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#Verificamos: Vacinas contra a Covid-19 não são ‘derivadas de células fetais’ nem causam ‘modificação genética’

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
14.dez.2020 | 18h07 |

Circula pelas redes sociais um vídeo que alerta para a suposta possibilidade de “vacinas derivadas de células fetais” causarem modificação da composição genética nas pessoas. Segundo a narradora da gravação, o  “DNA do feto entra no corpo do receptor” e isso poderia desencadear um processo conhecido como “recombinação homóloga”. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“(…) Muitas vacinas são derivadas de células fetais (…)”
Trecho de vídeo publicado no Instagram que, até o dia 14 de dezembro, tinha sido visualizado mais de 88,5 mil vezes

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Algumas vacinas, como as que usam vírus inativado ou atenuado em sua formulação, por exemplo, utilizam culturas de células para cultivar os vírus que posteriormente serão “mortos”, ou seja, inativados. Essas culturas de células tanto podem ser de origem animal, vegetal ou desenvolvidas a partir de embriões. Isso não quer dizer que imunizantes que usam essa metodologia sejam derivadas de feto humano e, sim, que essas culturas de células foram usadas como plataforma para “fabricar” os vírus. Esses vírus, uma vez inativados ou atenuados, depois de aplicados no corpo humano por meio de uma vacina, serão reconhecidos pelo sistema imunológico para, então, formar uma resposta imune em caso de contágio.

Como já explicado pela Lupa, uma das culturas de células desenvolvidas a partir de um feto é a HEK-293, criada em 1972 a partir de células renais de um feto abortado na Holanda. Outra, o PER.C6, foi feita em 1985, no mesmo país, a partir de células da retina. As duas foram criadas pelo cientista holandês Alex van der Eb. Até hoje, essas mesmas culturas são replicadas e perpetuadas em laboratório e usadas para fabricação e testes de medicamentos pela indústria farmacêutica.

De acordo com o professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina, Aguinaldo R. Pinto, essa prática é comum. “Os vírus são um parasita intracelular obrigatório, o que quer dizer que eles não ‘existem’ sozinhos, ou seja, precisam crescer dentro de uma célula”, explicou, por telefone.


“(…) para as quais o DNA do feto entra no corpo do receptor e isso pode representar sérios riscos à saúde e desencadear um processo conhecido como recombinação homóloga. Isso resulta na modificação da composição genética do receptor. Ao administrar vacinas derivadas de células fetais, poderiam ser formadas mutações que a pessoa vacinada não reconhece como suas. Novas células capazes de desencadear uma resposta dita “autoimune” com doenças consequentes graves (…)”

Trecho de vídeo publicado no Instagram que, até o dia 14 de dezembro, tinha sido visualizado mais de 88,5 mil vezes

FALSO

 A informação analisada pela Lupa é falsa. De acordo com o pesquisador do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Carlos R. Zárate-Bladés, não existe nenhuma possibilidade de as vacinas carregarem DNA humano ou DNA fetal, como sugere o vídeo, para dentro das pessoas que as recebem.  Como explicado acima, alguns imunizantes, para serem produzidos, usam culturas de células para “fabricar” os vírus que serão usados na fórmula, seja de forma inativada, atenuada ou, ainda, como vetor. Isso não significa que as informações genéticas dessas células estejam presentes na formulação vacinal.

“Nós ingerimos alimentos que têm seu DNA (células vegetais e de animais), e eles não nos ocasionam mutações. Também somos infectados por inúmeros patógenos, muitos deles vivem dentro das nossas células. Isso quer dizer que levam seu material genético dentro das nossas células e, mesmo eles morrendo e liberando esse material, isso não nos ocasiona mutações”, explicou o pesquisador, por WhatsApp.

Além disso, também não é verdade que a presença de um suposto DNA fetal nas vacinas desencadeia uma recombinação homóloga. Esse fenômeno existe no processo de reprodução das células e ocorre entre quaisquer duas sequências de DNA que sejam iguais ou muito semelhantes. “Depende de sequências específicas para certas proteínas fazerem esse processo. Já que o material genético nas vacinas não tem essas sequências, essa recombinação não tem como acontecer”, enfatizou o professor.

Outra pesquisadora ouvida pela Lupa, a microbiologista Natália Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), afirmou que nada da cultura celular está presente na formulação vacinal. Ela é usada apenas como plataforma para desenvolver e multiplicar o vírus. “Depois de multiplicado, ele é purificado e inativado. É o vírus inativado que vai na formulação vacinal, não as culturas de células . Nada da cultura celular, portanto, está presente na formulação vacinal”, disse, por áudio no WhatsApp.


“(…) Segue experiência recente de efeito colateral irreversível para uma vacina aprovada por agências reguladoras de saúde da Europa e dos EUA. Em 2009, as autoridades de saúde recomendaram aos suecos para serem vacinados voluntariamente contra a gripe suina, a H1N1, com a Pandemrix, fabricada pelo laboratório britânico GlaxoSmithKline. Mais de 60% da população atendeu ao chamado, foi recorde mundial em um país onde nenhuma vacina é obrigatória. Mas centenas de pessoas, em sua maioria crianças e adolescentes, desenvolveram a narcolepsia por um efeito colateral da vacina (…)”

Trecho de vídeo publicado no Instagram que, até o dia 14 de dezembro, tinha sido visualizado mais de 88,5 mil vezes

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O estudo citado no vídeo, diferentemente do que diz a narradora, atestou que a vacinação contra a gripe contendo a cepa do vírus H1N1 de 2009 não foi associada à narcolepsia, um distúrbio do sono causado por alterações em algumas substâncias químicas do cérebro. A pesquisa foi publicada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) da agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos.

De acordo com o CDC, uma reavaliação dos dados e estudos sobre a vacina Pandemrix, aplicada em vários países europeus durante a pandemia de gripe H1N1 em 2009, foi feita depois que se observou um risco aumentado de narcolepsia após a vacinação. No entanto, diz a instituição, não foi encontrada “nenhuma indicação de qualquer associação entre a vacina da H1N1 licenciada nos EUA ou a vacina contra influenza sazonal e a narcolepsia”.

Uma primeira reavaliação foi feita em 2014, a partir da análise de informações de mais de 650 mil pessoas que receberam a vacina em 2009 e mais de 870 mil pessoas que receberam a vacina em 2010 e 2011.  O estudo, divulgado pela National Library of Medicine, concluiu que “a vacinação com os antígenos virais da vacina pdm09 contra influenza A (H1N1) não parece ser suficiente por si só para aumentar a incidência de narcolepsia em uma população.”

Em 2018, nova pesquisa atestou a segurança e eficácia da vacina citada no vídeo, concluindo que também não havia nenhuma associação com a incidência de narcolepsia.

Nota: ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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