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Sem detalhar custos, candidatos propõem ar-condicionado em ônibus, metrô e Bilhete Único em Belém

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
15.out.2020 | 13h59 |

Ônibus climatizados, um novo sistema de metrô e um bilhete único temporal são coisas que todo usuário de transporte público gostaria de ter em sua cidade. Não por acaso, nove dos 12 candidatos à prefeitura de Belém em 2020 apresentaram pelo menos uma dessas três propostas em seu programa de governo. Contudo, nenhum deles explicou como seria o custeio dessas novidades e qual o impacto delas na tarifa.

Levantamento feito pela Lupa a partir das propostas disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que a climatização dos coletivos está presente em sete programas de governo. Everaldo Eguchi (Patriota), por exemplo, pretende “exigir das empresas de transporte urbano a renovação e o aumento das frotas de ônibus e a substituição por ônibus climatizados”. Também tratam desse tema Cássio Andrade (PSB), Guilherme Lessa (PTC), Jeronimo Sousa (PMB), Priante (MDB), Vavá Martins (Republicanos) e Cleber Rabelo (PSTU)

Especialistas em mobilidade urbana ouvidos pela Lupa avaliam que a climatização dos ônibus adiciona gastos significativos ao sistema, e, portanto, estabelecer como será o custeio dessa medida é fundamental para que ela saia do papel. “Quando implanta ar-condicionado, o custo vai lá pra cima”, diz Patrícia Bittencourt, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) e diretora regional da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). Contudo, nenhuma das propostas apresentadas pelos candidatos explica como isso seria feito.

Já os programas de Sousa e Thiago Araújo (Cidadania) citam a implantação de Bilhete Único. Sousa detalha que o benefício deve assegurar que o passageiro pague uma passagem e possa fazer várias integrações até o destino final, o que deve gerar economia para o usuário “sem necessidade de construção de terminais de integração”. Já Araújo fala em implantar terminais de integração nos “pontos focais do transporte por ônibus” e “criar um novo modelo tarifário com uso de bilhete único e intermodal para transporte por ônibus e fluvial, com tarifa variante de acordo com a distância percorrida”.

O professor da Universidade de Brasília (UnB) Pastor Willy Gonzales Taco também alerta para a necessidade de avaliar o custeio para colocar uma proposta dessa em prática, além de realizar estudos para que atenda às necessidades da população.

“Tem que verificar o tempo que as pessoas gastam para se deslocar e quanto tempo poderiam gastar para integrar com o sistema. Algumas vezes colocam duas horas para integrar, mas essa é a necessidade de Belém? Tem que estudar isso”, diz. “E quantas vezes pode integrar? Alguém tem que pagar isso aí. Então vai ter que ver qual a forma de financiamento disso e de onde sai esse valor”, conclui.

Rabelo e Gustavo Sefer (PSD) sugerem estudos para implantação de um sistema de metrô, mas também sem apresentar a fonte do recurso. Gonzales Taco avalia que esse estudo deve contemplar o entendimento de como ocorre o deslocamento das pessoas na cidade, para saber se é pulverizado ou concentrado, por exemplo. Só assim seria possível avaliar se a melhor solução é otimizar o transporte atual ou investir no metrô. “Por trás disso, tem o gerenciamento do recurso do infraestrutura e que leva tempo para se construir. Então devemos saber: necessitamos disso? Queremos isso? Como vai se pagar?”, diz.

Bittencourt também questiona a viabilidade financeiramente da proposta do metrô. “Sou favorável a sistema metroviário a todas as cidades, mas aqui não tem investimento. Não é impossível, mas é remoto”, pontua.  O principal modal de transporte público da capital paraense hoje é o ônibus, mas a professora avalia que a rede tem características de uma cidade de porte médio – inadequado, portanto, para o tamanho de Belém. 

Ela avalia que há uma séria falta de oferta de ônibus em bairros distantes, e há um foco excessivo em linhas que levam ao centro. Além disso, o sistema é pouco eficiente. “Até no meio da manhã, têm ônibus vazios, é uma ineficiência grande. A gente tem uma região metropolitana e a estrutura das linhas de ônibus é de cidade pequena, que faz ligação para o centro. É extremamente mal distribuído”, afirma Bittencourt.

Outras propostas de custo significativo aparecem nos planos sem detalhamento do custeio. Rabelo, por exemplo, sugere passe livre para estudantes e desempregados. Andrade e Couto sugerem o monitoramento das linhas de ônibus em tempo real.

Pandemia é problema ignorado

Um dos maiores desafios para a próxima gestão na área de mobilidade será os efeitos da pandemia de Covid-19 no sistema de transporte. Para Bittencourt, a necessidade de adaptação do transporte público às mudanças causadas pela pandemia da Covid-19 deve ser uma das maiores preocupações da próxima geração de prefeitos. “Uma preocupação da ANTP é que, depois da pandemia, muita gente vai continuar em trabalho remoto. A expectativa é que tenha redução da demanda [de passageiros]”, afirma.

A remodelagem do transporte diante das transformações provocadas pela pandemia também é enfatizada por Gonzales Taco, pois isso demanda a reestruturação da estrutura e da cobertura do transporte público. “Isso implicaria na restauração do plano de mobilidade, para incorporar esses elementos de agora, para ter planejamento de médio a longo prazo, e que contemple a otimização [do transporte] da cidade”, avalia o professor.

Contudo, apesar da importância desse tema para o próximo mandato, nenhum dos 12 candidatos apresenta alguma proposta, ou mesmo faz referência à questão, em seus planos de governo para a área de mobilidade.

A seguir, conheça as principais propostas apresentadas pelos candidatos, em ordem alfabética:

 

1 – Cássio Andrade (PSB) – (veja o programa completo aqui)

A proposta de Andrade é de conclusão do sistema de Bus Rapid Transit (BRT) e integração do sistema com a instalação de bicicletários e ciclorrotas, “para interligar os ciclistas dos bairros adjacentes aos transportes públicos”.

2 – Cleber Rabelo (PSTU) –  (veja o programa completo aqui)

Rabelo propõe a criação de uma Empresa Pública Municipal de Transporte, além de passe livre para estudantes e desempregados. A proposição ainda defende que o Vale Transporte Digital seja gerenciado pelo município, por meio de um conselho de trabalhadores.

3 – Edmilson Rodrigues (PSOL) –  (veja o programa completo aqui)

Rodrigues quer a integração dos ônibus municipais, que estariam ligados ao transporte fluvial e à rede cicloviária. A proposta é de adotar uma política de transporte e mobilidade com condições seguras e rápidas.

4 – Everaldo Eguchi (Patriota) –  (veja o programa completo aqui)

Eguchi também menciona a integração da rede fluvial à terrestre e quer a elaboração de um novo Plano de Mobilidade Urbana. Ainda sugere estudo de adequação do BRT com análise da oferta de mais ônibus na via exclusiva e construção de ciclovias e ciclofaixas.

 5- Guilherme Lessa (PTC) –  (veja o programa completo aqui)

Lessa também se refere a uma reestruturação do BRT e retomar a construção e extensão da Avenida Bernardo Sayão. O programa menciona implantar terminais hidroviários de transporte, a construção de 10 anéis viários e 1 rodo anel rodoviário.

6 – Gustavo Sefer (PSD) – (veja o programa completo aqui)

Além de concluir o BRT, o programa defende ampliar o sistema de transporte para os rios, com linhas regulares. Sefer ainda que construir uma ponte entre o Tenoné e Ananindeua, para auxiliar na entrada e saída da cidade. 

7 – Jair Lopes (PCO) – (veja o programa completo aqui)

Não apresenta propostas para a mobilidade urbana em Belém.

8 – Jeronimo Sousa (PMB) –  (veja o programa completo aqui)

Sousa quer permitir o uso de vias do BRT para táxis e carros de motoristas de aplicativos credenciados. O programa ainda menciona a ampliação da malha cicloviária e de implementar condições para uso de patins e skate.

9 – Mário Couto (PRTB) – (veja o programa completo aqui)

Couto também fala em implantar transporte fluvial e monitoramento de ônibus municipais. Outra proposta é criar o Fundo Municipal de Mobilidade Urbana, com recursos de serviços como o estacionamento rotativo e reestruturar o transporte a partir de um novo plano diretor.

10 – Priante (MDB) – (veja o programa completo aqui)

Priante propõe finalizar o BRT, com expansão e correções ao projeto original. Ele cita ainda incluir no transporte coletivo linhas alimentadoras para bairros periféricos. O transporte fluvial também é citado no programa, assim com a extensão da malha cicloviária.

11 – Thiago Araújo (Cidadania) –  (veja o programa completo aqui)

Araújo quer o monitoramento de dados de mobilidade por meio de uma plataforma digital, além da utilização de tecnologia para adaptar o itinerário dos ônibus por meio de Inteligência Artificial.

12 – Vavá Martins (Republicanos) –  (veja o programa completo aqui)

O programa de Martins defende “proporcionar uma rede segura e conectada para ciclistas, além de garantir acesso seguro ao transporte público de qualidade e mudança da frota para coletivos equipados com ar condicionado”. 

Editado por: Chico Marés

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