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Recife: Em debate, Campos e Marília erram dados sobre educação e habitação

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
19.nov.2020 | 20h45 |

Os candidatos à prefeitura de Recife João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT) participaram nesta quinta-feira (19) do primeiro debate do segundo turno das eleições de 2020, na Rádio Jornal. No último domingo (15), os dois deputados foram os candidatos mais votados no primeiro turno das eleições na capital pernambucana, com 29,13% e 27,90% dos votos válidos, respectivamente. A Lupa checou algumas das declarações dos candidatos, confira:

“A sua proposta do hospital da criança sequer está no seu programa de governo”
Marília Arraes (PT), candidata a prefeita de Recife, no debate realizado pela Rádio Jornal, em 19 de novembro de 2020

VERDADEIRO

A proposta de construir um hospital da criança não consta no programa de governo registrado pelo candidato João Campos no Tribunal Superior Eleitoral. O documento diz apenas que, na área da saúde, a gestão Campos pretende ampliar a cobertura da atenção básica, aumentando a quantidade de equipes, e desenvolver um portal de serviços e orientações de saúde. A promessa de criar um hospital da criança veio apenas no início de novembro, quando o candidato assinou uma carta-compromisso com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef)


“A candidata divulgou em suas redes a assinatura de uma carta compromisso em que em um dos seus itens defende o fim do Prouni Recife”
João Campos (PSB), candidato a prefeito de Recife, no debate realizado pela Rádio Jornal, em 19 de novembro de 2020

VERDADEIRO, MAS

A carta compromisso do Sindicato Municipal dos Profissionais de Ensino da Rede Oficial do Recife (Simpere), assinada pela candidata Marília Arraes, defende o fim dos contratos com projetos privados e fundações. O documento cita nominalmente, entre outras instituições, o Sistema Ser Educacional, que administra a Uninassau e Uninabuco — universidades que participam do Prouni Recife. Contudo, a carta não defende, explicitamente, o fim da versão local do Prouni.

O Prouni Recife é um programa instituído pela Lei 18.113, de 12 de janeiro de 2015, e concede bolsas de estudos universitárias gratuitas. As bolsas são para os cursos presenciais de graduação e de cursos sequenciais de formação específica oferecidos por instituições privadas de educação superior situadas na cidade. 


“Recife já é a capital que mais cresce no Brasil nas duas últimas medições no Ideb (…)”
João Campos (PSB), candidato a prefeito de Recife, no debate realizado pela Rádio Jornal, em 19 de novembro de 2020

VERDADEIRO, MAS

A nota da rede municipal de Recife no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) foi a que mais cresceu entre as capitais em uma das três etapas de ensino avaliadas, considerando as edições de 2017 e 2019. Nos anos finais do Ensino Fundamental, a nota saiu de 3,5 para 4,7, representando um aumento de 34%, o maior entre as principais cidades do país.

Nos anos iniciais, a nota também melhorou, mas não foi o maior aumento entre as capitais. A média da rede municipal recifense foi de 4,6, em 2015, para 5,2, em 2019, um aumento de 13%. Maceió (AL) foi a capital com maior crescimento nessa etapa, 23%.

Já a terceira etapa, o Ensino Médio, não é de responsabilidade da rede municipal, e sim do governo do estado.


“(…) Crescemos mais de 60% [nas duas últimas medições do Ideb no Recife]”
João Campos (PSB), candidato a prefeito de Recife, no debate realizado pela Rádio Jornal, em 19 de novembro de 2020

EXAGERADO

A nota média da rede municipal de Recife no Ideb cresceu entre 2015 e 2019, mas não na proporção citada pelo candidato. No período, o aumento foi de 13% nos anos iniciais e 34% nos anos finais.

Em nota, a assessoria do candidato disse que ele se referia apenas ao aumento nos anos finais.


Faz quatro meses que [a prefeitura do Recife] não entregam cestas básicas[para os alunos da rede pública]”
Marília Arraes (PT), candidata a prefeita de Recife, no debate realizado pela Rádio Jornal, em 19 de novembro de 2020

EXAGERADO

Parte das cestas básicas que seriam destinadas às famílias de alunos da rede municipal durante a pandemia não foram entregues, mas essa situação durou dois meses, e não quatro. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Educação do Recife, as cestas básicas não foram entregues em algumas Regiões Político-Administrativas (RPAs) durante os meses de setembro e outubro apenas. Isso aconteceu, segundo a secretaria, porque algumas empresas afirmaram que não tinham condições de continuar realizando o serviço pelo preço contratado, uma vez que houve o aumento no preço de alguns alimentos. 

“O benefício também será retroativo em relação aos meses em que houve suspensão das cestas básicas. No caso, os responsáveis com crianças matriculadas em escolas e creches nas Regiões Político-Administrativas (RPAs) 1, 4, 5 e 6 vão receber o retroativo referente aos meses de setembro e outubro e aquelas das RPAs 2 e 3 vão receber o retroativo referente ao mês de outubro, visto que receberam as cestas básicas do mês de setembro”, informou a assessoria, por telefone.

Atualmente, a assessoria de imprensa da secretaria informa que todas as RPAs receberão cestas básicas em novembro. Desde março, início da pandemia da Covid-19, a pasta entregou mais de 800 mil cestas e kits de alimentação e limpeza para os alunos da rede municipal. A secretaria estima que mais de 90 mil estudantes foram beneficiados.

A reportagem procurou a candidata, que não respondeu.


“O Recife não dava fardamento para os alunos antes da gestão do PSB”
João Campos (PSB), candidato a prefeito de Recife, no debate realizado pela Rádio Jornal, em 19 de novembro de 2020

FALSO

Ao contrário do que disse o candidato, os alunos da rede municipal de educação recebiam o fardamento (uniforme) antes da gestão de Geraldo Júlio, do PSB. Durante a gestão de João Paulo Lima (PT), a prefeitura lançou o projeto Aluno nos Trinques, que disponibilizava kits com camisa, bermuda, tênis, meia, mochila e outros materiais escolares para os estudantes. O projeto continuou durante a gestão de João da Costa (PT)

Procurado, o candidato não respondeu.


“Não disse que era mirabolante [a promessa de transformar o CSU Bido Krause em Compaz], o que eu frisei foi que era uma reciclagem de proposta”
Marília Arraes (PT), candidata a prefeita de Recife, no debate realizado pela Rádio Jornal, em 19 de novembro de 2020

VERDADEIRO, MAS

Em propaganda de campanha, Marília cita a promessa de Campos de transformar o Centro Social Urbano Bido Krause em um Centro Comunitário da Paz (Compaz), mas não diz que a ideia é “mirabolante”. O que ela diz é que a proposta foi “reciclada”: tinha sido feita anteriormente pelo atual prefeito Geraldo Júlio (PSB), do grupo político de Campos, mas não foi cumprida.

Contudo, ela faz críticas ao projeto, dizendo que não é necessário “maquete de computador, com muito qui, qui, qui, muita propaganda”, e sim a manutenção da estrutura já existente.


“71 mil pessoas que estão fora de suas moradias [em déficit habitacional]”
Marília Arraes (PT), candidata a prefeita de Recife, no debate realizado pela Rádio Jornal, em 19 de novembro de 2020

SUBESTIMADO

Segundo o Plano Local de Habitação de Interesse Social, o déficit habitacional em Recife é de 71.160 unidades habitacionais. Ou seja, isso significa que são 71 mil famílias, e não pessoas, que não tem acesso à moradia adequada na cidade de Recife. Segundo reportagem publicada pela Folha de Pernambuco, isso pode representar até 280 mil pessoas.

São contabilizadas para fins de cálculo de déficit habitacional famílias que se enquadram em um dos seguintes critérios: vivem em domicílios precários, coabitam uma residência com outra família, não tem renda suficiente para pagar aluguel ou vivem em lares com mais de três pessoas por cômodo.

Procurada, a candidata não respondeu.


“Quem colocou Temer como ministro da articulação política de Dilma [Rousseff] foi Dilma”
João Campos (PSB), candidato a prefeito de Recife, no debate realizado pela Rádio Jornal, em 19 de novembro de 2020

FALSO

O ex-presidente Michel Temer nunca foi ministro do governo Dilma Rousseff. Na verdade, ele apenas assumiu, de forma extra-oficial, uma função de articulador político da gestão petista por um período de quatro meses, entre abril e agosto de 2015. Nesta função, ele ficou responsável por discutir com aliados a liberação de emendas e a nomeação de cargos. 

Dilma indicou Temer em abril de 2015, dando mais poder para o PMDB naquela época. Contudo, em agosto daquele ano, ele deixou essa função. Reportagens sobre o caso afirmam que Temer teve problemas com a equipe do Palácio e com a própria presidente.

Além disso, nunca existiu um “ministério da Articulação Política” no ordenamento institucional do governo federal. Geralmente, essa função costuma ser exercida pelo ministro-chefe da Casa Civil, ou pela Secretaria de Governo.

Em nota, a assessoria do candidato destacou que, na época, essa função era de responsabilidade da Secretaria de Relações Institucionais, que tinha status de ministério.


“Você não estava presente, faltou à votação do Marco do Saneamento, você não votou, eu votei contrário”
João Campos (PSB), candidato a prefeito de Recife, no debate realizado pela Rádio Jornal, em 19 de novembro de 2020

VERDADEIRO

Marília não participou da votação do novo marco legal do saneamento básico. O projeto de lei 4162/2019 foi aprovado pelos parlamentares no dia 11 de dezembro e, naquele dia, o site da Câmara dos Deputados mostra que Arraes não participou de sessões marcadas. Segundo o órgão, ela estaria de licença por questões de saúde. Vale pontuar ainda que ela estava justificando sua ausência dessa forma desde o início daquele mês e não participou de outras votações. 

Na Câmara dos Deputados, a proposta do novo marco do saneamento foi aprovado por 276 votos favoráveis e 124 contra. Campos foi um dos parlamentares que votou contra o PL

Editado por: Chico Marés

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