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Porto Alegre: Só 4 dos 13 candidatos propõem atacar preço do ônibus

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
15.out.2020 | 08h00 |

Dos 13 postulantes à prefeitura de Porto Alegre, 12 apresentam, em seus programas de governo, medidas que dialogam com uma das demandas mais urgentes da cidade: o transporte. Para a população, os problemas se traduzem de forma palpável no bolso. Com redução de usuários e passagem a R$ 4,70, a cidade detém o mal visto título da tarifa de ônibus mais cara entre as capitais do Brasil. Apesar disso, apenas quatro dos 13 concorrentes propuseram medidas concretas para reduzir o valor da passagem, segundo levantamento feito pela Lupa a partir dos programas disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Manuela D’Ávila (PCdoB) sugere a constituição de um fundo municipal de mobilidade e revisão na planilha de cálculos da passagem. Fernanda Melchionna (PSOL) se propõe a encontrar uma fórmula para reduzir o custo e, eventualmente, chegar a uma tarifa zero por meio de um sistema de financiamento. Na mesma linha, Julio Flores (PSTU) aposta na municipalização como estratégia para melhoria da área e promete a redução e o congelamento do valor até chegar à “tarifa zero”. João Derly (Republicanos) fala em pagamento da passagem de acordo com o trajeto percorrido, embora não mencione redução como um todo.

De acordo com um dos especialistas ouvidos pela Lupa, ainda que os programas estejam em consonância com questões importantes, como o transporte público, as propostas em geral são listas genéricas que não detalham como, de fato, cada ação seria implementada. É o caso das sugestões para meios alternativos de transporte.

Juliana Brizola (PDT) propõe “estudar implantação de sistema de trens urbanos”, mas não detalha como. Gustavo Paim (PP) promete “reestudar” a implantação dos BRTs (ônibus de trânsito rápido, na sigla em inglês), VLTs (veículo leve sobre trilhos) e outros sistemas de transporte menos poluentes, mas não cita ações para concretizar isso. O programa de Manuela D’Ávila também traz a promessa de “retomar o planejamento” de investimentos em outros modais de transporte (BRTs, VLTs, cicloviário e hidroviário), mas não detalha como seria a implantação. José Fortunati (PTB) afirma que é preciso um grande pacto pelo transporte público, mas se limita a dizer que todos os setores “precisarão sentar à mesa e definir a parcela de sacrifício de cada um para recuperar a sustentabilidade do modal rodoviário”.

“Todos querem uma passagem mais barata, mas os problemas fundamentais de modernização dos sistemas de transporte não são enfrentados diretamente. Mantemos a velha dualidade: para uns, a culpa é do excesso de gratuidade; para outros, são os empresários que ganham demais”, analisa Rodrigo Stumpf Gonzalez, professor do programa de pós-graduação em ciência política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Nesse sentido, as divisões ideológicas dos candidatos dão o tom das propostas, como observa o cientista político e pesquisador Bruno Schaefer. “As propostas tendem a girar em torno do fortalecimento da empresa pública de ônibus Carris e fiscalização maior das empresas privadas (PSOL), até a exclusão da Carris do processo de licitação de linhas de ônibus (PP)”, aponta.

Tecnologia e meios alternativos

O uso da tecnologia para melhorar a mobilidade na cidade aparece com destaque em seis dos 13 programas. Manuela D’Ávila propõe a criação de um aplicativo de transporte individual com custo reduzido para o motorista. Fernanda Melchionna também fala em criar um aplicativo de transporte de passageiros e de entregas, que seria chamado Baita App, uma espécie de Uber. O candidato à reeleição, Nelson Marchezan Júnior (PSDB), promete utilizar equipamentos tecnológicos para auxiliar a mobilidade, como frota 100% equipada com GPS e conexão inteligente de informações para gestão de tráfego.

João Derly aposta na criação de um sistema semafórico central e em convênios para desenvolvimento de tecnologias que possam trazer soluções na mobilidade urbana. Gustavo Paim sugere a tecnologia como solução para monitorar e melhorar essa área. Juliana Brizola cita informações online nas paradas de ônibus como uma das ações em direção à aplicação de tecnologia nos sistemas de transporte. Outro tema recorrente foram os meios de transportes alternativos ao ônibus. Julio Flores prevê a construção do metrô de Porto Alegre. Montserrat Martins (PV) apresenta as propostas mais ambiciosas nesse sentido, que incluem aeromóvel e VLT.

A ampliação das vias para ciclistas —  desde 2009, Porto Alegre conta com um Plano Cicloviário que prevê 495 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas, mas somente 54 quilômetros foram construídos até agora — é uma promessa em sete programas de governo. No entanto, não aparece nos planos de José Fortunati, Sebastião Melo (MDB), Juliana Brizola, Gustavo Paim, Valter Nagelstein (PSD) e Luiz Delvair Martins Barros (PCO).

Veja, a seguir, as principais propostas apresentadas pelos candidatos para a área de transporte e mobilidade. A lista está organizada conforme a intenção de votos aferida pela pesquisa Ibope para o Grupo RBS divulgada no dia 5 de outubro.

Manuela D’Ávila – PCdoB (veja o programa completo aqui)

Para o transporte, Manuela D’Ávila propõe constituir um fundo municipal de mobilidade e a revisão no cálculo da passagem, dando transparência à forma como se chega à tarifa. Também promete novo modelo de gestão para a Carris, uma das empresas operadoras do transporte público na cidade. Sugere a criação de um aplicativo de transporte com custo reduzido para o motorista e que possa contribuir com recursos para a formação de um fundo municipal de mobilidade. Promete retomar o planejamento de investimentos em outros modais de transporte (BRTs, VLTs e hidroviário) e seguir com o plano cicloviário da cidade.

José Fortunati – PTB (veja o programa completo aqui)

Propõe planejamento de curto, médio e longo prazo para a área de transporte. No entanto, apenas as iniciativas para longo prazo são detalhadas, como a reativação de um projeto existente de BRTs por meio de novas formas de financiamento e do uso de tecnologias como GPS. Pretende viabilizar a integração metropolitana aos modais do sistema de transporte municipal e também buscar financiamentos para implantar projeto alternativo ao metrô na avenida Assis Brasil. Por fim, propõe a exploração da mobilidade fluvial de transporte.

Sebastião Melo – MDB (veja o programa completo aqui)

Sebastião Melo quer repensar o modelo do sistema de transporte atual por meio do diálogo com os agentes do setor. O candidato se compromete a avaliar as alternativas e ser transparente com os funcionários, empresários e usuários do sistema de transporte quanto ao método a ser implementado, bem como as etapas e custos de implementação. Acredita no transporte hidroviário como alternativa de mobilidade e afirma que não serão implementados pedágios na cidade.

Nelson Marchezan Júnior – PSDB (veja o programa completo aqui)

O candidato tenta a reeleição prometendo priorizar o transporte coletivo com ações como a ampliação de faixas exclusivas e tecnologia para dar mais fluidez ao tráfego. Como no programa de 2016, propõe a ampliação da rede cicloviária, melhoria de infraestrutura de abrigos de ônibus e terminais e, ainda, uso de tecnologia aplicada à mobilidade. Também cita a priorização da segurança viária e dos pedestres. Não detalha ações para redução da tarifa de ônibus.

Juliana Brizola – PDT (veja o programa completo aqui)

A política dedica uma página de promessas para o transporte. Entre os nove pontos listados estão a modernização e obras do sistema viário e ampliação do transporte fluvial. Juliana também propõe a ampliação de linhas para atender comunidades não servidas com ônibus e ainda o uso de tecnologia nos sistemas de transporte, como informações online nas paradas de ônibus. Não detalha como adequar os custos da tarifa do transporte, mas cita a conciliação entre as empresas transportadoras e os passageiros como uma atribuição do município. Fala ainda em estudar um sistema de trens urbanos, mas não promete implantá-los de fato.

João Derly – Republicanos (veja o programa completo aqui)

João Derly propõe a integração dos sistemas de transporte, mudanças no itinerário dos ônibus lotação, além da implementação de tarifas proporcionais ao trajeto percorrido e cupons de desconto para visitação a pontos turísticos da cidade. O candidato promete a redução na circulação de ônibus no centro da cidade, a delimitação de horários para entrega nas regiões mais movimentadas, a criação de faixas exclusivas para ônibus e aprimoramento das que já estão funcionando. Derly aposta na criação de um sistema semafórico central e em convênios com universidades e empresas para desenvolvimento de tecnologias que possam trazer soluções na área de mobilidade urbana. Para geração de receita, o candidato defende parcerias público-privadas (PPPs) para exploração de mídia no mobiliário do transporte público, fiscalização das gratuidades e revisão no funcionamento da câmara de compensação tarifária.

Fernanda Melchionna – PSOL (veja o programa completo aqui)

A candidata dedica 12 páginas — de um total de 133 do programa de governo — a diagnóstico e promessas para o transporte. Propõe-se a encontrar uma fórmula para ofertar à população um serviço público de transporte a custo acessível até chegar a uma tarifa zero e, assim, transformar Porto Alegre na “cidade do passe livre”. Isso seria possível, segundo a candidata, por meio de um sistema de financiamento associado a um redesenho da mobilidade urbana da cidade. Também promete a criação de um aplicativo público municipal de transporte de passageiros e de entrega de mercadorias, chamado Baita App. Para isso, seria criada uma taxa municipal de 5% sobre as corridas e as entregas e os outros 95% seriam para os trabalhadores. Promete ainda criar o Fundo Único Municipal da Mobilidade Urbana, centralizando 40% das multas de trânsito da Empresa Pública de Transporte e Circulação de Porto Alegre (EPTC). A candidata também promete desestimular o trânsito de carros nas vias Centro Histórico e abrir novos estacionamentos públicos.

Valter Nagelstein – PSD (veja o programa completo aqui)

A proposta de governo do candidato Valter Nagelstein sugere uma revisão do planejamento urbano, respeitando as características dos bairros e avenidas. Destaca que o projeto aquaviário que busque contemplar o transporte de Porto Alegre deve envolver todas as cidades periféricas da capital.

Gustavo Paim – PP (veja o programa completo aqui)

Promete reavaliar o modelo de concessão atual das linhas de transporte público, em especial a participação estatal (Carris) e reestruturar a política de isenções de passe. Também propõe desenvolver rotas alternativas às vias arteriais de ônibus e exigir dos concessionários adaptação acessível nas estações da cidade. A tecnologia também aparece como solução para monitorar e melhorar a mobilidade urbana. Em relação a meios menos poluentes, sugere “reestudar” a implementação dos BRTs, VLTs e outros sistemas de transporte coletivo.

Julio Flores – PSTU (veja o programa completo aqui)

No setor de transportes, o candidato aposta na municipalização como estratégia para melhoria da área. A ideia é que não existam mais empresas privadas prestando esse serviço, mas uma empresa municipal. Com isso, segundo o candidato, haveria transporte para todas as localidades da cidade, em todos os horários, de maneira acessível a todos os cidadãos. A proposta prevê o aproveitamento de 100% dos empregados que hoje prestam serviços para as empresas privadas de transporte público urbano nessa nova empresa municipal. O candidato promete aumentar o número de linhas e horários dos ônibus, com a substituição gradativa da frota por veículos movidos a fontes menos poluentes. A proposta ainda prevê a construção do metrô de Porto Alegre, além da ampliação e adequação das ciclovias existentes na cidade. O candidato promete a interligação do transporte público, sem cobrança de valores adicionais, além da redução e congelamento das passagens visando ao que chamou de “tarifa zero”.

Luiz Delvair Martins Barros – PCO (veja o programa completo aqui)

O programa é um manifesto do partido sobre as eleições e sua tática eleitoral para o pleito de forma nacional, sem citar Porto Alegre.

Montserrat Martins – PV (veja o programa completo aqui)

O programa de governo é apresentado em 105 páginas nas quais descreve a função de cada uma das secretarias municipais e órgãos da administração. A área dos transportes é pautada na sustentabilidade e mobilidade urbana. Segundo o candidato, é necessária a mudança dos transportes para modalidades não-poluentes, como o aeromóvel e o VLT. O candidato acredita que o metrô segue sendo uma alternativa de interesse da cidade mas, por seu alto custo de implementação, seria substituído pelo aeromóvel em um primeiro momento. O programa ainda promete expansão e incentivo ao uso das linhas de catamarã que liga Porto Alegre a Eldorado e Guaíba, assim como das ciclovias e ciclofaixas, que passarão a contar com estacionamentos para as bicicletas, possibilitando a integração com outros meios de transporte.

Rodrigo Maroni – PROS (veja o programa completo aqui)

Propõe uma análise completa dos problemas estruturais que afetam a malha viária da cidade, com a obtenção de recursos junto aos governos federal e estadual para melhoria das avenidas de grande circulação da cidade. O plano de governo promete estimular a renovação e modernização da frota de ônibus atualmente em circulação em Porto Alegre, além de criar um canal de comunicação com os usuários do transporte público para a criação, alteração ou extinção de linhas. Rodrigo Maroni defende a criação de novas ciclovias para ligar diferentes bairros e regiões, além de recuperação das já existentes e deterioradas pela ação do tempo.

Editado por: Marcela Duarte e Natália Leal

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