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Foto: Fábio Arantes / Secom/ PMSP
Foto: Fábio Arantes / Secom/ PMSP

SP: na esteira da pandemia, digitalização do ensino puxa propostas dos candidatos

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.out.2020 | 12h51 |

A pandemia levantou a pauta sobre a modernização do sistema de ensino público entre os candidatos à prefeitura de São Paulo. Segundo análise feita pela Lupa nos planos de governo cadastrados no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 10 dos 14 políticos que disputam o cargo apresentam propostas para digitalizar a educação paulistana. Na pandemia, alguns defendem o uso da  tecnologia para retardar o retorno às aulas presenciais até que haja uma vacina para o coronavírus. Outros desconsideram a doença e enxergam na medida um meio de melhorar o ensino de maneira ampla. 

Esse último é o caso de Celso Russomanno (Republicanos), que propõe a criação de uma plataforma digital, em que os alunos possam rever os conteúdos trabalhados em sala e ter acesso a materiais complementares, como documentários e reportagens. Bruno Covas (PSDB) segue em direção semelhante, dizendo que vai transformar as salas de aula em “ambientes digitais” e prometendo entregar 465 mil tablets aos alunos. A ação estava prevista para este ano, mas foi embargada pelo Tribunal de Contas do Município, que identificou 19 irregularidades na medida, entre elas a inexistência de documento que embasasse o número de estudantes beneficiados. Márcio França (PSB), Andrea Matarazzo (PSD), Jilmar Tatto (PT), Levy Fidelix (PRTB), Filipe Sabará (Novo), Marina Helou (Rede) e Joice Hasselmann (PSL) também mencionam a digitalização do ensino em seus programas. 

A adoção de ferramentas tecnológicas, no entanto, não deve ser encarada como resposta absoluta para os problemas da educação. Olavo Nogueira Filho, diretor executivo da ONG Todos Pela Educação, argumenta que o debate atualmente não está centrado em decidir em implementar a tecnologia ou não, mas sim sobre “como” utilizá-la no ensino. “Em que pese algumas pesquisas mostrarem que a pandemia aumentou o nível de abertura dos professores para o uso das ferramentas, há que se investir na formação, em conteúdos de qualidade, na infraestrutura das escolas e sobretudo na formação dos professores.  Tecnologia não é e não será a alavanca de transformações. Mas pode, certamente, apoiar muito a prática pedagógica”, diz ele.

Igor Pantoja, assistente de mobilização da Rede Nossa São Paulo, acrescenta que é preciso promover a educação digital e oferecer estrutura para alunos e professores. “As próprias escolas muitas vezes não possuem bom acesso à internet, há desigualdade entre as escolas periféricas e as centrais. Esse é um elemento fundamental para se pensar na digitalização do ensino. As condições de vida em casa também são importantes para entender o quanto se consegue avançar nesse tema”, pontua. 

Guilherme Boulos (PSOL), por sua vez, trata o assunto de forma mais relacionada à manutenção do ensino à distância enquanto a pandemia perdurar e defende a universalização do acesso à internet a todos os alunos da rede pública. Para Cisele Ortiz, coordenadora adjunta do Instituto Vivalá e integrante do GT de educação da Rede Nossa São Paulo, o retorno às aulas presenciais deve ser gradual e planejada. “Além dos protocolos formulados de maneira centralizada, cada escola deve ter as suas orientações, porque cada uma tem uma arquitetura, um número de alunos, de professores e de funcionários que estão aptos a voltar ou não. É preciso olhar cada distrito, cada realidade, cada escola para que isso possa ser feito de uma maneira segura e planejada”, diz ela.

Seis candidatos citam a pandemia como um fator que irá interferir na gestão da educação.  Andrea Matarazzo (PSD) se compromete a fazer um levantamento sobre os principais impactos da suspensão das atividades, mas não indica como pretende reduzir os danos já observados. Já Marina Helou (Rede) diz que vai criar protocolos de segurança e que promoverá a integração entre os sistemas de Saúde, Educação e Assistência Social do município. Também mencionam a crise sanitária Russomanno, Antônio Carlos (PCO) e Vera Lúcia (PSTU).

Vagas em creche

Tema presente no debate realizado pela Band no início de outubro, a fila para conseguir uma matrícula nas creches municipais é outra pauta popular nos programas de governo. Dos 14 planos, 10 citam essa questão. Os candidatos se dividem entre a construção de novas unidades de ensino, como é o caso de Márcio França (PSB); e a ampliação da política de vouchers, que prevê a distribuição para as famílias de uma espécie de “cupom” assinado pela Prefeitura para a ocupação de vagas em creches particulares, conveniadas à rede municipal de ensino. Essa é a solução proposta por Arthur do Val (Patriota). Também tratam do assunto Covas, Boulos, Matarazzo, Vera Lúcia, Sabará, Tatto, Helou e Hasselmann. 

Ortiz explica que a discussão sobre a oferta de vagas em creches é histórica em São Paulo e pondera que o problema é de difícil resolução, pois exige investimento em novas unidades, e a disponibilidade de terrenos e imóveis que podem ser desapropriados é pequena. No entanto, ela não vê na parceria com o setor privado, tampouco na distribuição de vouchers, uma alternativa satisfatória. “Pagar vaga em escola particular para uma criança pequena não é vantagem nem para o Estado, nem para a criança”, diz. “A política de vouchers não garante que se faça boas escolhas pedagógicas e nem que as escolas particulares tenham condições e qualidade para atender as crianças. Isso é super sério, porque quando se fala de acesso, não é só de vagas disponíveis ou matrículas efetivadas, é também da qualidade”. 

Os candidatos ainda mencionam outros assuntos como a valorização dos professores, aumento do orçamento do setor e oferecimento de uniformes e materiais didáticos para os estudantes. 

Veja abaixo as principais propostas dos candidatos à prefeitura de São Paulo para educação. A lista está organizada conforme as intenções de voto dos eleitores, aferida pelo Datafolha entre os dias 5 e 6 de outubro:

Celso Russomanno – Republicanos (veja o programa completo aqui)

Elenca medidas para recuperar a defasagem de ensino provocada pela pandemia, como a orientação dos professores sobre os protocolos de segurança e a promoção de atividades lúdicas para as crianças entenderem a necessidade de distanciamento. Ele propõe ainda uma premiação para projetos inovadores.

Bruno Covas – PSDB (veja o programa completo aqui)

Promete garantir que toda criança assistida pelo Programa Mãe Paulistana, de pré-natal, tenha vaga nas creches municipais. Ao mesmo tempo, Covas diz que vai ampliar o número de beneficiárias da Bolsa Primeira Infância, direcionadas a famílias em vulnerabilidade social e que tenham crianças de até 3 anos, que não conseguiram ser matriculadas na rede municipal. 

Guilherme Boulos – PSOL (veja o programa completo aqui)

Compromete-se a retornar às aulas presenciais após a superação da pandemia e promete equipar as escolas para que o ano letivo possa ter continuidade à distância. Ele também propõe garantir a formação continuada dos professores; reverter gradualmente a terceirização e conveniamento da educação e destinar 31% das receitas da Prefeitura para o ensino.

Márcio França – PSB (veja o programa completo aqui)

O ex-governador se compromete a abrir mais vagas nas creches, reduzir o número de alunos por sala e investir em formação continuada dos professores. Além disso, o programa do candidato traz propostas sobre a digitalização do ensino, através do oferecimento de equipamentos eletrônicos para alunos e professores

Arthur do Val – Patriota (veja o programa completo aqui)

Promete fazer uma “mudança semântica e simbólica” na Secretaria de Educação, mas não explica como, nem qual é o objetivo da proposta. Diz que a Controladoria Geral do Município ficará responsável pela auditoria das concessões às organizações sociais (OS), apesar de essa já ser uma função do órgão. O candidato diz ainda que vai expandir a política de vouchers.

Andrea Matarazzo – PSD (veja o programa completo aqui)

Promete implementar um programa de formação continuada para professores e diretores e incentivar o uso de novas tecnologias e mídias sociais como ferramentas de ensino. Também se compromete a comprar computadores para os alunos da rede pública e garantir o acesso à internet, mas não explica como financiará as ações. 

Levy Fidelix – PRTB (veja o programa completo aqui)

Diz que vai “reintroduzir” a obrigatoriedade de cantar o hino nacional em todas as escolas municipais e promete criar mais escolas cívico-militares na educação infantil e fundamental. O candidato também repete as propostas apresentadas em 2016 sobre a alocação da guarda civil para a vigilância das escolas, a contratação de dentistas e a digitalização do ensino.

Antônio Carlos – PCO (veja o programa completo aqui)

Defende que as aulas só retornem após o fim da pandemia e a descoberta de uma vacina para o coronavírus, e rechaça a adoção do Ensino à Distância (EAD). O candidato diz ser a favor da estatização de todas as instituições de ensino privadas e é contrário à militarização das escolas.

Jilmar Tatto – PT (veja o programa completo aqui)

O candidato diz que irá reduzir o número de alunos por sala, promover a Política de Educação Integral nos CEUs e integrar, de maneira crítica, a tecnologia nos debates e nas práticas pedagógicas. Promete implantar o auxílio estudantil, com o oferecimento gratuito de uniforme e material escolar, além de garantir o transporte escolar e o bilhete único estudantil.

Joice Hasselmann – PSL (veja o programa completo aqui)

Para atender às demandas por matrículas em creches e educação infantil, a candidata sugere a ampliação da política de vouchers e o estabelecimento de parcerias com instituições filantrópicas. Compromete-se a adotar política de valorização e capacitação dos profissionais da rede de ensino pública e estimular a “difusão do conhecimento de ciências exatas”.

Marina Helou – Rede (veja o programa completo aqui)

Propõe a construção de novas escolas e creches para atender à totalidade da demanda por vagas. Promete elevar os recursos do setor de forma gradual até que eles representem 35% do orçamento municipal e estabelece medidas para mitigar os reflexos da pandemia, como a adoção de aulas de reforço.

Orlando Silva – PCdoB (veja o programa completo aqui)

Compromete-se a reformar as unidades de educação e criar bolsas de trabalho para estudantes, como forma de incentivar a produção de conhecimento e de cultura. O candidato também fala em fazer contratação emergencial de profissionais para atuar nos Centros Educacionais Unificados (CEUs).

Felipe Sabará – Novo (veja o programa completo aqui)

Diz que vai expandir a política de vouchers para zerar a fila das creches e estabelecer parcerias com a iniciativa privada para garantir a acessibilidade digital dos alunos e professores. Defende a atualização das matérias lecionadas nas escolas e a inserção de conteúdos que considera mais “atuais”, como empreendedorismo, finanças e programação. 

Vera Lúcia – PSTU (veja o programa completo aqui)

Defende que as aulas presenciais retornem só após o lançamento de uma vacina contra a Covid-19. Promete construir mais creches, para ampliar a oferta de vagas, e instalar uma biblioteca por bairro. Também propõe direcionar 30% do orçamento municipal para a manutenção e desenvolvimento da educação e 6% para o ensino inclusivo.

Editado por: Natália Leal

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