A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

#Verificamos: Vídeo viral de diretor do Sírio-Libanês mostra informações corretas sobre funcionamento das vacinas em teste no Brasil

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
18.dez.2020 | 19h19 |

Circula pelas redes sociais um vídeo em que o diretor de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês, Luiz Fernando Reis, explica como o novo coronavírus infecta o organismo e causa a doença Covid-19. Na gravação, ele também detalha como funcionam algumas das principais vacinas que estão sendo desenvolvidas contra a Covid-19. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“(…) Em resposta ao vírus, para tentar combater a doença, a gente produz anticorpos e também uma resposta celular. Com a vacina (…), em vez de ser infectada pelo vírus, a gente tem uma vacina que joga para dentro algumas coisas que parecem com o vírus. A CoronaVac, que é a vacina do Butatan, tem exatamente o vírus da Covid-19, o SARS-Cov-2. Só que ele foi inativado, ele foi morto por calor e produtos químicos. Aí eu jogo para dentro do organismo [por meio da vacina] um vírus que está inativado, que não é capaz de causar a doença, e o organismo vai produzir anticorpo e resposta celular.”

Trecho de vídeo publicado no Facebook que, até as 15h do dia 18 de dezembro, tinha sido compartilhado por 3,7 mil pessoas

VERDADEIRO

A informação analisada pela Lupa é verdadeira. A CoronaVac, vacina da empresa chinesa Sinovac que está sendo desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan, em São Paulo, usa um vírus inativado para estimular o sistema imunológico do corpo humano a se defender contra o coronavírus. Essa metodologia é uma das mais tradicionais na produção de imunizantes, e é usada há décadas para produzir vacinas contra doenças como a gripe e a raiva, por exemplo. Por isso, esse tipo de vacina é conhecido como sendo de primeira geração.

No vídeo, Reis explica de forma correta como ela atua no organismo. Para produzi-las, é preciso primeiro cultivar o vírus em células. Isso é realizado em laboratório. Depois que o vírus se multiplica, é preciso “matá-lo”, ou seja, inativá-lo com algum produto químico ou calor. Dessa forma, o vírus não é mais capaz de causar doença.

“Os pedaços dele estão todos ali e o sistema imune, quando vê esses pedaços todos, reconhece o vírus e monta uma resposta imune. Se o vírus de verdade aparecer, a pessoa infectada já viu aquilo antes, já montou uma memória imunológica e reage muito rapidamente”, explicou à Lupa a microbiologista Natália Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP).

Os resultados da fase 1 e 2 de testes da CoronaVac mostraram que a vacina é capaz de induzir uma rápida resposta de anticorpos em quatro semanas da imunização, segundo estudo publicado na revista científica Lancet. Os resultados da fase 3 estão previstos para serem divulgados no dia 22 de dezembro.  


As vacinas da AstraZeneca, feita pela [Universidade de] Oxford e com a Fiocruz; e a vacina da Janssen (…) usam outra estratégia. Eles pegaram um vírus que normalmente infecta a gente, que se chama adenovírus.  Esse adenovírus foi manipulado dentro do laboratório e um pedacinho do material genético do vírus que causa a Covid-19 veio para dentro desse adenovírus. Então a vacina injeta dentro do nosso corpo um vírus que foi manipulado num laboratório, e esse vírus leva um pedacinho do coronavírus. Em resposta à vacina, a gente também produz anticorpo e [resposta das] células”

Trecho de vídeo publicado no Facebook que, até as 15h do dia 18 de dezembro, tinha sido compartilhado por 3,6 mil pessoas

VERDADEIRO

A informação analisada pela Lupa é verdadeira. As duas vacinas citadas por Reis no vídeo, a AstraZeneca e a Janssen, usam outro vírus como vetor para levar as informações do coronavírus para dentro do organismo e, dessa forma, estimular o sistema imune a combater a Covid-19. Essas candidatas optaram por usar o adenovírus, um tipo comum de vírus que causa resfriados e problemas intestinais.

De acordo com pesquisadores da Universidade de Oxford, responsável pelo desenvolvimento da vacina da AstraZeneca, quando a vacina entra nas células do corpo, ela carrega uma sequência genética do SARS-Cov-2, responsável por criar a proteína Spike — usada pelo novo coronavírus para invadir as células. Depois, a própria célula humana irá produzir essa proteína. Esse processo induz uma resposta imune e prepara o sistema imunológico para atacar a doença se o vírus infectar o corpo. Nesse processo, o adenovírus que foi manipulado dentro de um laboratório vai funcionar apenas como um “transportador” das informações do coronavírus. Ele não irá causar nenhuma doença.

De acordo com a publicação científica Nature, uma vantagem das vacinas baseadas em vetores virais é que uma única dose pode ser suficiente para a proteção.

A vacina da AstraZeneca/Oxford está sendo desenvolvida em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Brasil e foi uma das primeiras a ter os resultados da última fase divulgados. De acordo com o estudo, publicado na revista científica The Lancet, tem 70,4% de eficácia. A outra vacina citada no vídeo, da Janssen, segue na fase 3 de testes clínicos. Reis afirma ter sido voluntário nos testes desta última.


“A vacina da Pfizer, que  temos ouvido falar mais, e da Moderna, usa outra estratégia. Esse coronavírus — ele é chamado corona porque tem uma ‘coroa’ — dentro dele tem o seu material genético, um RNA. A vacina Pfizer e da Moderna pegaram esse RNA e puseram esse RNA como se fosse dentro de uma gota de gordura. A gente chama de um lipossomo, dentro de um envelope. E isso é injetado dentro da gente. Aqui, na superfície desse envelope, como se fosse uma bolha de gordura. Lá dentro tem o material genético do vírus, [que] entra na nossa célula, produz anticorpo e produz [resposta das] células”  

Trecho de vídeo publicado no Facebook que, até as 15h do dia 18 de dezembro, tinha sido compartilhado por 3,6 mil pessoas

VERDADEIRO

A informação analisada pela Lupa é verdadeira. Assim como as vacinas de vetor viral, as vacinas de RNA são consideradas de terceira geração. No vídeo, Reis explica corretamente que esse tipo de vacina é programado para introduzir uma sequência de RNA (a molécula que ‘diz’ às células o que construir) que é codificada para um antígeno — partícula ou molécula capaz de deflagrar a produção de um anticorpo — específico da doença. Uma vez produzido no corpo, o antígeno é reconhecido pelo sistema imunológico, preparando-o para a luta contra o vírus real. O RNA é uma molécula que se decompõe rapidamente, por isso cientistas usam lipossomas para “empacotar” o RNA e carregá-la para dentro do organismo.  

É o caso da vacina Pfizer-BioNTech BNT162b2, aprovada pelo governo britânico para uso emergencial desde o dia 8 de dezembro no Reino Unido e desde o dia 14 de dezembro nos Estados Unidos. Essa vacina contém instruções genéticas (mRNA) para produzir a mesma proteína do SARS-CoV-2, conhecida como proteína Spike. Essa proteína é liberada na corrente sanguínea, ativando anticorpos específicos. Após a vacinação, quando uma pessoa é exposta ao vírus real, o corpo reconhece a proteína e já “sabe” como se defender naturalmente.

A vacina da Moderna, empresa de biotecnologia sediada em Massachusetts, nos Estados Unidos, é semelhante à da Pfizer/BioNTech. Também usa uma plataforma de RNA e teve boas respostas imunes contra o SARS-Cov-2 nos primeiros testes. A principal diferença é que pode ser armazenada em freezers normais — as vacinas da Pfizer, precisam ser guardadas a uma temperatura de -70°C. A FDA, agência reguladora norte-americana, planeja conceder autorização de uso emergencial desse imunizante nos Estados Unidos.

Essa vacina não está entre as candidatas que estão sendo analisadas pela Anvisa para aplicação no Brasil.

Vale destacar, ainda, que, ao contrário do que diversas peças de desinformação que circulam nas redes sociais afirmam, as vacinas de RNA não interagem com o núcleo das células humanas, e não são capazes de alterar o DNA das pessoas.

Correção às 17h30 do dia 21 de dezembro de 2020: Ao contrário do que foi informado inicialmente na checagem, a formação do diretor de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês, Luiz Fernando Reis, não é em Medicina, e sim em Bioquímica e Farmácia. Ele tem mestrado em Microbiologia e doutorado em Imunologia.

Nota: ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

 

Editado por: Chico Marés

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

A Lupa está infringindo esse código? Clique aqui e fale com a IFCN

 

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo