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Foto: Sérgio Souza
Foto: Sérgio Souza

Maioria dos candidatos de SP não tem propostas de saúde contra Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
07.out.2020 | 22h27 |

A maioria dos candidatos à prefeitura de São Paulo não apresentou nenhuma medida de contenção ou prevenção da Covid-19 em seus programas de governo. Embora o número de casos esteja em queda na cidade, especialistas acreditam que a doença continuará a afetar o sistema de saúde no ano que vem. Levantamento feito pela Lupa a partir das propostas disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que apenas cinco dos 14 políticos na disputa trataram de ações concretas contra o novo coronavírus.

A maior parte dos que prometeram medidas de combate à doença propôs expandir a testagem da população, como é o caso de Jilmar Tatto (PT). Alguns enfatizaram a necessidade de ampliar o número de leitos ou de fortalecer o atendimento psicossocial. Guilherme Boulos (PSOL) apostou na instituição de uma fila única para a internação de pacientes em leitos das redes privada e pública, caso a taxa de ocupação volte a subir. Marina Helou (Rede), Vera Lucia (PSTU) e Antonio Carlos Silva (PCO) também sugeriram medidas similares. Os cinco ainda fizeram propostas para atenuar o impacto do vírus em outras áreas.

A ausência do combate ao coronavírus em alguns programas foi apontada como falha grave por especialistas ouvidos pela Lupa. Bruno Covas (PSDB) e Márcio França (PSB) até mencionam a importância de se adotar medidas de prevenção contra a Covid-19, mas não entram em detalhes sobre o que seria feito. “Teremos que lidar com os desafios da pandemia ainda por muito tempo e nos preparar para novas demandas nesse sentido”, diz Marilia Louvison, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo) e membro do conselho deliberativo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

As ações adotadas não devem ser mais aquelas de caráter emergencial – será necessário traçar planos para prevenir o contágio e fortalecer o atendimento dos infectados em estágio inicial da doença. “Não basta só se organizar para receber os pacientes, como foi feito. É importante que haja um controle maior sobre disseminação do vírus”, diz Igor Pantoja, assistente de mobilização da Rede Nossa São Paulo. Ele destaca a importância de se atuar de forma mais ativa no diagnóstico da Covid-19, com o fortalecimento das UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e a expansão da cobertura da Estratégia Saúde da Família, que hoje atende cerca de 38% da população.

Dos nove candidatos que não propuseram medidas para deter o coronavírus no ano que vem, sete trataram a pandemia como um problema que irá afetar a economia e as políticas sociais. Celso Russomanno (Republicanos), por exemplo, sugeriu ações para reduzir o atraso na aprendizagem das crianças. Covas listou algumas medidas que deverão ser tomadas na área econômica, como o aumento dos investimentos em infraestrutura para ampliar a oferta de empregos. França, Joice Hasselmann (PSL), Filipe Sabará (Novo), Orlando Silva (PCdoB) e Andrea Matarazzo (PSD) também apontaram soluções para atenuar o impacto da Covid-19 em outras áreas.

Dois candidatos não fizeram nenhuma proposta ligada à pandemia em seus programas. Arthur do Val (Patriota) nem cita o coronavírus em seu plano de governo. Levy Fidelix (PRTB) entregou neste ano uma cópia quase igual das propostas para saúde apresentadas nas eleições de 2016. A única diferença foi a inserção de um item que fala sobre telemedicina. 

Atendimento remoto

O uso do teleatendimento foi a proposta mais popular entre os 14 candidatos a prefeito de São Paulo. Nove deles destacaram a necessidade de ampliar esse tipo de serviço, adotado pelo Ministério da Saúde durante a pandemia. Joice sugeriu que a ferramenta poderia substituir não só consultas presenciais, mas também o trabalho de fiscalização da vigilância sanitária. A tecnologia também consta nos planos de governo de Russomanno, Covas, Boulos, França, Tatto, Matarazzo, Fidelix, Helou e Sabará.

Outros temas recorrentes foram a integração e a informatização dos sistemas da rede pública de saúde, citadas em dez dos 14 programas. Arthur do Val prometeu implementar prontuários eletrônicos. Marina Helou propôs a integração entre a Estratégia Saúde da Família com o atendimento dos CAPs (Centros de Atenção Psicológica). Ações nessas áreas foram prometidas ainda por Russomanno, Boulos, França, Tatto, Matarazzo, Joice, Fidelix e Sabará.

A preocupação com a atenção básica, presente na maioria dos programas, condiz com as prioridades apontadas pelos especialistas ouvidos pela Lupa. Questões como a redução do tempo de espera para o agendamento de consultas, ações com foco na prevenção de doenças e fortalecimento da Estratégia Saúde da Família são pontos destacados pelos entrevistados para tornar o atendimento mais eficiente e racionalizar o orçamento direcionado para o setor.

Marilia Louvison explica que a telemedicina é uma ferramenta que pode ser uma estratégia importante para otimizar o atendimento. A professora da USP diz, porém, que a medida não deve ser encarada como uma solução universal para os problemas da saúde pública. “A telemedicina pode contribuir com uma facilitação de acesso, mas não é substituta de nenhum processo assistencial que necessita do atendimento presencial e do uso de tecnologias inerentes ao processo de cuidado”, afirma.

Veja, a seguir, as principais propostas apresentadas pelos candidatos. A lista está organizada conforme a intenção de votos aferida pela pesquisa do DataFolha divulgada no último dia 26. 

Celso Russomanno – Republicanos (veja o programa completo aqui)

As propostas são direcionadas à atenção básica, priorizando quatro eixos de atuação: implantação da telemedicina; adoção de prontuário eletrônico; integração dos sistemas das unidades de saúde; e criação do programa “O médico é meu”, que fortalece equipes de saúde comunitária. Russomanno não faz menção ao coronavírus em suas propostas para a saúde. 

Bruno Covas – PSDB (veja o programa completo aqui)

Covas promete expandir o atendimento do sistema de saúde pública paulistano “de maneira vigilante em relação aos riscos resultantes do novo coronavírus”. O atual prefeito ainda se compromete em ampliar o hospital Sorocabana e colocar em pleno funcionamento os hospitais Parelheiros e Brasilândia. Ele também promete a implantação da telemedicina na cidade.  

Guilherme Boulos – PSOL (veja o programa completo aqui)

Boulos comprometeu-se a atacar os problemas causados pela crise do coronavírus intensificando as testagens, aumentando o uso da telemedicina e abrindo novos leitos hospitalares e de UTI, entre outras medidas. Também propôs melhorar a assistência básica; a gestão do orçamento na área; o acolhimento mental e o atendimento à população de rua. 

Márcio França – PSB (veja o programa completo aqui)

Para amenizar os impactos da pandemia, propõe medidas de assistência social – como fortalecer o atendimento das pessoas que desenvolveram depressão na crise sanitária – e ampliação de horários para reduzir as filas de exames e consultas. Também fala em integrar e informatizar os sistemas da rede pública de saúde, além de reformar e construir hospitais. 

Jilmar Tatto – PT (veja o programa completo aqui)

Quer ampliar as testagens do coronavírus. Prometeu usar a tecnologia para obter dados sobre saúde, além de reduzir o tempo para agendamentos. Também quer adotar a telemedicina; ampliar a atenção básica e as equipes de saúde da família; e retomar a administração de equipamentos de saúde, administrados por organizações sociais, que apresentem falhas. 

Arthur do Val – Patriota (veja o programa completo aqui)

Promete buscar alternativas para modernizar e otimizar a marcação de consultas, evitando a formação de filas. Fala ainda em integrar os sistemas da rede pública de saúde. Para otimizar a realização de exames, propõe Parcerias Público-Privadas (PPPs) com laboratórios particulares. Também menciona a intenção de criar centros de acolhida para dependentes de crack. 

Andrea Matarazzo – PSD (veja o programa completo aqui)

Suas propostas prometem a otimização dos serviços de atenção básica e a modernização dos sistemas da rede de saúde municipal. Pretende instituir o funcionamento das UBSs, AMAs e hospitais em todos os turnos e aos finais de semana; modernizar a infraestrutura hospitalar; inaugurar pronto-socorros odontológicos; e implementar a telemedicina.

Vera Lucia – PSTU (veja o programa completo aqui)

Defende que a quarentena deve permanecer de forma rígida, com garantia de emprego e renda, e testagem em massa até a descoberta de uma vacina para o coronavírus. Propõe que a saúde seja 100% pública, administrada pelo Estado e supervisionada por conselhos populares. Também sustenta que os hospitais e laboratórios privados sejam estatizados.

Joice Hasselmann – PSL (veja o programa completo aqui)

Promete a modernização da saúde, com integração de sistemas e uso da telemedicina. Defende a utilização de big data para reunir informações sobre os pacientes e, inclusive, sugere adoção de biometria facial para reconhecimento das pessoas. Sobre a telemedicina, a candidata defende que o modelo pode substituir a fiscalização da vigilância sanitária. 

Levy Fidelix – PRTB (veja o programa completo aqui)

Quer implementar a telemedicina. Prometeu ainda criar os “motomédicos” e “motorremédios”; buscar mais recursos, por convênios, para contratar médicos e melhorar atendimento; fundar o Plano de Atendimento à Saúde do Paulistano (PASP); e oferecer bolsas para residentes em medicina. As últimas duas propostas, no entanto, já são realidade no SUS. 

Marina Helou – Rede (veja o programa completo aqui)

Defende estruturar a Estratégia Saúde da Família para diagnosticar casos da Covid-19, monitorar e rastrear as pessoas contaminadas. Em atenção básica, quer levar os médicos da família a 100% da população. Também propõe instituir o atendimento 24 horas nas AMAs e promete aumentar o orçamento dos CAPs, fazendo capacitação contínua dos profissionais.

Orlando Silva  – PCdoB (veja o programa completo aqui)

Não apresentou nenhuma proposta objetiva na área da saúde. Ele menciona o setor de forma genérica e, em um trecho de seu programa, se compromete a “cuidar de quem mais precisa”. O plano de Silva diz que, como nem todas as UBS contam com equipes completas, “as unidades localizadas nas regiões com os piores indicadores serão as primeiras a serem reforçadas”. 

Filipe Sabará – Novo (veja o programa completo aqui)

Sugere a implementação de prontuário eletrônico e da telemedicina; ampliação da Estratégia Saúde da Família, centrada na prevenção; e reestruturação da aplicação do orçamento na área, que deixaria de ser por número de pessoas atendidas, ou horas trabalhadas, para ser feito por procedimentos realizados, como ocorre em planos de saúde privados. 

Antônio Carlos Silva – PCO (veja o programa completo aqui)

Fala em realizar testes em massa para toda a população contra a Covid-19. Propõe ainda a estatização do sistema de saúde, contratação em larga escala de profissionais e abertura de milhares de leitos nos hospitais públicos. Ele também defende a legalização do aborto no programa, embora isso não seja da alçada da prefeitura.

Editado por: Maurício Moraes

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