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#Verificamos: É falso que software usado em eleições americanas foi criado para manipular resultados na Venezuela

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
18.nov.2020 | 19h04 |

Circula pelas redes sociais uma citação da advogada do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Sidney Powell, que acusa a Dominion — empresa que forneceu máquinas e software para alguns locais de votação durante as eleições — de ter sido criada para produzir resultados na votação de Hugo Chávez, que foi presidente da Venezuela por 14 anos. Ela ainda diz que há provas de fraude no pleito americano. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Software usado nos EUA ‘foi criado para produzir resultados na votação de Hugo Chávez’”

Título texto publicado no site Senso Incomum que, até 17h de hoje, tinha mais de 500 compartilhamentos no Facebook

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há evidências de que o software da Dominion Voting System, usado em algumas localidades nas eleições americanas, tenha sido criado a fim de produzir resultados na eleição de Hugo Chávez, que foi presidente da Venezuela de 1999 a 2013. Também não há indícios de que as eleições dos EUA foram fraudadas, segundo comunicado divulgado por autoridades eleitorais federais e estaduais americanas.

 A publicação que circula nas redes sociais cita como fonte uma entrevista com a ex-procuradora federal assistente e advogada integrante da equipe de defesa do presidente Donald Trump, Sidney Powell, concedida ao programa Lou Dobbs Tonight, do canal Fox Business. Sidney afirma que teria evidências de que a Dominion teria sido criada com objetivo de adulterar os resultados da eleição na Venezuela e que o mesmo também teria ocorrido nos EUA.

 “Mal posso esperar para apresentar todas as evidências que coletamos sobre a Dominion, a partir do fato de que foi criada para produzir resultados de votação alterados na Venezuela, para Hugo Chávez”, afirma. Ela diz ainda que a adulteração de votos na eleição americana teria sido financiada com dinheiro da Venezuela. “Cuba e a China também tem um papel nisso”, declara.

“Então, se você quiser falar sobre interferência eleitoral estrangeira, certamente o temos agora. Temos evidências estatísticas impressionantes, temos depoimentos impressionantes de testemunhas, incluindo uma que estava pessoalmente quando tudo isso foi discutido e planejado, começando com Hugo Chávez, e como foi projetado lá e depois viu acontecer neste país”, afirmou.

 A advogada de Trump diz ainda que essas supostas testemunhas estariam dispostas a dar testemunho sob juramento. Na entrevista, Sidney também defende que o setor de segurança eleitoral do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos deve ser demitido.

 Além de Sidney, também foi entrevistado no programa da Fox Business o advogado do presidente de Trump Rudy Giuliani, que também fez associações entre a Dominion e a Venezuela. “Dominion é uma empresa que pertence a outra empresa chamada Smartmatic, por meio de uma intermediária chamada Indra”, disse Giuliani. Ele afirmou a Dominion seria uma empresa canadense, mas que “todo o seu software é Smartmatic”. 

As declarações de Sidney Powell e Rudy Giuliani, no entanto, já foram refutadas pelas empresas envolvidas. Tanto a Dominion quanto a Smartmatic já rejeitaram essa versão, em comunicados divulgados nos seus sites oficiais.

A Dominion é uma empresa que fornece máquinas e software usados em estados americano, adquirida em 2018 pela Staple Street Capital, com base em Nova York. “A Dominion é uma empresa totalmente separada e um competidor feroz da Smartmatic”, informou a empresa de tecnologia americana, em comunicado à imprensa. “Dominion e Smartmatic não colaboram de forma alguma e não têm relações afiliadas ou laços financeiros. A Dominion não usa software Smartmatic”.

A companhia pontua que as únicas associações que as empresas já tiveram foram que, no ano de 2009, a Smartmatic licenciou máquinas Dominion para uso nas Filipinas. No entanto, esse contrato terminou em uma ação judicial. Em 2010, a Dominion comprou ativos da Sequoia, uma empresa privada dos EUA. A Smartmatic, antiga proprietária da Sequoia, entrou com ações legais contra a Dominion na ocasião. A empresa também nega qualquer relação com o governo da Venezuela.

 Por sua vez, a Smartmatic também deixou claro que nunca forneceu nenhum software para a Dominion e que não é proprietária da empresa. “A Smartmatic nunca teve ações ou qualquer participação financeira na Dominion Voting Systems. A Smartmatic nunca forneceu à Dominion Voting Systems qualquer software, hardware ou outra tecnologia. As duas empresas são concorrentes no mercado. A Smartmatic não tem vínculos com nenhum governo ou partido político em nenhum país. Nunca foi propriedade, financiado ou apoiado por qualquer governo”, diz a empresa, no comunicado.

Em uma página do seu site dedicada à checagem de desinformação, a Smartmatic informa que foi fundada no estado da Flórida, em 2000, e rejeita qualquer ligação com a Indra Sistemas, uma empresa de tecnologia e consultoria. Embora tenha sido fundada por venezuelanos, não há indícios de que tenha ligação com o governo daquele país, de acordo com a Associated Press (AP). “A Smartmatic é uma empresa 100% privada e não tem participação de nenhum governo”, afirma a empresa.

De 2004 a julho de 2017 a Smartmatic forneceu tecnologia e serviços para todas as eleições nacionais realizadas na Venezuela. A suspensão das atividades naquele país ocorreu porque a Smartmatic acusou a Comissão Eleitoral local de inflacionar a taxa de participação eleitoral. Porém, sustenta que não houve manipulação das máquinas da empresa na ocasião.

Por fim, a Smartmatic forneceu serviços de tecnologia e software apenas para o condado de Los Angeles, na Califórnia, na eleição de 2020, segundo a Associated Press. O site de checagens americano Lead Stories também verificou essa informação.

A Lupa também checou outra informação falsa que circula nas rede sociais que acusa a Dominion de ter deletado 2,7 milhões de votos para Trump. Já a Smartmatic costuma ser apontada, erroneamente, como fabricante de urnas eletrônicas usadas no Brasil.

Nota: esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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