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Foto: Universidade de Oxford
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#Verificamos: Áudio com informações falsas sobre vacinas contra a Covid-19 não foi gravado por especialista da Unicamp

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
01.dez.2020 | 18h56 |

Circula pelas redes sociais um áudio supostamente gravado pela professora Vera Lúcia Gil da Silva Lopes, geneticista da Unicamp. Na gravação, a mulher diz que várias vacinas que estão sendo desenvolvidas contra Covid-19, incluindo a Coronavac e a vacina de Oxford, são “vacinas genéticas”, e que elas podem “modificar o padrão genético das nossas células”. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação:

“To estudando muito essas vacinas e já avisei a Vivi. Vacina da China (…) é vacina genética. Nós estamos acostumados com vacina com um vírus vivo atenuado ou vírus morto, que são as vacinas seguras… essa genética é com DNA recombinante, procurem no Google” 
Áudio que circula pelo WhatsApp e que foi falsamente atribuído à Dra. Vera Lúcia, geneticista da Unicamp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A vacina Coronavac, feita pela farmacêutica chinesa Sinovac, está sendo desenvolvida em uma plataforma de vírus inativado, uma técnica tradicional de imunização — e não é, portanto, uma “vacina genética”. Essa informação pode ser verificada em documento produzido pelo Instituto Butantan, parceiro da Sinovac na fase de testes no Brasil, na listagem de vacinas contra Covid-19 em desenvolvimento elaborada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e na pesquisa publicada na revista The Lancet sobre a primeira fase de testes com humanos desta imunização.

O uso de patógenos inativados (mortos) é uma das técnicas mais antigas na produção de imunizantes, amplamente utilizada contra diversas doenças. Na produção de vacinas desse tipo, o virus é morto com o uso de processos químicos. Ao ser introduzido no organismo, ele consegue despertar, em caso de produtos bem sucedidos, uma reação do sistema imunológico sem atacar as células. Essa é uma das técnicas mais antigas da produção de vacinas, e é usada em imunizantes amplamente utilizados contra HPV, poliomielite, tétano, hepatite A e B, por exemplo.

O texto que acompanha a gravação afirma que o áudio foi feito pela doutora Vera Lúcia Gil da Silva Lopes, professora do Departamento de Genética Médica e Medicina Genômica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Contudo, a universidade publicou uma nota em seu site desmentindo essa informação no final de novembro. “Este áudio traz informações falsas sobre vacinas nunca ditas por esta professora. O mesmo áudio também foi veiculado precedido de mensagem com o nome de outros pesquisadores”, informou a Universidade.


“To estudando muito essas vacinas e já avisei a Vivi. (…) vacina de Oxford (…) são vacinas genéticas. Nós estamos acostumados com vacina com um vírus vivo atenuado ou vírus morto, que são as vacinas seguras… essa genética é com DNA recombinante, procurem no Google”
Áudio que circula pelo WhatsApp e que foi falsamente atribuído à Dra. Vera Lúcia, geneticista da Unicamp

FALSO

A vacina desenvolvida pela a farmacêutica britânica AstraZeneca com a Universidade Oxford, no Reino Unido, também não utiliza a técnica mencionada no áudio que circula pelo Whatsapp. Na verdade, ela é feita a partir de um recombinante viral de outro vírus, o adenovírus. Em sua primeira etapa, o vírus é geneticamente modificado para se tornar não infeccioso, não sendo capaz de contaminar um organismo. Em seguida, os pesquisadores inserem nesse vírus uma parte do coronavírus (também não infeccioso), a chamada proteína spike. 

Na teoria, quando a vacina é aplicada, o sistema imunológico reconhece a proteína spike e desenvolve defesas contra esse vírus. Caso a pessoa seja contaminada pelo SARS-Cov-2 após ser vacinada, em tese, o sistema imunológico será capaz de reconhecer o coronavírus como uma ameaça.


“To estudando muito essas vacinas e já avisei a Vivi. (…) vacina da Pfizer, americana patrocinada pelo Bill Gates,são vacinas genéticas. Nós estamos acostumados com vacina com um vírus vivo atenuado ou vírus morto, que são as vacinas seguras… essa genética é com DNA recombinante, procurem no Google”
Áudio que circula pelo WhatsApp e que foi falsamente atribuído à Dra. Vera Lúcia, geneticista da Unicamp

VERDADEIRO, MAS

Das três vacinas mencionadas no áudio, apenas a desenvolvida pelas farmacêuticas Pfizer e BioNTech utiliza a técnica mencionada no áudio. Esse tecnologia é relativamente nova e tem como base a ideia de estimular o organismo para produzir a proteína do vírus. Nela, o chamado RNA mensageiro, ou mRNA, interage com as células humanas e permite que elas produzam proteínas específicas de um patógeno que passam a ser reconhecidas pelo sistema imunológico. 

Contudo, essa vacina não está sendo financiada por Bill Gates. O fundador da Microsoft financia um imunizante que está sendo desenvolvido pelo laboratório Moderna Therapeutics, também desenvolvida a partir do código genético do vírus.


“Uma outra desconfiança nossa, que é o nosso maior medo, é você modificar o padrão genético das nossas células”
Áudio que circula pelo WhatsApp e que foi falsamente atribuído à Dra. Vera Lúcia, geneticista da Unicamp

FALSO

As vacinas de plataforma RNA não modificam o material genético do organismo. O material genético do vírus não interage com o ácido nucléico presente nas células infectadas e, portanto, não existe risco de que imunizantes desse tipo modifique o DNA das pessoas.

Em setembro, a Lupa conversou com o médico e professor do Departamento de Medicina da PUC Minas Gilmar Reis, que explicou que as vacinas genéticas não modificam o código genético das pessoas. “Manipulação genética seria pegar, por exemplo, o núcleo de uma célula e colocar em outra. [Isso] não ocorre com as vacinas, visto que elas atuam no sistema imunológico para impedir ou retardar a chegada do vírus às células e, portanto, não provocam modificações no código genético das pessoas”, disse. A checagem completa sobre esse assunto você confere clicando aqui.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Chico Marés

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VERDADEIRO, MAS
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EXAGERADO
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CONTRADITÓRIO
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SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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