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Na sabatina Folha/UOL, Bandeira de Mello erra ao falar sobre incêndio em CT do Flamengo

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
03.nov.2020 | 19h25 |

 

Nesta terça-feira (03), o candidato Bandeira de Mello (Rede) foi o quarto entrevistado da série de sabatinas da Folha de S.Paulo e do UOL. Durante a sabatina, ele comentou sobre suas propostas de governo e sobre o incêndio no centro de treinamentos do Flamengo, clube que presidiu entre 2013 e 2018. A Lupa checou algumas das declarações do candidato, confira:

“Quando eu deixei o clube [Flamengo], os meninos já estavam ocupando as instalações definitivas, que foram destinadas a eles”
Bandeira de Mello (Rede), candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, na sabatina feita pela Folha de S.Paulo, em parceria com o UOL, em 03 de novembro de 2020

EXAGERADO

Em 31 de dezembro de 2018, Bandeira deixou a presidência do Flamengo. Antes disso,  no mesmo mês, alguns jovens das categorias de base foram transferidos para as instalações definitivas do centro de treinamento do clube. Porém, essa transferência foi temporária, apenas durante as férias do time principal. Em 2019, os meninos voltaram ao alojamento provisório, em contêineres. Em 8 de fevereiro, um incêndio destruiu essa estrutura, matando 10 atletas e ferindo gravemente outros três.

As “instalações definitivas” às quais Bandeira se refere são o módulo 2 do Ninho do Urubu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Esse prédio era usado pelo time profissional em 2018, mas seria destinado à base após a conclusão de uma nova estrutura. Esse novo edifício foi inaugurado em novembro de 2018, antes do fim do mandato de Bandeira. Porém, o prédio ainda não estava completamente finalizado, segundo a assessoria de imprensa do Flamengo – que, por telefone, explicou que algumas obras ainda estavam sendo feitas no início do ano seguinte. 

Em dezembro de 2018, alguns jovens da base que, naquele ano, ainda disputavam competições foram transferidos para o módulo 2, após o time principal entrar em férias. No entanto, no início de 2019, já na gestão de Rodolfo Landim, os profissionais voltaram aos trabalhos, e o novo prédio ainda estava em obras. Por isso, os jovens da base tiveram de retornar às instalações provisórias em contêineres. De acordo com reportagens do UOL e do G1, a previsão era de fazer a transferência definitiva em meados de fevereiro.

Antes que eles fossem transferidos para as instalações definitivas, as instalações provisórias pegaram fogo, no dia 8 de fevereiro de 2019. 10 meninos, com entre 14 e 17 anos, morreram, e outros três ficaram gravemente feridos. Na época, Landim era presidente do clube. 

Em nota, a assessoria do candidato diz que os jovens que ainda estavam disputando jogos competitivos em dezembro de 2018 foram transferidos para o módulo 2 após o término da temporada profissional, em 2 de dezembro. “Isso não é uma opinião, é um fato. Com as obras do módulo novo finalizadas (em novembro/2018) e aproveitando as férias do elenco principal, os atletas que ainda estavam em competição se mudaram para o módulo antigo antes da virada do ano, para onde todos retornariam ao final das férias”, disse. Bandeira enviou fotos e vídeos publicados em redes sociais (aqui, aqui e aqui) que mostram jovens treinando e concedendo entrevistas nas instalações.

“O cronograma de mudança dos meninos era sabido por todos. E isso consta do último relatório do Ministério Público (entregue em fevereiro/2019). Essa programação também foi confirmada em depoimento por membros da atual gestão”, diz. “Como a gestão Bandeira de Mello encerrou-se em dezembro de 2018, não há como justificar ou julgar os motivos que levaram ao retorno da base para o antigo alojamento”, concluiu.


“O edital de interdição [de 2017] que foi divulgado depois [do incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo] não fazia a menor referência ao alojamento dos meninos. Simplesmente fazia referência à coisa do alvará, da licença definitiva do Corpo do Bombeiros”
Bandeira de Mello (Rede), candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, na sabatina feita pela Folha de S.Paulo, em parceria com o UOL, em 03 de novembro de 2020

VERDADEIRO, MAS

Em 2017, a prefeitura do Rio de Janeiro publicou um edital que obrigava a interdição do Ninho do Urubu, centro de treinamentos (CT) do Flamengo, que não mencionava o alojamento, que pegou fogo em 2019. Contudo, essa referência não exista porque, oficialmente, a área era descrita como um estacionamento.

Dois anos antes, a prefeitura tinha determinado a interdição do CT, pois o local não possuía alvará de funcionamento. O clube não cumpriu esse edital.

De acordo com a prefeitura, “a área incendiada não consta com destinação de alojamento em quaisquer dos projetos aprovados pela Secretaria de Urbanismo (tanto em 07/01/2011 quanto em 05/04/2018)”. Em outra nota divulgada pela imprensa, a prefeitura reforça que “no projeto protocolado, a área está descrita como um estacionamento de veículos e não como um alojamento”.

Após o descumprimento do pedido de interdição, a prefeitura aplicou 31 multas ao clube, entre outubro de 2017 e dezembro de 2018, das quais dez foram pagas

Em nota, a assessoria do candidato disse que “o processo de interdição tratava de questões mais amplas sem sequer fazer referência aos módulos habitacionais”.


“Isso [posicionamento contra o armamento da Guarda Municipal] está bem explícito aqui no programa”
Bandeira de Mello (Rede), candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, na sabatina feita pela Folha de S.Paulo, em parceria com o UOL, em 03 de novembro de 2020

FALSO

Em seu programa de governo, Bandeira de Mello não se posiciona sobre o armamento da Guarda Municipal do Rio. No documento, ele afirma apenas que irá qualificar o trabalho dos agentes de segurança do município “para que ela atue como uma verdadeira polícia para a proteção comunitária”. Contudo, em nenhum momento o candidato cita os equipamentos que esses profissionais poderiam utilizar. 

O único momento em que Bandeira cita as armas de fogo em seu documento é para dizer que pretende realizar operações para tirar esse tipo de armamento das ruas.

Em outubro, a Lupa publicou uma reportagem mostrando que cinco dos 14 candidatos à prefeitura do Rio de Janeiro propõem autorizar o uso de arma de fogo pela Guarda Municipal carioca. São eles: Clarissa Garotinho (PROS), Marcelo Crivella (Republicanos), Glória Heloiza (PSC), Luiz Lima (MDB). Já Paulo Messina (MDB) é mais cauteloso e diz que irá analisar a possibilidade do armamento desses agentes.

Em nota, a assessoria do candidato disse que armar a GM “contraria todo o espírito que norteia nosso programa de segurança”, mas admitiu que isso “não está explícito no texto do programa”.


“63% do eleitorado sequer sabem que eu sou candidato”

Bandeira de Mello (Rede), candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, na sabatina feita pela Folha de S.Paulo, em parceria com o UOL, em 03 de novembro de 2020

VERDADEIRO

De acordo com a segunda pesquisa Datafolha para a prefeitura do Rio de Janeiro, divulgada no dia 22 de outubro, 39% dos eleitores disseram saber quem era Bandeira de Mello. Ou seja, 61% não o conheciam — número bastante próximo ao citado pelo candidato que, no mesmo levantamento, tinha 3% das intenções de voto.

Dois candidatos menos conhecido estavam a frente de Mello nas intenções de voto. Renata Souza (PSOL), com 5%, era conhecida por 26% dos eleitores e Luiz Lima (PSL), com 4%, por cerca de 32%. 


“Você sabe que (…) a nossa principal fonte de receitas é exatamente o ISS, que é o Imposto sobre Serviços”
Bandeira de Mello (Rede), candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, na sabatina feita pela Folha de S.Paulo, em parceria com o UOL, em 03 de novembro de 2020

VERDADEIRO

De acordo com informações da Controladoria Geral do Município (CGM), a principal fonte de receita no Rio de Janeiro é o ISS (Imposto Sobre Serviço de Qualquer Natureza). Em 2019, o ISS arrecadado totalizou R$ 6,2 bilhões, o que representou 21,7% da receita municipal daquele ano.

Esta proporção se manteve durante os últimos anos. Em 2016, 2017 e 2018, o ISS foi o imposto que mais gerou receita para o município, representando, respectivamente, 19,5%, 20,6% e 19,7% do total de cada ano.


“Dentro de todas as grandes capitais do Brasil, o Rio é o que as pessoas levam mais tempo para circular entre casa e trabalho”
Bandeira de Mello (Rede), candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, na sabatina feita pela Folha de S.Paulo, em parceria com o UOL, em 03 de novembro de 2020

VERDADEIRO

Entre as capitais brasileiras, os moradores da cidade do Rio de Janeiro são os que demoram mais para realizar o trajeto trabalho-casa. O Relatório Global sobre Transporte Público 2019 do Moovit mostra que os cariocas demoravam 67 minutos nesse deslocamento, levando em consideração o tempo de espera. Entre as capitais brasileiras, Recife e São Paulo ficam em segundo lugar (62 minutos) e Belo Horizonte em terceiro (59 minutos). 

Editado por: Chico Marés

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