Tem certeza que deseja sair da sua conta?
Minsa/Peru/Fotos Públicas
Minsa/Peru/Fotos Públicas

Lupa na Ciência: Vacina contra tuberculose pode ajudar a combater Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
14.out.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– Um estudo que avalia se a vacina contra a tuberculose, a BCG, pode ser usada para ajudar diminuir os impactos da atual pandemia entrou para a fase final de testes em humanos

– A ideia é que a vacina aja como um reforço ao sistema de defesa do organismo, que estaria mais preparado para combater a infecção pelo novo coronavírus

– Pesquisas anteriores mostraram que o imunizante, além de induzir o organismo a produzir defesa contra a bactéria causadora da tuberculose, também o ajuda a combater outros patógenos, em especial os causadores de infecções respiratórias

– Isso ocorre porque a vacina estimula o sistema imunológico inato, que é a primeira frente de batalha contra qualquer invasor no organismo 

– Os especialistas alertam que essa não é a solução definitiva para a atual pandemia, mas pode ajudar a amenizar o número de mortes até que uma vacina direcionada ao SARS-CoV-2 esteja disponível em larga escala

A hipótese de se usar uma vacina desenvolvida em 1921 contra a tuberculose para combater a Covid-19, levantada no início da atual pandemia e encarada com ceticismo por muita gente, voltou aos noticiários recentemente. Dessa vez, no entanto, com informações mais consistentes, que a levaram a ser considerada uma promissora estratégia para frear as mortes causadas pelo novo coronavírus. Nesta semana, o Brace Trial, maior estudo que testa se a centenária vacina BCG poderia ajudar também a proteger contra a Covid-19, avançou para a fase final de testes clínicos.

Nesta última etapa, mais de 10 mil de voluntários, todos profissionais da saúde, estão sendo recrutados em diferentes países, incluindo o Brasil, para receber ou uma dose da vacina ou um placebo. A ideia é avaliar, conforme essas pessoas forem sendo expostas naturalmente ao novo coronavírus, se aquelas que receberam a vacina conseguem combatê-lo de forma mais eficaz. A pesquisa, coordenada pelo Murdoch Children’s Research Institute (MCRI), na Austrália, recebeu mais de US$ 10 milhões da Fundação Bill e Melinda Gates para expandir o estudo globalmente. 

A ideia de usar um imunizante já existente para combater outros vírus e bactérias surgiu há alguns anos. Na época, pesquisadores descobriram que a vacina BCG, desenvolvida para combater um alvo específico, a bactéria Mycobacterium tuberculosis, tem uma ação mais ampla no organismo. O imunizante parece “treinar” o sistema imunológico para responder de forma mais eficaz a uma variedade de infecções, incluindo vírus, bactérias e parasitas. 

De acordo com os especialistas, essa ação mais ampla da vacina BCG ocorre porque ela estimula as duas fases do sistema imunológico. Para entender seu funcionamento, é preciso antes compreender como é organizado o sistema de defesa humano. Ele é dividido basicamente em duas partes. A primeira, chamada resposta imunológica inata, é a que temos desde o nascimento. Ela é composta, entre outras coisas, por células que ficam circulando em nossa corrente sanguínea e agem rapidamente para combater qualquer corpo estranho. Quando ela consegue conter o patógeno, a infecção é resolvida rapidamente e, em geral, sem que a pessoa apresente sintomas e sem guardar memória desse invasor. 

Só que, em muitos casos, essa defesa pode ser insuficiente para nos proteger. Por causa disso, existe o segundo tipo de resposta: a imunidade adquirida. A resposta imune adquirida é formada basicamente por dois tipos de glóbulos brancos (ou linfócitos), chamados células B e T, que detectam detalhes moleculares específicos do vírus ou bactéria em questão e produzem uma resposta direcionada contra ele. Durante esse processo, as células aprendem a atacá-lo e guardam memória de suas características para poder combatê-lo de forma ainda mais rápida e eficaz no próximo encontro. 

As vacinas, em geral, atuam induzindo o organismo a criar uma defesa adquirida, ou seja, a produzir componentes de defesa direcionados a um inimigo específico. Descobriu-se, no entanto, que a BCG, além de produzir uma resposta específica contra a bactéria causadora da tuberculose, tem o potencial de estimular o sistema imune inato, reforçando essa primeira frente de batalha no combate a diferentes invasores, em especial àqueles responsáveis por infecções respiratórias. 

Potencial mais amplo

Administrada pela primeira vez em 1921 para combater a epidemia de tuberculose, a vacina contra a tuberculose é até hoje obrigatória e usada em larga escala em vários países, principalmente naqueles em desenvolvimento e/ou que ainda não têm a doença controlada. A partir da implementação de políticas que obrigavam sua aplicação nos recém-nascidos – como ocorre, por exemplo, no Brasil –, pesquisadores começaram a notar que sua introdução nas comunidades fazia mais do que prevenir a tuberculose. Ela reduzia o número de mortes infantis por uma variedade de causas..

Um dos primeiros estudos que sugeriram esses benefícios mais amplos do imunizante foi publicado em 2011. Participaram da pesquisa 2.320 bebês recém-nascidos na Guiné-Bissau. Os pesquisadores relataram que as mortes entre aqueles que nasceram com baixo peso foram drasticamente reduzidas após a implementação da vacinação. Outro estudo que acompanhou esses casos relatou que as taxas de mortalidade por doenças infecciosas nas crianças vacinadas foram reduzidas em mais de 40% nos meses seguintes. 

Além disso, pesquisas epidemiológicas – incluindo um estudo com mais de 150 mil crianças em 33 países – relataram um risco também 40% menor de infecções agudas do trato respiratório inferior em crianças que receberam a vacina BCG, e uma redução de até 73% nas taxas de infecções no trato respiratório de voluntários na África do Sul. Quando testes foram realizados em pessoas mais velhas, constatou-se que a vacinação recorrente com a BCG foi capaz de reduzir a incidência de infecções agudas do trato respiratório superior

A soma desses e outros estudos, que compõem um documento de 2017 da Organização Mundial da Saúde (OMS), levou a entidade a concluir que o imunizante tem comprovadamente efeitos “além do alvo”, e por isso deve ser estudado como tratamento para uma gama mais ampla de infecções. Os especialistas alertam que, como ele não estimula o organismo a produzir células de defesa específicas para outros patógenos além da bactéria causadora da tuberculose, o imunizante não deve ser considerado uma vacina contra essas outras infecções. Seria, no entanto, uma opção de tratamento para reduzir o número de mortes, já que ajuda a reforçar o organismo no combate aos invasores.

Foi por esse potencial terapêutico da vacina BCG que, em abril, um grupo de pesquisadores australianos, que hoje coordenam o Brace Trial, publicou um artigo na revista The Lancet destacando a possibilidade de a vacina ser usada para reduzir o impacto da Covid-19 no mundo. Alguns especialistas chegaram a sugerir, a partir de dados preliminares, que os países em que a BCG era obrigatória há décadas em recém-nascidos estavam sendo menos afetados pelo novo coronavírus. Essa suposição, no entanto, não ficou comprovada. 

Uma das pesquisas que contestaram a hipótese, publicada em setembro na Clinical Infectious Diseases, demonstrou que, na Suécia, a vacinação com a BCG durante a infância não protegia os adultos da Covid-19, e que essa disparidade entre a forma como a epidemia estava afetando diferentes nações se devia a outros fatores. Nas conclusões do estudo, os autores afirmam que isso se deve principalmente ao fato de que, com o passar dos anos, esse efeito protetor mais amplo da BCG pode diminuir. Para obter um efeito protetivo na atual pandemia, seria preciso que as pessoas recebessem novas doses da vacina.

Apesar de já ter avançado para a etapa final, as fases anteriores do Brace Trial ainda estão em andamento e não há dados preliminares disponíveis. Diferentemente de outros possíveis tratamentos contra a Covid-19, os resultados devem demorar para sair, pois é preciso que os voluntários sejam acompanhados por alguns meses para que as avaliações sobre como os diferentes grupos (que receberam o imunizante e o placebo) reagiram ao serem expostos ao SARS-CoV-2 sejam computadas. 

Mesmo assim, os pesquisadores acreditam que, ainda que esta não seja uma solução definitiva, ela pode ajudar a controlar as mortes causadas pelo novo coronavírus até que uma vacina seja aprovada e esteja disponível em larga escala. A vantagem da BCG está em ser um imunizante usado há anos, além de estar amplamente disponível e ser seguro. Enquanto não há comprovação de sua eficácia para combater a Covid-19, os pesquisadores recomendam que essa vacina só seja ministrada na sua função original, de combate à tuberculose, e nos estudos clínicos direcionados. 

Fontes:

Science Magazine. Artigos disponíveis em:
https://advances.sciencemag.org/content/6/32/eabc1463
https://www.sciencemag.org/news/2020/03/can-century-old-tb-vaccine-steel-immune-system-against-new-coronavirus?rss=1

Bandin Health Project. Informações disponíveis em:
https://www.bandim.org/research

The Lancet. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31025-4/fulltext#%20

Clinical Infectious Diseases. Artigo disponível em:
https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciaa1223/5896039

National Library of Medicine. Artigos disponíveis em:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29579158/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25725054/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21979284/

Organização Mundial da Saúde (OMS). Informações disponíveis em:
https://www.who.int/immunization/sage/meetings/2017/october/1_BCG_report_revised_version_online.pdf

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Maurício Moraes

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

A Lupa está infringindo esse código? Clique aqui e fale com a IFCN

 

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo