros cuidados mais rígidos com a higiene, o que faz com que elas contagiem outros sem saber. Aqueles que viajam com frequência ou possuem trabalhos que demandem o contato com outros, por exemplo, tem mais chances de se tonarem “super contaminadores”. 

Várias pesquisas já identificaram que, além das pessoas com maior potencial de transmitir a doença, existem também situações consideradas de “super contágio”. Locais que reúnem um número grande de pessoas por um período de tempo considerável, em um ambiente fechado e sem uma ventilação adequada, são muito mais propícios a resultarem em um grande número de novos casos. Um estudo de 110 casos de Covid-19 no Japão descobriu que a probabilidade de transmitir o patógeno em um ambiente fechado e com pouca ventilação era mais de 18 vezes maior do que em um espaço ao ar livre. De acordo com Laxminarayan, pela impossibilidade de se definir precocemente quem é um “super contaminador”, os cientistas alertam que todos devem evitar esse tipo de situação, e manter um rigoroso cuidado com o distanciamento social e as demais medidas protetivas. “Os eventos de super contágio são a regra e não a exceção quando se olha para a disseminação do COVID-19, tanto na Índia quanto provavelmente em todos os lugares afetados”, conclui o especialista. 

Fontes:

Science Magazine. Artigo disponível em:
https://science.sciencemag.org/content/early/2020/09/29/science.abd7672

Cell Magazine. Estudo disponível em:
https://www.cell.com/cell-host-microbe/fulltext/S1931-3128(15)00382-0?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS1931312815003820%3Fshowall%3Dtrue

Center for Infectious Disease Dynamics. Informações disponíveis em:
https://www.huck.psu.edu/institutes-and-centers/center-for-infectious-disease-dynamics

MedRxiv. Artigo disponível em:
https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.05.21.20104521v1

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra  a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés

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