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#Verificamos: Vídeo que simula funcionamento da urna eletrônica não comprova que o equipamento pode ser fraudado

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
18.nov.2020 | 20h28 |

Circula pelas redes sociais um vídeo que simula o funcionamento de uma urna eletrônica. Na gravação, uma placa programável chamada Arduino é utilizada para demonstrar como seria possível manipular um processo de votação. A publicação é seguida de uma legenda que supõe que esta é a forma com que as urnas eletrônicas são fraudadas. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“Olha aí como funciona a fraude nas urnas eletrônicas”

Legenda de vídeo publicado no Facebook que, até as 16h do dia 18 de novembro, tinha sido compartilhado 3 mil vezes

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Trata-se de um vídeo retirado de seu contexto original, que não mostra a montagem de uma urna eletrônica com seus componentes reais. A gravação original foi publicada no canal do youtube “Brincando com Ideias”, do cientista da computação Flávio Guimarães. Nela, o apresentador simula como seria possível manipular o resultado de uma eleição se as urnas utilizassem o processador Arduino – uma plataforma de prototipagem eletrônica. Os componentes usados na simulação não são os mesmos utilizados oficialmente.

Em nota, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) explicou que as urnas eletrônicas reais não são constituídas da mesma forma que a apresentada na publicação e, por isso, não estão sujeitas a este tipo de fraude. O TSE reforça que o vídeo “apresenta de forma didática uma maneira de se fazer uma urna usando um kit simples, como é o caso de placas com processador Arduino”. 

Por telefone, Guimarães também informa que o conteúdo tinha objetivo estritamente educacional e que foi retirado de contexto. A ideia, segundo ele, é que as pessoas possam usar os dispositivos tecnológicos e entender suas falhas. “Meu objetivo era explorar a tecnologia, mostrando que ela é frágil”, diz. “ Mas eu fui infeliz de tocar num tema que acabou sendo usado para outros fins. Não é o meu foco. Não trato de questões políticas”, conclui.  

Esta posição está explícita no próprio vídeo. Nele, o apresentador reforça que o procedimento foi realizado para mostrar possíveis falhas da tecnologia, mas não significa que seria possível fraudar uma eleição com o método usado por ele. Segundo Flávio, o canal tem como foco ensinar tecnologia para leigos. Depois que o vídeo foi manipulado sem sua autorização para propagar desinformação, ele retirou o conteúdo do ar.

Diferenças 

Em nota, o TSE explica que a urna eletrônica real não é “tão simples e desprotegida como aquela apresentada no vídeo”. O Tribunal elenca uma série de diferenças entre o dispositivo real e o simulado. A principal delas é que os códigos-fonte dos softwares usados na urna são abertos à consulta durante seis meses durante as eleições. Também são realizados testes públicos de segurança – em que os participantes podem expor vulnerabilidades que alteram o resultado da votação, antes do período eleitoral.

Além disso, a urna real não pode ser clonada. O computador usa uma criptografia que identifica o equipamento como próprio da Justiça Eleitoral. Essa identidade é conferida na preparação da urna antes da votação e, depois, na totalização dos votos. O teclado do equipamento também é criptografado e conta com um microcontrolador próprio. 

Ainda, como um computador, as urnas possuem softwares instalados para iniciação e carregamento do sistema operacional. “Porém, de forma diferente dos computadores comuns, a urna eletrônica conta com uma cadeia de confiança iniciada pelo computador do perímetro criptográfico, que verifica as autenticidades e integridades de cada um dos componentes dessa cadeia”, diz o TSE.

Além disso, a plataforma Arduino, usada na simulação, não é parte da urna eletrônica real. “A urna utiliza uma placa mãe desenvolvida sob encomenda, seguindo as especificações do TSE. As urnas utilizam processadores Intel Atom (diferente do Arduino), não possuem interface de rede (Arduino tem) e possuem o hardware de segurança (Arduino não tem), entre outras características”, explicou .

Também existem perfis exclusivos que podem acessar a urna – usado pelos fabricantes, desenvolvedores e testadores. Apenas o perfil oficial pode ser executado durante uma eleição. 

Procedimentos de segurança

Além de possuir uma estrutura de funcionamento diferente, a urna eletrônica usada nas eleições passa por um processo de “preparação” antes de ser utilizada. Uma vez pronta, ela emite a “zerésima” – um documento que atesta que todos os dados incluídos na preparação estão corretos e que não há nenhum voto contabilizado. “Enquanto a votação ocorre, os votos são registrados em uma estrutura de dados chamada Registro Digital do Voto (RDV). A cada voto adicionado a essa estrutura de dados, os votos são embaralhados e cifrados, impedindo que alguém interrompa e recupere alguma informação sigilosa”, diz o TSE. 

Após o final da votação, grava-se o RDV, e o equipamento emite o Boletim de Urna (BU), que funciona como um relatório que contém os votos para cada candidato. O BU é colado na porta de cada seção eleitoral para consulta e uma versão digital é disponibilizada para consulta na web

Para que o resultado de uma urna seja considerado, o equipamento deve ser “válido”. Isto significa que ele deve ter uma identidade reconhecida pelo TSE, como uma assinatura digital do resultado. O RDV e o BU devem conter esta assinatura para serem validados.

Auditoria e fiscalização

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a urna eletrônica também possui uma recursos que permitem a realização de auditorias em seus sistemas. Uma delas é a verificação de integridade dos sistemas, realizada imediatamente antes da votação oficial. Nela, urnas sorteadas emitem um relatório de resumos digitais para que os arquivos instalados no equipamento sejam conferidos. Se um software como o usado no vídeo de Flávio tivesse instalado no dispositivo, por exemplo, ele seria identificado nesta verificação.

Também existe um procedimento chamado de Auditoria de Funcionamento das Urnas Eletrônicas, conhecido como “votação paralela”. Nele, urnas são sorteadas aleatoriamente e passam por uma “votação simulada”. Os participantes preenchem, então, os votos na urna, e em uma cédula de papel. Os resultados, então, são comparados. Se houver algum tipo de fraude na contabilização eletrônica, a diferença será evidenciada. Este processo é acompanhado pelo Tribunal de Contas da União, pelos partidos e por empresa contratada via licitação.

Essa informação também foi verificada pelo Aos Fatos.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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FALSO
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