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Concentração viral e disponibilidade tecnológica explicam por que ‘cotonete’ é usado em testes para Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
09.out.2020 | 16h05 |

Circula nas redes sociais uma publicação que questiona o potencial de contaminação que uma gotícula de saliva pode ter em relação à disseminação do coronavírus. Na imagem, é exposta uma mulher realizando o teste nasal com aquela típica haste que é inserida na narina dos pacientes. O texto pergunta então por que é utilizado esse procedimento, se a saliva carrega o vírus e tem alto grau de contaminação. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Se as gotículas de pessoas assintomáticas são tão infecciosas, por que  o teste de PCR envolve enfiar um cotonete a 10 cm dentro do seu nariz ou na sua garganta? Pegar um perdigoto não seria mais do que suficiente?”
Imagem publicada no Facebook que, até as 22h30 do dia 8 de outubro, tinha sido compartilhada por mais de 350 pessoas

Testes para Covid-19  – assim como para outras doenças respiratórias – são feitos a partir de amostras de secreções da faringe e da laringe porque a concentração do vírus nesses locais é maior. Isso não significa, porém, que a saliva não tenha potencial de infecção. Atualmente, já há estudos para o desenvolvimento de testes para Covid-19 a partir da saliva – um deles, inclusive, está sendo testado na NBA. Contudo, a disponibilidade desses exames ainda é baixa.

Bernadete Peres, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explicou por telefone que o teste feito com a haste não é novidade. “Isso é apenas uma repetição para o teste do coronavírus, porque esse método já era utilizado para detectar outras infecções virais ou bacterianas”, explica. “A concentração viral é maior nas secreções desses locais [faringe e laringe], é diferente da saliva, que é mais diluída”.

No entanto, o fato de haver uma concentração viral maior na faringe e na laringe não significa que a saliva é livre de material contaminante. “Umas das fontes possíveis do vírus na saliva é exatamente as gotículas da região de nasofaringe”, disse, por telefone, Debora Heller, professora da Pós-Graduação da Universidade Cruzeiro do Sul e pesquisadora visitante do Hospital Albert Einstein. Logo, por ser uma substância constantemente expelida por seres humanos, ela acaba sendo a principal forma de transmissão do vírus.

Heller explica que o motivo de o teste nasal ser mais aplicado é o fato de que sua eficiência já era comprovada quando estourou a pandemia do coronavírus. “Apenas em fevereiro saiu o primeiro relato mostrando que o vírus estava presente na saliva. E daí iniciou-se estudos para comparar swab e saliva”, diz. 

Desde essa descoberta, pesquisadores buscam desenvolver testes a partir de saliva com eficiência semelhante ao RT-PCR. Além de deixar o teste para Covid-19 menos incômodo, esse método pode baratear os custos do processo. Em julho, Heller foi uma das coautoras de um estudo que demonstrou que os testes realizados com saliva tiveram similaridade superior a 90% em relação aos resultados obtidos com a raspagem do muco da faringe. “Cada vez mais temos estudos mostrando que os dados são compatíveis, mas o padrão ouro ainda é o swab”.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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