Agência Lupa

#Verificamos: É falso que vacina da Covid-19 causa infertilidade em mulheres

Circula pelas redes sociais uma suposta denúncia de que a vacina da Covid-19 pode causar infertilidade em mulheres. A publicação usa a tradução de um conteúdo que teria sido escrito pelo médico e político alemão Wolfgang Wodarg e pelo ex-chefe de pesquisa respiratória da Pfizer, Michael Yeadon. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

URGENTE: A Vacina Covid-19 é esterilização feminina, denunciam especialistas
(…) Suspensão imediata de todos os estudos da vacina SARS CoV 2, em particular estudo BioNtech/Pfizer sobre BNT162b (número EudraCT 2020-002641-42).

A vacina contém uma proteína spike chamada sincitina-1, vital para a formação da placenta humana em mulheres. Se a vacina funcionar de modo a formarmos uma resposta imunológica CONTRA a proteína spike, também estaremos treinando o corpo feminino para atacar a sincitina-1, o que pode levar à infertilidade em mulheres por um período não especificado (…).”

Trecho de texto publicado no Facebook que, até as 19h do dia 4 de dezembro de 2020, tinha sido compartilhado por mais de 100 pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não existem, até o momento, evidências científicas que comprovem que a estrutura da proteína spike, presente no coronavírus e usada como base em alguns tipos de vacina contra a Covid-19, seja igual à sincitina-1, uma proteína produzida pelo corpo humano. Estudos recentes sobre a spike, como o publicado pela revista Nature em agosto, sequer menciona possibilidade de essa substância ocasionar alguma reação cruzada com alguma outra proteína humana.

Existem, atualmente, mais de 200 vacinas em estudo, sendo que 51 estão já na fase de testes clínicos, conforme o boletim mais recente da Organização Mundial da Saúde, de 2 de dezembro. Nesse processo, pesquisadores descobriram que as estruturas das proteínas virais, como a proteína spike, entre outras substâncias, são fundamentais para se chegar a um anticorpo eficaz contra SARS-CoV-2. É o caso da vacina Pfizer-BioNTech BNT162b2, a mesma citada na peça de desinformação. Ela foi aprovada pelo governo britânico para uso emergencial já a partir de dezembro de 2020 no Reino Unido.

Essa vacina contém instruções genéticas (mRNA) para produzir a mesma proteína do SARS-CoV-2. Dessa forma, se uma pessoa for exposta ao vírus, por exemplo, as células do corpo “lêem” as instruções genéticas e produzem a proteína spike. O sistema imunológico, então, tratará essa proteína como estranha e produzirá defesas naturais. Esse processo não afeta a proteína sincitina-1, produzida pelo corpo humano e importante para a adesão placentária.

Segundo o médico e professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Aguinaldo R. Pinto, a spike é uma proteína de superfície e usada pelo vírus para entrar nas células do corpo e causar doenças. “Todas as vacinas testadas procuram produzir anticorpos contra a proteína spike. Isso porque quando as pessoas produzirem anticorpo contra essa proteína, uma vez que entrem em contato com o SARS-Cov-2, ele [o anticorpo] vai se ligar ao vírus e impedir que ele entre na célula. Esse é o mecanismo de proteção mais conhecido. De todas as vacinas, espera-se que façam anticorpos contra a proteína spike. As pessoas saudáveis, que já se curaram da Covid-19, também produzem esse anticorpo”, explicou o especialista, por telefone.

Teste in silico

A peça de desinformação não cita nenhum estudo para embasar cientificamente as afirmações ou que mostre a possível reação cruzada da vacina contra alguma proteína humana, como a sincitina-1. De acordo com outro especialista ouvido pela LupaCarlos R. Zárate-Bladés, pesquisador do Laboratório de Imunoregulação da UFSC, esse tipo de reação pode ser identificada antes mesmo de começarem testes clínicos, por meio de simulação computacional.

“Esse tipo de teste pode ser feito in silico, ou seja, por bioinformática, usando a sequência de DNA, RNA ou de proteína de uma possível vacina. Dessa forma, se descarta rapidamente candidatas que possam sim ter algum tipo de similaridade com estruturas nossas e que, por esse motivo, possam ocasionar reações adversas severas nas pessoas. Por isso, esse tipo de análise é feito como uma das primeiras coisas”, explicou.

Vale dizer que publicação usa a tradução de um texto do site do médico e político alemão Wolfgang Wodarg. Ele já se envolveu em diferentes polêmicas relacionadas à pandemia do novo coronavírus — em abril, ele afirmou, equivocadamente, que o vírus era inofensivo.

 Nota: ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.