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Covid-19: Saiba como funcionam as principais vacinas em teste no Brasil

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
28.dez.2020 | 09h00 |

Desde que os primeiros casos de Covid-19 foram identificados, e o mundo se viu diante de uma pandemia mortal, a comunidade científica internacional se engajou para encontrar uma vacina eficaz e capaz de impedir um número ainda maior de mortes. A corrida contra o tempo surtiu efeito: pesquisadores conseguiram fazer em menos de 12 meses o trabalho que, normalmente, demora anos e até décadas.

Ainda em dezembro de 2020, a Rússia, com a Sputnik 5, e o Reino Unido, com a vacina desenvolvida pela Pfizer em parceria com a BioNtech, começaram a aplicar as primeiras doses. Com a iminência da vacinação no Brasil, a Lupa explica como são desenvolvidas e como atuam os principais tipos de imunizante que em breve estarão disponíveis para a população brasileira.

Atualmente, 214 vacinas contra Covid-19 estão em desenvolvimento, 52 delas já em fase de estudos clínicos, segundo boletim mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 8 de dezembro. Dessas, 13 chegaram à fase 3 de testes e duas já tiveram as primeiras doses aplicadas na Rússia e no Reino Unido: a Sputnik 5 e a Pfizer/BioNTech — essa também aprovada para ser distribuída nos Estados Unidos. No Brasil, quatro vacinas estão sendo testadas e já estão em fase de negociação: a da AstraZeneca com a Universidade de Oxford; a da Pfizer/BioNTech; a da Janssen-Cilag, do grupo Johnson & Johnson; e a CoronaVac, em parceria com o Instituto Butantan.

As vacinas para a Covid-19 utilizam praticamente todos os tipos de tecnologia disponíveis no mercado: vírus inativado ou atenuado, que são consideradas as de primeira geração; as baseadas em proteínas ou açúcares, que são de segunda geração; e, por fim, as genéticas (DNA, RNA e de vetor viral), consideradas de terceira geração. Conheça os principais tipos sendo testados no Brasil:

Vacina de vírus inativado / atenuado

As vacinas de primeira geração usam o vírus atenuado ou inativado para provocar o sistema imunológico do corpo humano a se defender. É o caso da CoronaVac, da empresa chinesa Sinovac e em teste no Brasil pelo Instituto Butantan. Para produzi-las, é preciso primeiro cultivar o vírus em células, que podem ser de origem vegetal ou animal. Depois que o vírus se multiplica, é preciso “matá-lo”, ou seja, inativá-lo com algum produto químico ou calor. A microbiologista Natália Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), explica que, dessa forma, o vírus não é mais capaz de causar doenças.

“Os pedaços dele estão todos ali e o sistema imune, quando vê esses pedaços todos, reconhece o vírus e monta uma resposta imune. Se o vírus de verdade aparecer, a pessoa infectada já viu aquilo antes, já montou uma memória imunológica e reage muito rapidamente”, detalha. Na prática, as vacinas “enganam” o sistema imune para ele pensar que já foi infectado com aquele vírus, quando na verdade não foi.  Exemplos desse tipo são as vacinas contra a gripe e contra a raiva.

Já as vacinas do tipo atenuado usam uma versão enfraquecida do vírus, ou seja, ele passa por várias culturas celulares até que encontre um que ficou tão fraco que não é mais capaz de causar doença. Essa abordagem é comum no calendário vacinal, como, por exemplo, as vacinas tríplice viral, contra rubéola, caxumba e sarampo.

“A vacina da gotinha, contra poliomielite, também é feita a partir de um vírus atenuado. De fato, ele pode se multiplicar dentro das pessoas, então tem um pequeno risco de causar a doença e esse risco é conhecido. Embora a vacina de vírus enfraquecido não seja tão segura quanto a atenuada, pelo fato de se ‘multiplicar’, a resposta imune é muito mais forte e geralmente requer apenas uma dose”, diz o professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina, Aguinaldo R. Pinto.

  •         Quais vacinas usam essa abordagem

CoronaVac, da empresa chinesa Sinovac e em teste no Brasil pelo Instituto Butantan.

  •         Vantagem

A maior parte das vacinas de primeira geração para covid-19 usa vírus inativado. É o caso da CoronaVac. A principal vantagem é que é uma técnica consagrada. “A gente conhece essa tecnologia há muitas décadas, há mais de 50 anos”, avalia o professor Aguinaldo R. Pinto.

  •         Desvantagem

A desvantagem desse tipo de vacina — no caso, a CoronaVac — é o custo. “É preciso cultivar o vírus e trabalhar com ele ‘vivo’. Isso demanda uma estrutura de laboratórios de segurança máxima. Para fazer isso, portanto, é necessário um investimento robusto para que o Instituto Butantan amplie sua planta vacinal e dê conta de escalar a produção”, diz a pesquisadora Natália Pasternak.

Vacinas de vetor viral

As vacinas de  vetor viral usam outro vírus como vetor para carregar as informações genéticas do coronavírus para dentro do organismo e, dessa forma, estimular o sistema imune a combater a Covid-19. Trata-se de uma tecnologia mais recente, e, por isso, elas são consideradas de terceira geração. Duas das quatro vacinas que estão sendo avaliadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) usam essa tecnologia: as vacinas de Oxford e da Janssen

Essas candidatas usam o adenovírus, um tipo comum de vírus que causa resfriados e problemas intestinais. Para produzi-las, pesquisadores empregam um adenovírus não replicante e não infeccioso, ou seja, que não pode causar doenças. “Nesse caso, o adenovírus funciona só como carregador, é um vírus inócuo, ou seja, que não causa doença. Como um vírus ‘bonzinho’ que está lá só para carregar a sequência genética do SARS-Cov-2”, diz Natália Pasternak.

De acordo com a publicação científica Nature, uma das vantagens das vacinas baseadas em vetores virais é que uma única dose pode ser suficiente para a proteção.

Segundo a Universidade de Oxford, responsável pelo desenvolvimento da vacina da AstraZeneca, quando a fórmula entra nas células do corpo, ela carrega parte do RNA do SARS-Cov-2. Ao interagir com esse material genético, a própria célula humana irá produzir proteínas do vírus — no caso, a proteína Spike, que fica na superfície do vírus e é usada para “invadir” as células — e soltá-las no organismo. O sistema imunológico reconhece essa proteína como invasora e prepara defesas contra ela. Caso haja contato do indivíduo com o vírus real, o organismo já saberá como reconhecer e neutralizar a proteína Spike, evitando a infecção.

No Brasil, a vacina da AstraZeneca/Oxford está sendo desenvolvida em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Estudo recente, publicado na revista científica The Lancet em 8 de dezembro, mostrou que essa candidata tem 70,4% de eficácia. Já a vacina da Janssen, da Johnson & Johnson, segue na fase 3 de testes clínicos. 

  •         Quais vacinas usam essa abordagem

As vacinas de Oxford e da Janssen.

  •         Vantagem

A maior vantagem é a praticidade de produzir. É rápida, barata e muito versátil. “É possível ter uma plataforma pronta com o seu adenovírus e facilmente trocar de sequência genética quando quiser trocar de doença”, avalia Natália Pasternak. 

  •         Desvantagem

Especialistas ouvidos pela Lupa afirmam que o ponto chave é o ineditismo, por isso é preciso aguardar os resultados para comprovar a eficácia e segurança.

Vacinas de RNA 

Assim como as de vetor viral, as vacinas que usam plataforma de RNA são consideradas de terceira geração, pois utilizam uma tecnologia mais moderna em imunizações. Embora sejam estudadas há pelo menos 30 anos, não havia nenhum produto sido licenciado ou comercializado utilizando essa tecnologia antes da pandemia. A vacina da Pfizer/Biontech usa essa abordagem e está em negociação no Brasil. 

Esse tipo de vacina é programada para introduzir uma sequência de mRNA (a molécula que ‘diz’ às células o que construir) no organismo. Essa sequência é então codificada para um antígeno específico da doença — uma substância que pode ser reconhecida pelo organismo como o vírus ativo ou parte dele, e pode gerar uma resposta imune do organismo. Uma vez produzido no corpo, o antígeno é reconhecido pelo sistema imunológico, que prepara defesas. Essas mesmas defesas podem ser usadas, posteriormente, contra o vírus real, em caso de contágio.

A vacina Pfizer-BioNTech BNT162b2 foi aprovada pelo governo britânico para uso emergencial desde o dia 8 de dezembro no Reino Unido e desde o dia 14 de dezembro nos Estados Unidos. Ela contém instruções genéticas (mRNA) para produzir a proteína Spike do do SARS-CoV-2, a mesma usada pelas vacinas de vetor viral. Dessa forma, se uma pessoa for exposta ao vírus após a vacinação, o sistema imunológico é capaz de reconhecer a proteína Spike e produzirá defesas naturais.

“Tanto as de adenovírus quanto as vacinas genéticas vão simplesmente carregar uma sequência genética do SARS-Cov-2 para dentro da célula. A própria célula humana, então, é que vai fazer todo o trabalho de produzir uma proteína similar à do vírus e apresentar essa proteína para o sistema imune”, explica Natália Pasternak.

De acordo com a OMS, essa abordagem oferece algumas vantagens sobre os métodos mais tradicionais. Uma delas é o fato de eliminar a necessidade de inserir qualquer agente infeccioso no corpo humano.  

  •         Quais vacinas usam essa abordagem

A vacina da Pfizer/Biontech.

  •         Vantagem

A vacina da Pfizer é a única que tem dados de eficácia publicados, de 95%. Segundo a OMS, esse tipo de imunização elimina a necessidade de inserir qualquer agente infeccioso no organismo.

  •         Desvantagem

A principal desvantagem da Pfizer/Biontech é que precisa ser mantida em um local com temperatura de -70° C para evitar que a substância perca o efeito. Isso pode ser um empecilho em regiões muito remotas.

Editado por: Chico Marés

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