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#Verificamos: Cloroquina e Ivermectina não previnem Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
01.dez.2020 | 19h24 |

Circulam por grupos de WhatsApp dois vídeos em que uma médica recomenda o uso da cloroquina e da ivermectina como tratamentos preventivos da Covid-19. A autora do vídeo cita os medicamentos como sendo o “do presidente” e o “para piolho”, e afirma que uma das formas de acabar com a circulação do novo coronavírus é por meio da profilaxia. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

 “(…) O que nós temos que fazer agora? Acabar com a circulação viral. Como faço isso, doutora? Eu tomo medicações para evitar a doença. Então você que não teve Covid e você que já teve (…) passam a usar medicações que são preventivas.”
Trecho de vídeo compartilhado em grupos de  WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há nenhum tratamento profilático com eficácia e segurança comprovada cientificamente para a Covid-19. De acordo com instituições internacionais e brasileiras, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NHI, na sigla em inglês) e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, não existem, até o momento, medicamentos que comprovadamente reduzam o risco de infecção.

Como já mostrado pela Lupa, muitos medicamentos vêm sendo testados como opção de tratamento preventivo e pós-exposição da Covid-19. No entanto, nenhum teve benefício confirmado. É o caso da hidroxicloroquina. 

Um estudo recente, conduzido pela Escola de Medicina Perelman, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, testou o efeito profilático da hidroxicloroquina para aqueles que ainda não foram expostos à Covid-19. O ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo analisou 125 profissionais de saúde que atuam na linha de frente de combate ao coronavírus. Os pesquisadores concluíram que a ingestão diária da droga não reduziu o risco de infecção pelo novo coronavírus. A pesquisa foi publicada em 30 de setembro na JAMA Internal Medicine, revista médica da American Medical Association.

Em agosto, um outro estudo clínico, publicado no The New England Journal of Medicine, mostrou que essa medicação, fornecida por quatro dias, não foi capaz de reduzir a taxa de infecção por Covid-19 nos 14 dias subsequentes ao seu uso, quando comparada com placebo.


“(…) Toma-se sistematicamente o [medicamento] ‘do presidente’, para não dizer o nome, porque eles estão cortando os vídeos. Então a medicação que o presidente incentivou, aquela que a gente sabe o nome, a gente toma uma vez por semana.”
Trecho de vídeo compartilhado em grupos de  WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O vídeo refere-se à cloroquina, defendida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) como uma opção de tratamento da Covid-19. Não há comprovação científica de que o medicamento seja eficaz como prevenção ou para terapia precoce da doença. Ao contrário. Estudos indicam que o medicamento pode ser nocivo se utilizado de forma inadequada e sem orientação médica. Em maio, o próprio Conselho Nacional de Saúde (CNS) se manifestou contrário à indicação da droga para tratar a doença.


“(…) A outra opção é usar a medicação usada para piolho e você toma a dose do seu peso três dias seguidos. Aí você conta 15 dias e repete. (…) Se a gente usar as duas medicações, o que vai acontecer? A gente vai prevenir que a doença se manifeste (…).”
Trecho de vídeo compartilhado em grupos de  WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A medicação usada para piolho, citada no vídeo, é a ivermectina. Ainda não existe comprovação científica que sustente a recomendação desse fármaco como prevenção ou tratamento da Covid-19.

A médica epidemiologista e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ana Luiza Curi Hallal, explica que existe uma diferença entre o uso de medicamentos como a cloroquina e a ivermectina pré-exposição, ou seja, quando se toma para evitar contágio; e o uso como tratamento precoce, ou seja, por pessoas que tiveram contato com alguém que testou positivo para a doença e busca uma terapia para evitar que a infecção evolua para um quadro mais grave. 

“Em ambos os casos, estudos mostraram que não existem vantagens em usar cloroquina ou ivermetcina. O conhecimento evoluiu ao longo dos últimos meses e as dúvidas que tínhamos lá em abril e maio não são as mesmas. Na época, os estudos estavam começando e hoje evidenciam que esses medicamentos não previnem a Covid-19 e nem fazem com que a doença evolua menos”, afirma.

Como explicado pela Lupa, a ivermectina passou a ser disseminada como possível tratamento da doença depois que um estudo, publicado na Antiviral Research, indicou que a droga foi capaz de inibir a replicação do SARS-CoV-2 in vitro. Apesar disso, a OMS excluiu a ivermectina do projeto Estudo Solidariedade, uma iniciativa co-patrocinada para encontrar um tratamento efetivo para COVID-19, porque “estudos sobre ivermectina tinham um alto risco de viés, muito pouca certeza de evidências, e as evidências existentes eram insuficientes para se chegar a uma conclusão sobre benefícios e danos.”

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Chico Marés

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