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#Verificamos: É falso que Yale publicou estudo que conclui que o uso da hidroxicloroquina é eficaz contra Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
14.out.2020 | 22h12 |

Circula pelas redes sociais que uma pesquisa da universidade norte-americana de Yale concluiu que a hidroxicloroquina é um medicamento seguro e eficaz para tratar a Covid-19. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Então, a tão esperada meta-análise chegou! O Trabalho da Universidade de Yale – USA, do PhD Dr Harvey Risch conclui que o uso da Hidroxicloroquina é seguro, além de ser efetivo na diminuição de infecção, hospitalização e morte. Sabem o que isso significa? Que em conjunto com os mais de 111 trabalhos observacionais, esse trabalho dá o tão exigido NÍVEL DE EVIDÊNCIA 1 para tratamento da COVID-19 (com recomendação A)!”
Texto publicado no Facebook que, até as 22h do dia 14 de outubro, tinha sido compartilhado por mais de 200 pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Embora o médico americano Harvey Risch, professor na Universidade de Yale, tenha disponibilizado um artigo pré-impressão (ou seja, sem revisão por pares) sobre o efeito da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, não se trata de uma comprovação definitiva de que o medicamento é seguro e efetivo para a diminuição do número de infecções, hospitalizações e mortes por Covid-19. Até a publicação desta checagem, ainda não tinha sido descoberto um medicamento específico para tratar a doença, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O artigo citado no post foi disponibilizado ao público no dia 30 de setembro na plataforma medRxiv, mas não foi publicado em nenhuma revista científica. Esse site é usado para o compartilhamento de estudos ainda não revisados nas áreas de ciências médicas, clínicas e de saúde, ou seja, trabalhos que ainda não foram certificados e revisados por pares. O site, fundado por instituições norte-americanas ligadas à educação, deixa explícito que os conteúdos não devem ser usados ​​para orientar a prática clínica. 

Para o trabalho, os pesquisadores fizeram uma revisão de cinco ensaios clínicos com hidroxicloroquina como profilaxia ou para o tratamento de pacientes não-hospitalizados – nos quais os autores originais concluíram que a droga não era clinicamente eficaz – a partir da meta-análise, uma técnica estatística que usa a combinação de resultados de mais de um estudo. Os cálculos foram feitos no Excel e apontam que a hidroxicloroquina estaria associada a uma suposta redução de 24% na infecção, hospitalização ou morte por Covid-19 em pacientes ambulatoriais.

Nenhum estudo duplo-cego e randomizado comprovou, até o momento, a eficácia do medicamento como profilaxia ou tratamento em estágios iniciais da doença. Pelo contrário: estudo publicado na Annals of Internal Medicine, e citado na tal meta-análise, demonstrou que o remédio é ineficaz para tratamento de pessoas não hospitalizadas. Outro, realizado por pesquisadores brasileiros e publicado no New England Journal of Medicine (NEJM), mostrou que a droga não serviu para tratar casos leves e moderados. Outro estudo publicado no NEJM também concluiu que a hidroxicloroquina não funciona como profilático. Esses dois estudos não foram considerados na meta-análise que, vale lembrar, não foi publicado em nenhuma revista científica e não passou por revisão.

Outros estudos mostram que a hidroxicloroquina também não trata Covid-19 em casos graves. Publicado no dia 8 de outubro no NEJM e feito pelo projeto Recovery, da Universidade de Oxford, o trabalho testou o efeito da hidroxicloroquina em mais de 4,5 mil pessoas hospitalizadas com Covid-19. A conclusão foi de que os pacientes que receberam o medicamento não tiveram uma incidência menor de morte em 28 dias do que aqueles que receberam os cuidados habituais.

Polêmicas

Em maio deste ano, Risch publicou um artigo de opinião no American Journal of Epidemiology em que defendeu que hidroxicloroquina e azitromicina precisam ser amplamente disponibilizadas e prescritas por médicos. Em agosto, seis pesquisadores rebateram os argumentos de Risch no mesmo periódico. Eles apontaram erros e sugeriram revisão da literatura usada pelo autor, considerada sem qualidade suficiente para apoiar o uso dos dois medicamentos.

A própria Universidade de Yale, onde Risch é professor, se manifestou sobre o assunto, num texto em que defende a opinião de seus pesquisadores, mas admite a ineficácia da hidroxicloroquina.

Esse conteúdo também foi verificado pelo Boatos.org.

Nota: ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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