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Foto: Luiz Costa /SMCS.
Foto: Luiz Costa /SMCS.

Curitiba: Só 5 candidatos têm propostas para conter a pandemia de covid

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
08.out.2020 | 08h00 |

Dos 16 candidatos à prefeitura de Curitiba, 14 mencionam a pandemia de Covid-19 em seus planos de governos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mas apenas cinco deles propuseram ações de combate à pandemia em suas propostas para a área de saúde: Samara Garratini (PSTU) , Letícia Lanz (PSOL), Paulo Opuszka (PT), João Arruda (MDB) e Marisa Lobo (Avante). Outros temas, como a implementação de serviços de telemedicina, ganharam mais destaque nos programas.

A capital do Paraná somou 1.326 óbitos e 45.397 casos da doença e teve como epicentro da discussão a incerteza da gestão municipal sobre abrir ou fechar o comércio. Em alguns casos, o atual prefeito Rafael Greca (DEM), que concorre à reeleição, trocou três vezes de decisão na mesma semana

Greca é um dos que não apresentaram propostas sobre a pandemia relacionadas à saúde. Seu plano de governo conta com um “eixo” destinado à “recuperação de Curitiba para o fortalecimento da economia fragilizada pela pandemia, para o resgate da identidade e do sentimento de pertencer à cidade”. As medidas para o período pós-pandemia são, majoritariamente, na área econômica. A saúde aparece de forma genérica, na proposta de criação de aplicativos que promovam “dicas de vida saudável, cuidados preventivos e relação de equipamentos urbanos”. 

Fernando Francischini (PSL), por sua vez, cita a palavra “pandemia” em seu programa 24 vezes, e Covid-19 outras cinco, mas não apresenta propostas sobre o assunto na área de saúde. Na maioria dos casos, as palavras aparecem em afirmações pouco específicas, como “cidades terão que adotar o conceito da resiliência em seu processo de desenvolvimento sustentável e estar preparadas para enfrentar novas pandemias e mitigar eventuais desastres ambientais.” 

Caso semelhante é o do candidato Goura (PDT). Ele cita a pandemia sete vezes em seu programa registrado no TSE. Todas as menções aparecem em textos introdutórios, como “a pandemia nos mostrou a necessidade de mudanças, no curto prazo”. Ou seja: não há propostas sobre como lidar com a doença no próximo ano no âmbito da saúde pública.

Entre os que propõem medidas efetivas contra a Covid-19 na área da saúde, Samara Garratini (PSTU) defende o fechamento de todas as atividades não-essenciais e a estatização de hospitais privados durante a crise. Letícia Lanz (PSOL) promete criar pontos de higienização e fornecer materiais de proteção para moradores de rua. Paulo Opuszka (PT) propõe classificar como “doença de trabalho” casos de Covid-19 entre trabalhadores da área de saúde. Esta categorização chegou a ser proposta pelo Ministério da Saúde, que voltou atrás da decisão um dia depois. No entendimento vigente, para ser tomada como doença ocupacional, o paciente deve passar por perícia médica. João Arruda (MDB) fala na criação de um cadastro de profissionais de saúde para contratação temporária em caso de “emergência epidemiológica”. Por fim, Marisa Lobo (Avante) propõe a criação de um núcleo permanente de enfrentamento a pandemias.

Telemedicina

Se medidas concretas para conter a pandemia estão ausentes da maioria das propostas para a área de saúde, a telemedicina é uma bandeira de vários candidatos. Francischini, por exemplo, diz que pretende “implementar de forma definitiva” a telemedicina na saúde pública municipal, dedicando parte de seu programa de governo ao tema. Ele sugere a digitalização de diversos atendimentos, com a teleconsulta e a telecirurgia (a realização de um procedimento cirúrgico de forma remota).

Já Eloy Casagrande (Rede) afirma que a telemedicina deve ser usada para fortalecer o internamento domiciliar, e Carol Arns (Podemos) sugere o desenvolvimento de uma ferramenta tecnológica específica para estes serviços de saúde. O tema também está presente nos planos de governo de Greca, Lobo e João Guilherme de Moraes (Novo).

Privatização

Um assunto que divide os candidatos é a participação de instituições privadas no gerenciamento de unidades de saúde. Curitiba tenta, desde 2019, ampliar a terceirização de nove Unidades de Pronto Atendimento (UPA) do município. Enquanto a atual prefeitura sugere que tal iniciativa traria uma “economia milionária”, sindicatos e servidores resistem ao processo

Nos programas protocolados no TSE, Camila Lanes (PC do B), Diogo Furtado (PCO), Lanz e Garratini dizem ser contrários à privatização. Goura e João Arruda falam, respectivamente, em “evitar a terceirização de serviços” e “reavaliar os contratos e terceirizações”. Já João Guilherme e Francischini seguem na direção oposta, propondo a aproximação com o setor privado por meio de convênios e parcerias para atendimentos.

Apesar de ser o responsável por propor a ampliação da terceirização das UPAs, Greca não menciona o tema em seu programa de governo.

Veja em detalhes, e em ordem alfabética, o que cada candidato escreveu sobre Saúde em seu programa de governo:

Camila Lanes (PC do B): veja o programa aqui 

Lanes sugere aprimorar a gestão da saúde com foco na reorganização hospitalar, valorização de profissionais e diálogo social. Também defende o interrompimento do processo de terceirização das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). No eixo “Curitiba pós-pandemia”, a candidata propõe a criação de frentes de trabalho, fortalecimento da economia solidária, geração de crédito popular e um plano de incentivo e recuperação de micro e pequenas empresas, mas não descreve políticas para o combate à Covid-19 no âmbito da saúde. 

Carol Arns (Podemos): veja o programa aqui 

A candidata do Podemos, mesmo partido dos três representantes do Paraná no Senado, apresenta 13 metas para a qualificação da saúde em Curitiba. Entre elas está a ampliação dos teleatendimentos, a instituição de um centro de referência para doenças raras e a ampliação da oferta de serviços de saúde em bairros com maior crescimento populacional. Nas estratégias relacionadas à Covid-19, ela não apresenta planos específicos para a saúde. Suas sugestões falam apenas em medidas econômicas e culturais.

Christiane Yared (PL): veja o programa aqui 

O programa de governo de Yared contempla a saúde como um dos 10 eixos principais, mas em nenhum momento cita a pandemia ou a Covid-19. No plano, ela diz que pretende priorizar a atenção primária de saúde, a gestão da informação e o aprimoramento de planos de cargos e salários dos servidores. A candidata não cita estratégias de enfrentamento à pandemia.

Diogo Furtado (PCO): veja o programa aqui 

O documento registrado por Furtado no TSE segue o mesmo modelo de todas as candidaturas municipais do PCO e, portanto, não cita políticas com foco em Curitiba. Defende a estatização do sistema de saúde, com atendimento gratuito a toda a população e gratuidade dos serviços de atenção à maternidade. 

Eloy Casagrande (Rede): veja o programa aqui 

Casagrande promete rever a estrutura do Conselho Municipal de Saúde, para tornar a “participação social mais democrática”. Estipula metas como criar o programa “Prevenção é o melhor remédio”, implantar programas de terapias complementares, como massagem, terapia floral, acupuntura e hipnose nas Unidades de Saúde e fortalecer programas de fisioterapia. 

Fernando Francischini (PSL): veja o programa aqui 

Francischini dedica uma área exclusiva para a telemedicina nas propostas para a saúde. Aposta em teleconsulta, telecirurgia, teletriagem e teleorientação como modelo de atendimento médico para os próximos anos. Também promete oferta de consultas e exames eletivos 24h por dia. O deputado propõe um novo sistema de remuneração dos serviços prestados pelas unidades de saúde, com base em “qualidade”, e não quantidade. Para a Curitiba “pós-pandemia”, aposta em revisão de processos e criação de 600 mil postos de trabalho nos próximos quatro anos, mas não cita nenhuma medida relacionada à saúde.

Goura (PDT): veja o programa aqui 

Parte das políticas para a saúde propostas por Goura têm foco em saúde mental. Ele sugere, por exemplo, incluir psicólogos e terapeutas para atendimento dos profissionais de medicina nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Também quer reverter o modelo de contratação que permite a terceirização de serviços e valorizar os servidores da saúde por meio da reorganização da distribuição previdenciária. O pedetista não apresenta políticas específicas para o combate à Covid-19.

João Arruda (MDB): veja o programa aqui 

Arruda propõe políticas para vacinação contra HPV na população fértil até 25 anos. Também quer “reavaliar” os contratos de terceirização e implantar unidades móveis para atender bairros com maior vulnerabilidade social. Propõe construir o Centro Municipal de Atenção Especializada em Saúde, e reorganizar todos os postos de saúde e unidades 24h. Sobre a pandemia, fala em criar cadastro único de profissionais da saúde para serem contratados em situações de emergências epidemiológicas.

João Guilherme de Moraes (Novo): veja o programa aqui 

João Guilherme dedica uma área exclusiva de seu programa às políticas pós-pandemia, mas com medidas principais para a recuperação econômica. A sugestão para a saúde, neste eixo, seria “realizar um programa de recuperação da saúde nas especialidades”. Nas demais tomadas para a saúde, propõe adaptar as vagas criadas para Covid-19 em espaços de procedimentos eletivos e cirúrgicos. O candidato é favorável ao envolvimento da iniciativa privada em alguns serviços de saúde e também defende a telemedicina.

Letícia Lanz (PSOL): veja o programa aqui 

Lanz propõe fortalecer a atenção primária em saúde por meio da contratação imediata de profissionais do Núcleo de Atenção à Saúde da Família. Sugere o fortalecimento do Consultório de Rua. Promete jornada de trabalho de 30 horas para todos os servidores da saúde. Única política proposta para enfrentamento à disseminação do novo coronavírus é a disponibilização de materiais de proteção, atendimento médico e pontos de higienização para população em situação de rua durante a pandemia. 

Marisa Lobo (Avante): veja o programa aqui 

Lobo afirma que deve “instituir protocolos de combate e superação da Covid 19”, mas não diz quais seriam. Defende construir um “Núcleo de inteligência de enfrentamento a pandemias”. Em suas 28 metas para a saúde, também promete implementar uma nova Unidade de Pronto Atendimento e instituir atendimento odontológico de emergência 24h.

Paulo Opuszka (PT): veja o programa aqui 

No documento protocolado no TSE, Opuszka promete notificar a Covid-19 como doença relacionada ao trabalho para profissionais da saúde e da segurança pública. Como propostas gerais à saúde, aposta em programas de saúde na família e saúde na escola, além de prometer auditar todos os contratos da Secretaria Municipal de Saúde, incluindo aqueles firmados com Organizações Sociais (OS) que administram as UPAs. Também quer criar uma “Coordenação de Saúde Integral LGBTI”.

Rafael Greca (DEM): veja o programa aqui 

O atual prefeito divide seu programa de governo para 2021-2024 em sete eixos. O último deles, intitulado “Viva Curitiba”, se refere à “recuperação de Curitiba para o fortalecimento da economia fragilizada pela pandemia, para o resgate da identidade e do sentimento de pertencer à cidade”. No texto, as sugestões relacionadas à saúde tratam da criação de aplicativos que promovam dicas de vida saudável, cuidados preventivos e relação de equipamentos urbanos. Para a saúde, aposta na tecnologia como principal meio de facilitação nos atendimentos, com o desenvolvimento de novas etapas do aplicativo Saúde Já, atendimento por teleconsultas, qualificação do sistema digital integrado E-saúde e criação de um centro de referência “virtual” para atendimento com plano de tratamento. 

Renato Mocellin (PV): veja o programa aqui 

No documento protocolado no TSE, Mocellin não cita a pandemia ou políticas específicas de controle da Covid-19. No eixo “Educação e Saúde”, sugere criar os Centros Integrados de Saúde e unidades móveis no que ele chama de “áreas consideradas críticas”. Também promete ampliar os horários de atendimento nas unidades de saúde.

Samara Garratini (PSTU): veja o programa aqui 

Garratini entende que o combate deve se dar pelo  fechamento total do comércio e de “tudo que não for essencial”. Esta é a única política específica para o combate à Covid-19 lançada por ela. A candidata  também se coloca contrária à terceirização das UPAs e promete ampliar o atendimento da Estratégia Saúde da Família para 100% da população.

Zé Boni (PTC): veja o programa aqui 

Zé Boni promete tornar Curitiba um modelo de excelência no serviço público de saúde no Brasil. Para isso, sugere contratar mais profissionais e zerar as filas por atendimentos nas unidades de saúde e cirurgias, por meio de mutirões. Diz que irá fiscalizar os serviços para garantir o cumprimento das jornadas de trabalho pelas equipes. O plano está disponibilizado pela metade na plataforma: embora o índice liste 106 páginas, o documento só tem 41.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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