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Rio: Checamos o primeiro debate entre Paes e Crivella no segundo turno de 2020

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
20.nov.2020 | 20h45 |

O atual prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), e o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) participaram nesta quinta-feira (19) do primeiro debate do segundo turno das eleições 2020 no Rio, na Band. Os dois ficaram, respectivamente, na segunda e primeira colocação no primeiro turno, realizado no último domingo (15) — Crivella com 21,90% e Paes com 37,01%. A Lupa checou algumas das declarações dos dois candidatos, confira:

“O Tribunal de Contas do Município em 2018 atestou que a gente deixou recursos em caixa”

Eduardo Paes, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, em debate da Band no dia 19 de novembro de 2020

VERDADEIRO

Segundo o Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro (TCMRJ), no final de 2016, o município do Rio de Janeiro tinha recurso em caixa suficiente para pagar todos os compromissos já assumidos. Segundo relatório do conselheiro Felipe Galvão Puccioni, a cidade tinha R$ 545,36 milhões disponíveis, e precisava pagar R$ 506,46 milhões em verbas empenhadas. Assim, havia R$ 38,9 milhões líquidos disponíveis ao fim do último ano de Paes como prefeito.


“Você [Eduardo Paes] tinha municipalizado dois hospitais”

Marcelo Crivella, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, em debate da Band no dia 19 de novembro de 2020

VERDADEIRO

Os hospitais estaduais Albert Schweitzer, em Realengo, e o Rocha Faria, em Campo Grande, foram municipalizados por Eduardo Paes em janeiro de 2016. Na época, o então governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, afirmou que a municipalização dos hospitais “aliviava” a crise na saúde do estado. “Neste momento de dificuldade das finanças do estado [a municipalização] desonera o estado neste compromisso e faz com que a gente foque os recursos da saúde mais fortemente nas UPAs [unidades de pronto atendimento], no hospital Carlos Chagas e no hospital Getúlio Vargas”. Com a medida, segundo a Secretaria Estadual de Saúde, a previsão de economia seria de cerca de R$ 500 milhões por ano. 


“Ele [Paes] diz que morreu mais gente aqui [de Covid-19] do que São Paulo. Eu não sei se ele é mentiroso se não sabe fazer conta”

Marcelo Crivella, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, em debate da Band no dia 19 de novembro de 2020

FALSO

Ao contrário do que afirma Crivella, proporcionalmente, houve mais mortes por Covid-19 no Rio de Janeiro do que em São Paulo. Segundo dados da própria prefeitura do Rio, 12.844 pessoas morreram da doença durante a pandemia. Já na capital paulista, foram 14.104 mortes. Contudo, quando consideramos a população das duas cidades, a taxa de mortalidade na capital fluminense é 66% maior.

Segundo a última edição da PNAD Contínua Trimestral, do primeiro trimestre de 2020, o Rio tem 6,736 milhões de habitantes. Assim, a taxa de mortalidade da doença foi de 191 para cada 100 mil pessoas. Já São Paulo tem 12,296 milhões, e a proporção de óbitos da Covid-19 foi, portanto, 115 para cada 100 mil.

Procurada, a assessoria de imprensa do candidato disse que ele não iria se posicionar. “Não vamos comentar, uma vez que a própria agência já definiu, por conta própria, o que é fato ou não, antes de nos consultar”, diz a nota. Os números mencionados pela Lupa são fornecidos publicamente pelas prefeituras do Rio de Janeiro e de São Paulo.


“Se dividir 10.800 pessoas que morreram no Rio de Janeiro [de Covid-19]”

Marcelo Crivella, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, em debate da Band no dia 19 de novembro de 2020

SUBESTIMADO

O número citado por Crivella é menor do que o real. O Painel Rio Covid-19, mantido pela prefeitura do Rio de Janeiro, mostra que o município teve 12.844 óbitos pela doença até esta sexta-feira (20) – e não 10.800 como disse o prefeito. Ao todo, a cidade teve 129.631 pessoas infectadas pelo novo coronavírus.

Procurada, a assessoria de imprensa do candidato disse que ele não iria se posicionar. “Não vamos comentar, uma vez que a própria agência já definiu, por conta própria, o que é fato ou não, antes de nos consultar”, diz a nota. Os números mencionados pela Lupa são fornecidos publicamente pelas prefeituras do Rio de Janeiro e de São Paulo.


“(…) E dividir também 21 mil que morreram em São Paulo [de Covid-19]”

Marcelo Crivella, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, em debate da Band no dia 19 de novembro de 2020

EXAGERADO

Crivella também errou ao comentar o número de óbitos em São Paulo. Segundo o boletim divulgado pela prefeitura na última quinta-feira (19), a capital paulista tinha um total de 14.104 mortes por Covid-19. O levantamento aponta ainda que o município tinha um total de 389.709 casos confirmados da doença.

Procurada, a assessoria de imprensa do candidato disse que ele não iria se posicionar. “Não vamos comentar, uma vez que a própria agência já definiu, por conta própria, o que é fato ou não, antes de nos consultar”, diz a nota. Os números mencionados pela Lupa são fornecidos publicamente pelas prefeituras do Rio de Janeiro e de São Paulo.


“Tivemos o dobro do índice de letalidade [entre pacientes de Covid-19] de São Paulo”

Eduardo Paes, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, em debate da Band no dia 19 de novembro de 2020

VERDADEIRO

Segundo o Ministério da Saúde, o índice de letalidade da Covid-19, a relação entre o número de mortes e o número de pessoas que apresentaram a doença ativa, é de 9,9% no Rio de Janeiro. Os dados são referentes aos obtidos até 19 de novembro. São 12.844 óbitos para 129.631 casos confirmados. Em São Paulo, a letalidade é de 4,2%. Na capital paulista, já são 14.101 mortes por Covid-19 para 336.703 casos confirmados. Portanto, a taxa de letalidade da doença no Rio é quase o dobro do que na capital paulista.


 “Eu fiz mais 14 clínicas da Saúde da Família”

Marcelo Crivella, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, em debate da Band no dia 19 de novembro de 2020

VERDADEIRO, MAS

Entre 2017 e 2020, foram criadas 14 Clínicas da Família no município do Rio. Contudo, isso representa somente 12% do total das 128 unidades existentes. O programa foi criado em 2010, na gestão de Paes, que inaugurou as outras 114 clínicas.

Entre janeiro de 2017 e março de 2020, a gestão Crivella inaugurou dez unidades da Clínica da Família. Depois do início da pandemia, outras quatro novas instalações foram abertas em Bangu, Campinho, Marechal Hermes e Cidade de Deus.

Ao longo da gestão Crivella, os profissionais que atuam na Clínica da Família realizaram diversas greves e manifestações. Eles protestaram contra a falta de pagamento dos salário e pela falta de medicamentos para tratar a população (veja exemplos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Em julho de 2020, uma reportagem do G1 mostrou que funcionários e pacientes da Clínicas da Família estavam denunciando um desmonte das unidades do programa. Equipamentos e materiais estariam sendo levados de antigas instalações para as novas que estavam sendo inauguradas pela prefeitura.


“Passei oito anos na Prefeitura, ninguém teve aumento de imposto [IPTU] nenhum” 

Eduardo Paes, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, em debate da Band no dia 19 de novembro de 2020

FALSO

Em 2016, último ano da gestão de Eduardo Paes, a prefeitura do Rio de Janeiro criou o projeto “Atualiza Rio” para revisar as informações do cadastro de imóveis no município. Na prática, isso resultou na atualização do IPTU de alguns imóveis da cidade. Em seu site, a prefeitura explica que a revisão se baseou em “fotografias aéreas e levantamentos de campo nos imóveis onde foi verificada a existência de novas construções, ou alteração de outros dados cadastrais, sem a devida comunicação à Secretaria Municipal de Fazenda”. 

Com isso, alguns imóveis foram vistoriados e houve a alteração do IPTU naqueles que a pasta observou irregularidades. A prefeitura informou ainda que o contribuinte que discordar com essa atualização poderia contestar em um dos postos de atendimento do IPTU. Para facilitar, a prefeitura publicou, em dezembro de 2016, a Resolução Nº 2910, que simplificou a documentação exigida nesse caso. 

Em 2017, o prefeito Marcelo Crivella sancionou uma nova lei que alterava as regras de cobrança do imposto. Na época, a previsão era que essa revisão resultasse em um reajuste, em média, de 70% do IPTU na Grande Tijuca, Santa Teresa e Centro.

Em nota, a assessoria de Paes diz que a medida “não se tratou de forma alguma de aumento no imposto e sim de um conjunto de medidas modernizantes e pontuais”. Segundo a assessoria, a lei “corrigiu distorções” e permitiu que contribuintes pagassem “valores mais justos”.


“Você gastou muito menos em educação infantil do que eu gastei, […] dos seus quatro anos com os meus últimos quatro anos”

Eduardo Paes, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, em debate da Band no dia 19 de novembro de 2020

AINDA É CEDO PARA DIZER

Ainda não é possível calcular a despesa total da gestão de Marcelo Crivella com a educação infantil, uma vez que o ano de 2020 ainda não acabou. Contudo, calculando a média do valor pago em educação infantil do último mandato de Paes com os três primeiros anos do governo Crivella, vimos uma diferença média anual de R$ 6 milhões, uma redução de cerca de 1%.

De 2013 a 2016, a despesa média de Paes com educação infantil foi de R$ 610 milhões por ano, enquanto a média anual da gestão Crivella, levando em consideração os dados de 2017 a 2019, foi de R$ 604 milhões. Os valores foram corrigos pelo IPCA-E. Veja os dados aqui.


“Nós chegamos a cerca de 250 mil crianças [em tempo integral] no meu governo”

Eduardo Paes, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, em debate da Band no dia 19 de novembro de 2020

VERDADEIRO

Os dados do Censo Escolar de 2016, do Inep, mostram que a rede municipal de educação contava com 273.307 crianças em tempo integral no último ano da gestão Eduardo Paes. Destas, 269.835 estavam no ensino regular e 3.472 se encontravam na educação especial.


“A arrecadação caiu R$ 10 [bilhões, entre a gestão anterior e a atual]”  

Marcelo Crivella, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, em debate da Band no dia 19 de novembro de 2020

VERDADEIRO, MAS

Considerando os três primeiros anos da gestão Crivella (2017 a 2019) com os últimos três anos do governo de Eduardo Paes (2014 a 2016), há uma diminuição na arrecadação da Prefeitura do Rio de Janeiro, totalizando R$ 10,1 bilhões a menos, com os valores já corrigidos pelo IPCA-E – números que batem com os citados pelo candidato. 

Apesar de uma redução de R$ 4,2 bilhões entre 2016 e 2017, a arrecadação no Rio de Janeiro vem subindo desde então. Com valores ajustados pela inflação, a receita total foi de R$ 29 bilhões, em 2018, e de R$ 29,4 bilhões, em 2019. Neste ano, segundo a Lei de Diretrizes Orçamentárias, a previsão de arrecadação é de R$ 31 bilhões.

Editado por: Chico Marés

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SUBESTIMADO
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INSUSTENTÁVEL
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FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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