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Foto: Andrea Hanks / Casa Branca
Foto: Andrea Hanks / Casa Branca

Lupa na Ciência: Cinco pontos para entender o tratamento experimental contra a Covid-19 usado por Trump

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
12.out.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– O presidente americano Donald Trump atribui sua recuperação da Covid-19 a um tratamento feito com coquetel de anticorpos que ainda está em fase experimental

– Desenvolvido pela empresa Regeneron, o tratamento é feito a partir de um coquetel composto por dois anticorpos focados em reconhecer a proteína spike do novo coronavírus e impedir que ele se reproduza no organismo

– Os estudos pré-clínicos e clínicos com o medicamento ainda não foram publicados em revistas científicas. O que há de dados disponíveis sobre a eficácia e segurança do tratamento são uma pesquisa não revisada por pares e os resultados fornecidos pela própria empresa

– Além da Regeneron, outras empresas desenvolvem tratamentos semelhantes para que sejam usados como alternativas no combate à Covid-19

Um potencial tratamento contra o novo coronavírus ganhou os noticiários de todo o mundo nas últimas semanas após ter sido indicado pelo presidente Donald Trump como o responsável por sua “milagrosa” cura da Covid-19. Desenvolvido pela empresa americana de biotecnologia Regeneron Pharmaceuticals Inc., o medicamento é um coquetel de anticorpos que, segundo a própria companhia, tem o potencial tanto de prevenir como combater a infecção pelo Sars-Cov-2. Quando fez o anúncio, o líder norte-americano realmente estava se recuperando da doença após dias internado em um hospital. Seu depoimento, no entanto, segue gerando polêmica por vários motivos. 

O primeiro é que ele recebeu, além deste medicamento, diversos outros que também estão em testes para tratamento da Covid-19. Entre eles estão o antiviral remdesivir, que mostrou até o momento resultados modestos, e a dexametasona, um esteroide que vêm sendo indicado para tratar casos graves da doença. O segundo é que este medicamento ainda está nas fases iniciais de testes clínicos, e nem sua eficácia nem segurança estão cientificamente comprovadas. O terceiro é que o medicamento ainda não recebeu aprovação para uso emergencial, ou seja, ele em tese só poderia ser ministrado em pacientes que participam dos testes clínicos. Para contornar a situação, os médicos do presidente apelaram para um regulamento do órgão regulatório americano Food And Drug Administration (FDA), que permite aos profissionais solicitar, em raras circunstâncias, autorização para o “uso compassivo” de medicamentos experimentais. 

Apesar da polêmica, os resultados obtidos até agora nas pesquisas têm animado a comunidade científica. A Lupa reuniu os principais pontos que ajudam a entender como funciona o tratamento. 

O que são esses coquetéis?

Chamado Regn-Cov2, o coquetel dado a Donald Trump é uma das várias drogas experimentais contra a Covid-19 que usam componentes do sistema imunológico humano para tentar combater a doença. Quando uma pessoa exposta a um vírus ou bactéria desenvolve sua própria resposta a uma infecção, há uma grande variedade de anticorpos e células de defesa que são produzidos. Os coquetéis de anticorpos consistem em extrair esses elementos do corpo dessas pessoas, reproduzi-los em maior escala em laboratório e injetar em uma paciente que ainda não tenha conseguido combater o patógeno. Espera-se, assim, que o vírus encontre mais uma barreira para evitar que siga se reproduzindo dentro do paciente. 

Um tratamento com coquetel de anticorpos não é uma vacina e não fornece proteção permanente. Mas esse tipo de imunização passiva funciona de forma imediata e pode servir como uma alternativa extra no combate ao novo coronavírus, podendo inclusive estar disponível antes de uma imunização. Esse tipo de tecnologia já é aprovado e comercializado para tratar outras doenças, como artrite reumatoide, câncer e doenças cardiovasculares. No caso do novo coronavírus, o produto ainda está na fase inicial de testes clínicos. Normalmente, o produto é administrado por via intravenosa, em uma única dose. 

Monoclonal e policlonal

Existem dois tipos de coquetéis de anticorpos, os policlonais e os monoclonais. Eles se diferenciam basicamente pelo fato de que os primeiros são formados por um conjunto de anticorpos produzidos por diferentes células de defesa de uma pessoa quando em contato com determinado patógeno, enquanto o segundo é feito a partir da seleção daqueles componentes de defesa considerados mais eficazes. No caso do novo coronavírus, o foco é nos anticorpos que reconhecem a proteína spike. 

Essa proteína fica na superfície do vírus e é usada pelo patógeno para se ligar às células humanas e invadi-las. Ao reconhecê-la, os anticorpos inativam o vírus e impedem que ele se reproduza dentro do organismo. O medicamento da Regeneron segue essa segunda linha dos coquetéis monoclonais, já que faz uma seleção dos componentes de defesa produzidos a partir de uma única célula de defesa, o linfócito B. Contudo, há uma característica que o diferencia dos demais que estão em estudo: ao invés de utilizar apenas um tipo de anticorpo, o grupo selecionou dois, que reconhecem diferentes partes da proteína spike. Segundo os pesquisadores, mutações no vírus podem prejudicar a eficácia de um determinado tipo de anticorpo. Usando dois tipos, esse risco é menor – caso um não funcione, o outro serve como “estepe”. Essa estratégia, explicam, garante que o organismo receberá uma alta dose de anticorpos potentes e ao mesmo tempo evita que possíveis vírus mutantes “escapem” do tratamento. 

Polêmica sobre abortos

Para desenvolver o medicamento, um dos anticorpos selecionados pela Regeneron foi derivado de uma pessoa que já havia se recuperado da Covid-19. O sangue desse voluntário foi colhido, suas células de defesa foram isoladas e replicadas em laboratório. O outro anticorpo veio de um rato, cujo sistema imunológico foi modificado para que se assemelhasse ao humano. Neste animal, foram inseridas apenas as proteínas spike, que o organismo logo reconhece como um inimigo e produz defesas. Os anticorpos foram então retirados, selecionados, multiplicados e passaram a fazer parte do coquetel. 

Após a recuperação de Donald Trump, houve uma polêmica sobre a suspeita de que a empresa teria usado células fetais abortadas para desenvolver os anticorpos, algo que seu governo já se manifestou contrário em outras ocasiões. A informação não procede. No entanto, de acordo com a revista Science, é verdade que a empresa desenvolveu esse tratamento com a ajuda de uma linhagem de células de longa duração criada a partir dos rins de um feto abortado eletivamente na Holanda, por volta de 1972. A empresa utilizou esse tecido, que há décadas são amplamente usadas em pesquisas médicas, para simular a infecção do coronavírus nas células humanas e testar a eficácia do tratamento.

Testes clínicos

Apesar de ser considerado uma promessa para o tratamento da Covid-19, ainda não há estudos publicados em revistas científicas de peso sobre os testes pré-clínicos ou clínicos com o coquetel da Regeneron. O que existe de dados sobre sua eficácia e segurança é um artigo ainda não revisado, além dos resultados preliminares dos testes em humanos divulgados pela própria empresa.

Disponível apenas na BioRxiv, uma plataforma de publicação de artigos ainda não revisado por pares, os testes feitos em camundongos com quadros leves da doença e macacos em estado grave demonstraram que o coquetel foi eficaz em ambos casos, reduzindo a carga viral nas vias aéreas superiores e inferiores. Já o estudo em humanos, que iniciou em junho e pretende envolver mais de 2 mil pessoas, conta até o momento apenas com resultados preliminares de um grupo de 275 pacientes. Eles apresentavam quadros assintomáticos ou sintomas leves da Covid-19 e foram tratados ou com o coquetel, ou com placebo. De acordo com a empresa, não foram identificados efeitos colaterais graves durante o tratamento, e ele foi capaz de melhorar o quadro clínicos dos voluntários que ainda não haviam desenvolvido, de forma natural, anticorpos contra o SARS-CoV-2. Ainda não está claro se o tratamento pode ajudar a prevenir ou tratar casos graves da Covid-19, mas um estudo com pacientes hospitalizados está sendo realizado pela empresa. Atualmente, o Brasil é um dos seis países que participam de pesquisas com o medicamento

Outras empresas

A Regeneron não está sozinha na corrida pelo desenvolvimento de um coquetel monoclonal para tratar a Covid-19. A empresa Eli Lilly, em parceria com a AbCellera, começou também em junho um primeiro ensaio clínico para testar seu coquetel monoclonal em humanos. Esse estudo usa um único tipo de anticorpo em sua terapia, e os resultados preliminares também foram positivos. Um segundo estudo também está sendo desenvolvido pela mesma empresa na China, com outro tipo de coquetel monoclonal. Além dessas, existem várias outras empresas trabalhando em terapias de anticorpos. Nenhuma conseguiu até agora autorização para uso emergencial (quando o tratamento é liberado antes mesmo da conclusão dos estudos). Esse quadro pode mudar logo, pois um dia depois do depoimento de Trump, a Regeneron apresentou um pedido para a Food And Drug Administration (FDA, na sigla em inglês) para a liberação de emergência de seu coquetel. Conforme a solicitação apresentada, a empresa disse ter disponível 50 mil doses da droga e que conseguirá produzir outras 300 mil até o fim do ano.

Fontes:

Food and Drug Administration (FDA). Informações disponíveis em:
https://www.accessdata.fda.gov/scripts/cdrh/cfdocs/cfcfr/CFRSearch.cfm?fr=312.310

Regeneron Pharmaceuticals Inc.. Informações disponíveis em:
https://newsroom.regeneron.com/static-files/a596a85e-e72d-4529-8eb5-d52d87a99070

BiorXiv. Artigo disponível em:
https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.08.02.233320v1.full.pdf

Science Magazine. Artigo disponível em:
https://blogs.sciencemag.org/pipeline/archives/2020/08/04/regenerons-monoclonal-antibody-cocktail-in-primates

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra  a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés

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