Tem certeza que deseja sair da sua conta?

#Verificamos: É falso que vacina da Covid-19 pode alterar DNA ou injetar microrrobôs para roubar dados biométricos

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
03.dez.2020 | 20h23 |

Circula nas redes sociais um vídeo em que uma suposta médica explica que a vacina da Covid-19, que utiliza a tecnologia RNA em sua fórmula, poderá modificar o DNA de uma pessoa. Ela vai mais além: afirma que metais tóxicos presentes no imunizante poderão emitir radiações, “transformando nosso corpo numa antena, com 5G”, e que nanopartículas presentes na vacina injetarão microrrobôs que roubarão dados biométricos. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação:

“É uma vacina RNA. É o que se denomina como infecção transmissível. Isso mudará fundamentalmente o DNA das pessoas”
Trecho de vídeo compartilhado no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Vacinas sobre plataformas de RNA não alteram o código genético de células humanas. Elas funcionam da seguinte maneira: introduzem uma sequência mRNA que é codificada para um antígeno específico — substância estranha ao organismo que desencadeia a produção de anticorpos. Uma vez produzido dentro do corpo, o antígeno é reconhecido pelo sistema imunológico, preparando-o para combater o vírus. Ou seja, o chamado RNA mensageiro interage com as células humanas e permite que elas produzam proteínas específicas de um patógeno — que passam a ser reconhecidas no corpo. Não há interação entre o mRNA do vírus e o material genético do núcleo das células humanas.

Em outra checagem similar feita pela Lupa, o médico Gilmar Reis, professor do Departamento de Medicina da PUC Minas, reafirmou que a vacina não tem qualquer efeito no DNA da célula. “As vacinas não modificam nem o nosso mRNA, nem o nosso código genético, de forma alguma. O que elas fazem é provocar uma resposta imunológica do organismo frente àquele corpo estranho, sem riscos de alterações genéticas”.

O professor Kelvinson Viana, docente do curso de Biotecnologia da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), explica ainda que as vacinas baseadas em RNA e DNA são seguras e fáceis de desenvolver. Para produzi-las é preciso somente produzir material genético, não o vírus. “Certamente, este será o maior salto tecnológico nesse aspecto que vamos obter neste momento: uma vacina composta de material genético viral, com uma plataforma mais rápida de produção, segura e eficaz”, diz.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), com dados atualizados até 2 de dezembro, dos 13 imunizantes que estão na fase 3 de testes clínicos — última etapa das análises —, duas delas usam o RNA na sua formulação: a das empresas Moderna e Pfizer/BioNTech.


“E o que eu gosto menos nisso, ainda menos do que o habitual, relativamente aos metais tóxicos contidos nas vacinas, que literalmente transformam os nossos corpos numa antena, com 5G”
Trecho de vídeo compartilhado no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há evidências científicas de metais tóxicos em vacinas e tampouco que estes componentes podem emitir radiações.

Uma publicação do Instituto Questão de Ciência (IQC), assinada por Gustavo Cabral de Miranda, doutor em imunologia e pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, e por Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, afirma que, além do princípio ativo, vacinas podem conter adjuvantes, um tipo de material que incentiva a reação do sistema imune e amplifica o efeito do imunizante. O adjuvante mais comum é à base de alumínio, diz. “A segurança desse componente foi estabelecida em inúmeros estudos, e ele vem sendo usado em formulações vacinais por décadas”.

Outro composto que já foi acusado de toxicidade, segundo a publicação, é o conservante timerosal. Por ser um uma molécula que contém o elemento químico mercúrio, é associado ao metal mercúrio, que é tóxico. “Sob a forma de timerosal, o mercúrio não se acumula no corpo humano. Além disso, as quantidades utilizadas são absurdamente pequenas, muito menores do que a quantidade de mercúrio permitida na água que bebemos”. No Brasil, as vacinas BCG (tuberculose), DTP (difteria, tétano e coqueluche), hepatite B e influenza (gripe) contém timerosal.

Uma publicação feita pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), assinada pelo professor Luiz Carlos Dias, do Instituto de Química, também afirma que tanto o princípio ativo, bem como os adjuvantes e os conservantes, estão presentes em quantidades muito pequenas nas vacinas, são seguros e são eliminados do organismo, “como qualquer medicamento, comida e bebidas que ingerimos”. “Não há nenhuma evidência de que o timerosal seja tóxico aos humanos e de que se acumule no corpo nas pequenas quantidades encontradas em vacinas, uma vez que é facilmente excretado pelos rins”, completa.

Sobre a tecnologia 5G, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um comunicado esclarecendo que a rede 5G não propaga a Covid-19. Em seguida, foi a vez da União Internacional de Telecomunicações, agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU), fazer o mesmo.

“A tecnologia 5G é só uma outra forma [em comparação com o 4G, por exemplo] de transmitir os dados. Não tem relação nenhuma com a vacina”, afirma a professora Kalinka Castelo Branco, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em outra checagem similar feita pela Lupa. Rodney Croft, professor da Universidade de Wollongong, afirmou à agência de notícias AFP que não há nenhum efeito adverso à saúde causado pela exposição ao 5G. “Radiação refere-se tanto a ionizantes como radiação não ionizante. Embora a radiação ionizante (como de raios X ou reações nucleares) possa causar sérios efeitos à saúde, como câncer, a radiação não ionizante nos níveis relacionados ao 5G não pode causar nenhum efeito à saúde.”

O 5G, ou quinta geração da internet móvel, é uma nova tecnologia de transmissão de dados sem fio, já disponível comercialmente em 38 países e territórios. Trata-se de uma evolução das redes 4G, atualmente usadas no Brasil. O 5G tem uma banda mais larga, e permite uma velocidade de download consideravelmente mais alta do que a de seu antecessor, além de transmissões mais estáveis.

Checagem similar feita pela agência indiana Boom. Em seu canal no Youtube, o médico norte-americano Zubin Damania também desmentiu o boato.


“Há uma patente e um trabalho feito no MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts] para criar uma tinta (…). E sob uma luz, seria capaz de ver quem foi vacinado, quem não foi”
Trecho de vídeo compartilhado no WhatsApp

VERDADEIRO, MAS

A informação analisada pela Lupa é verdadeira, mas não tem nenhuma relação com alguma vacina da Covid-19. Em 2019, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) informou que pesquisadores vêm desenvolvendo uma maneira de registrar o histórico de vacinação de um paciente por meio do armazenamento de dados em um padrão de corante, invisível a olho nu, aplicada sob a pele por meio de microagulha ao mesmo tempo que a vacina. Os pesquisadores mostraram que o novo corante pode permanecer por pelo menos cinco anos sob a pele, onde emite luz infravermelha próxima que pode ser detectada por um smartphone especialmente equipado.

Para alcançar a proposta, os pesquisadores usam pontos quânticos que podem absorver luz em um comprimento de onda e fazer a conversão para outro comprimento. Para criar pontos quânticos que não fossem tóxicos para seres vivos, os cientistas usaram um núcleo de cobre com uma casca de alumínio e sulfito de zinco. Os pesquisadores publicaram um artigo na revista Science Translational Medicine, em dezembro de 2019.

“Em áreas onde os cartões de vacinação de papel são frequentemente perdidos ou inexistentes e os bancos de dados eletrônicos são desconhecidos, esta tecnologia pode permitir a detecção rápida e anônima do histórico de vacinação do paciente para garantir que todas as crianças sejam vacinadas”, disse Kevin McHugh, professor assistente de bioengenharia na Rice University.

Apesar de essa tecnologia estar sendo desenvolvida atualmente, ela não tem qualquer relação com a Covid-19. Nenhuma das vacinas em teste contém uma “tinta” que possa ser usada como registro de vacinação.


“Porque esta vacina terá nanopartículas, partículas nanocristalinas e eles são como pequenos robôs, pequenas antenas, e eles terão a capacidade de tirar os seus dados biométricos”
Trecho de vídeo compartilhado no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não existem imunizantes com nanorrobôs tanto entre os que estão em estudo clínico para a Covid-19 como entre os que já estão em uso para outras doenças.

O médico Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), já explicou em outra checagem feita pela Lupa que não existem imunizantes com nanorrobôs introduzidos entre os que estão em estudo clínico para a Covid-19 nem entre os que já estão em uso para outras doenças. “Apesar de a tecnologia ter progredido muito com o objetivo de se conseguir tratamento e diagnósticos, não existe essa colocação de um nanorrobô em uma vacina para a população ser observada ou controlada”, afirma.

A professora Santuza Teixeira, do Departamento de Bioquimica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), diz que algumas vacinas podem até utilizar nanopartículas, mas não seriam nada semelhante a nanorrobôs. “O objetivo de uma vacina é estimular a produção de anticorpos ou de células T capazes de neutralizar o vírus, no caso da vacina de Covid-19, o SARS-CoV-2 sem causar nenhuma alteração no genoma da pessoa vacinada”, afirma.

Existe um imunizante que está sendo estudado pelo Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), da Universidade de São Paulo (USP), que utiliza a nanopartícula como tecnologia. Entretanto, estão relacionadas às proteínas e não com nanorrobôs. Neste caso, proteínas do vírus são montadas em nanopartículas, estruturas muito pequenas, que se parecem com o vírus, e que podem levar a uma resposta imune mais forte. “São estruturas muito pequenas e que podem ser de vários tipos, como polímeros, lipídios e proteínas. Essa estrutura mimetiza as características do vírus e pode ser desenvolvida com diferentes propósitos, como, por exemplo, proteger uma proteína ou aumentar o tempo de circulação de uma proteína”, explica a pesquisadora Mariana Favaro, pós-doutoranda do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do ICB, em entrevista ao Jornal da USP.


“O que é ainda mais preocupante é que a Fundação Bill e Melindra Gates, em 26 de março de 2020, solicitou uma patente número 060606, para obter esses dados biométricos [por meio da vacina da Covid-19]”
Trecho de vídeo compartilhado no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. De fato, a Microsoft registrou internacionalmente uma patente sobre um sistema de criptomoedas usando dados de atividade corporal, mas através de objetos como os smartwatches, telefones celulares ou tablets. Não há nenhuma relação entre essa patente e a obtenção dados por meio de nanopartículas em vacinas da Covid-19.

A patente em questão concede pontos de criptomoeda a pessoas por realizarem atividades físicas de uma maneira prescrita. Sensores vinculados a um dispositivo usado pelos usuários detectarão se o usuário está realizando a atividade de acordo com os padrões destinados a receber os benefícios da criptomoeda.

Checagem similar foi feita pelo Polígrafo, de Portugal.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Chico Marés

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

A Lupa está infringindo esse código? Clique aqui e fale com a IFCN

 

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo