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‘Gripezinha’, cloroquina, fim de pandemia: 10 informações falsas ditas por Bolsonaro sobre a Covid-19 em 2020

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
30.dez.2020 | 09h00 |

Ao longo de 2020, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez diversas declarações sobre a pandemia da Covid-19: apoiou o uso de um medicamento sem comprovação científica, criticou o isolamento social e o uso de máscaras, reprovou as medidas tomadas por governos locais e comparou a doença a uma “gripezinha”. A Lupa checou algumas das declarações de Bolsonaro em entrevistas, eventos, lives e redes sociais; confira:

“Estamos vivendo um finalzinho de pandemia”
Presidente Jair Bolsonaro, durante evento no Rio Grande do Sul em 10 de dezembro de 2020

FALSO

Os números de casos e de óbitos por Covid-19 vêm aumentando no país, apesar de o presidente afirmar que o Brasil está vivendo o “finalzinho” da pandemia.

Na semana em que Bolsonaro fez a afirmação (6 a 12 de dezembro), o país somou 302.950 novos casos de Covid-19. É o maior registro desde a semana de 16 a 22 de agosto, quando houve 265.266 novos casos. As informações são do Ministério da Saúde. De 6 a 12 de dezembro, 4.491 pessoas morreram em decorrência do novo coronavírus, o maior registro desde a semana de 4 a 10 de outubro, quando o país somou 4.211 mortes por Covid-19. 

A média móvel de casos registrados na semana de 6 a 12 de dezembro foi de 43.279, enquanto havia sido de 40.986 na semana anterior (29/11 a 05/12), representando um aumento de 6% no número de casos. A média móvel de óbitos foi de 642 de 6 a 12 de dezembro, aumento de 11% em relação à semana anterior, de 581. Os dados constam no Boletim Epidemiológico Especial da Secretaria de Vigilância em Saúde (página 7). 


“E essa máscara é pouco eficaz [no combate à Covid-19]”
Presidente Jair Bolsonaro, durante encontro com apoiadores no Palácio do Alvorada em 27 de novembro de 2020

FALSO

Diversos estudos publicados em revistas científicas mostram que o uso de máscaras ajudou a diminuir a propagação do vírus da Covid-19.

Pesquisa publicada em junho na revista The Lancet aponta que o uso de máscaras, em geral, reduz em 85% o risco de infecção. No trabalho, pesquisadores canadenses revisaram 172 estudos observacionais sobre medidas protetivas realizados a partir das características do novo coronavírus e de outras doenças respiratórias, como a síndrome respiratória no Oriente Médio (Mers).

A recomendação do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), atualizada em 18 de dezembro, é que todos devem usar máscaras em ambientes públicos ou quando estiverem perto de pessoas que não moram em suas casas, especialmente quando outras medidas de distanciamento social são difíceis de manter.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda o uso de máscaras caseiras para todos. “A utilização de máscaras impede a disseminação de gotículas expelidas do nariz ou da boca do usuário no ambiente, garantindo uma barreira física que vem auxiliando na mudança de comportamento da população e diminuição de casos”, aponta o órgão.

Um estudo publicado em julho no periódico Physics of Fluids demonstrou que as máscaras de algodão bem ajustadas, com duas ou mais camadas de tecido e em forma de cone são as mais eficazes em reduzir o alcance das partículas respiratórias. Já aquelas no estilo bandana oferecem capacidade mínima de barrar a dispersão.

O infectologista Estevão Urbano, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), afirma que o uso das máscaras deve seguir algumas regras e atender a algumas exigências que garantem uma maior proteção. Ele diz que, para o público em geral, elas têm que ser feitas de um tecido, geralmente algodão, de camada dupla. Em segundo lugar, devem ser trocadas a cada três ou quatro horas, porque ficam úmidas e perdem a eficiência. A dica do especialista é levar ao menos outra máscara para trocar, se a pessoa ficar muito tempo fora de casa.

No entanto, a OMS alerta que o uso de máscaras isoladamente não é suficiente para proporcionar um nível adequado de proteção. “Outras medidas nos âmbitos individual e comunitário também devem ser adotadas para conter a transmissão de vírus respiratórios”, diz.


“[A hidroxicloroquina] não tem efeito colateral”
Presidente Jair Bolsonaro, durante encontro com apoiadores no Palácio do Alvorada em 16 de novembro de 2020

FALSO

A cloroquina, assim como a hidroxicloroquina, é uma medicação usada há anos para tratamento da malária e de algumas doenças autoimunes, como artrite e lúpus. Mas pode apresentar alguns efeitos colaterais. A Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (Sobrac) afirma em nota que o medicamento pode ocasionar alterações cardíacas. “A cloroquina tanto pode ter efeito antiarrítmico quanto provocar o surgimento de arritmias graves.”

A bula da hidroxicloroquina recomenda cautela com pacientes com doenças hepáticas ou renais e com problemas cardíacos, gastrointestinais e neurológicos. O medicamento é contraindicado para crianças menores de 6 anos. 


“O pessoal da mídia, a grande mídia, falando que eu chamei de ‘gripezinha’ a questão do Covid. Não existe um vídeo ou um áudio meu falando dessa forma”
Presidente Jair Bolsonaro, durante live semanal nas redes sociais, em 26 de novembro de 2020

FALSO

Em 20 de março, em uma coletiva no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que, depois da facada que levou durante a campanha das eleições de 2018, não seria uma “gripezinha” que iria “derrubá-lo”. “Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar não, tá ok?.” A fala foi feita após jornalistas indagarem o presidente sobre seu estado de saúde.

Em pronunciamento em rede nacional no dia 24 de março, Bolsonaro reforçou novamente que, caso fosse contaminado pelo vírus, “seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”, devido ao seu “histórico de atleta”.


“Se você pegar o número de mortes de janeiro a setembro do ano passado e janeiro a setembro desse ano […], se bobear tá parecido”
Presidente Jair Bolsonaro, durante transmissão de vídeo com apoiadora em 11 de outubro de 2020

FALSO

O Portal da Transparência do Registro Civil, responsável pela divulgação das informações dos cartórios, diz que, entre janeiro e setembro de 2019, foram registradas 956.289 mortes no país. No mesmo período deste ano, foram contabilizadas 1.083.373 mortes, um crescimento de 13,2%, o que representa 127.084 óbitos a mais este ano. As informações foram coletadas em 18 de dezembro.

É importante mencionar que o lançamento das informações no sistema não ocorre instantaneamente. Os dados são atualizados à medida que são lançados no portal, inclusive retroativamente. Com isso, o total de óbitos registrados em uma data específica pode mudar ao longo dos dias, à medida que a plataforma recebe os dados enviados pelos cartórios. Em algumas situações, uma morte pode demorar quase um mês para ser incluída na totalização da plataforma.


“Por decisão judicial, todas as medidas de isolamento e restrições de liberdade foram delegadas a cada um dos 27 governadores das unidades da Federação”
Presidente Jair Bolsonaro, em discurso de abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU em 22 de setembro de 2020

FALSO

O Supremo Tribunal Federal (STF) julgou três ações e entendeu que os governadores e prefeitos têm autonomia para traçar planos de combate ao novo coronavírus em seus respectivos territórios. Com isso, essas autoridades tiveram o poder de estabelecer ações locais como quarentena e fechamento do comércio. Isso não significa, porém, que medidas de isolamento só podem ser realizadas pelos estados, mas que a União não pode impedir medidas tomadas por eles.

Na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6.341, o Supremo decidiu que os governos municipais e estaduais podiam determinar o isolamento social, quarentena e fechamento do comércio. Já na ADI 6.343, os ministros entenderam que os governadores e prefeitos poderiam restringir a locomoção interestadual e intermunicipal, caso considerassem necessário. Por último, na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 672, o ministro Alexandre de Moraes decidiu que as autoridades estaduais e municipais tinham competência para manter medidas adotadas para combater a pandemia. Nenhuma das decisões afastava a possibilidade de o governo federal tomar medidas para a contenção do novo coronavírus, incluindo medidas de isolamento social.

Ministros do Supremo Tribunal também se posicionaram publicamente sobre as ações julgadas. A ministra Cármen Lúcia criticou medidas do poder público e disse que as decisões do Supremo mostram que a responsabilidade é dos três níveis federativos e que o combate ao vírus precisa ser uma colaboração. O ministro Marco Aurélio, por sua vez, disse que as decisões do Supremo não tiravam a responsabilidade do governo federal. “É letra expressa da Constituição Federal: cumpre à União, a Estados, municípios e ao Distrito Federal cuidar da Saúde e legislar sobre a saúde”, declarou.


“Após pedirem desculpas pela Hidroxicloroquina, agora a OMS conclui que pacientes assintomáticos (a grande maioria) não têm potencial de infectar outras pessoas”
Presidente Jair Bolsonaro, em tuíte publicado em 8 de junho de 2020

FALSO
 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) não recuou em seu posicionamento sobre o uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 e tampouco concluiu que pacientes assintomáticos não transmitem a doença.

Em seu site, a OMS informa que não há evidências científicas que comprovem a eficácia do medicamento no tratamento da doença. A entidade não pediu desculpas por causa da hidroxicloroquina, boato que circulou nas redes sociais. Em agosto, a Lupa fez uma checagem similar. Na ocasião, a assessoria de imprensa da OMS classificou a informação como “falsa”.

Em junho, a Lupa também fez uma checagem sobre a afirmação de que a OMS teria concluído que pacientes assintomáticos não têm potencial de infectar outras pessoas. Em nota enviada à reportagem, a organização afirmou que pacientes assintomáticos podem transmitir o vírus da Covid-19, embora a possibilidade de transmissão seja menor.

O boato se baseou numa interpretação equivocada de uma afirmação feita numa coletiva de imprensa da chefe do programa de emergências da OMS, Maria van Kerkhove, em 8 de junho. Na ocasião, ela declarou que transmissões de Covid-19 por pacientes assintomáticos parecem ser “raras”. Contudo, ela não disse que esses pacientes não têm potencial de infectar outras pessoas. A OMS, posteriormente, esclareceu que essas transmissões são menos comuns, mas não são impossíveis.

Após a entrevista, Kerkhove também esclareceu, por meio de sua conta pessoal no Twitter, que se referia apenas a pacientes “verdadeiramente” assintomáticos. Essa definição não inclui pessoas pré-sintomáticas, ou seja, infectadas pelo vírus e que ainda não desenvolveram a doença, e pessoas com sintomas leves, que podem não perceber estar doentes, mas desenvolvem sintomas como tosse ou coriza.

Um estudo sul-coreano publicado em agosto no Journal of the American Medical Association mostra que pacientes assintomáticos com Covid-19 carregam em seus corpos uma carga viral semelhante àquela encontrada nos que apresentam sinais da infecção. Essa informação sugere que o grupo tem um potencial igualmente importante de transmitir a doença, quando comparado com o conjunto de pacientes que desenvolvem sintomas.


“40 dias depois, parece que está começando a ir embora a questão do vírus [da Covid-19]”
Presidente Jair Bolsonaro, em videoconferência com líderes religiosos em 12 de abril de 2020

FALSO

Boletim epidemiológico de 11 de abril de 2020, do Ministério da Saúde, informava que o Brasil vinha apresentando “aceleração” no número de casos confirmados de Covid-19 na semana entre 5 e 10 de abril, imediatamente anterior à data em que o presidente fez essa declaração. A informação que consta no documento da pasta contraria a fala do presidente, de que a pandemia estava começando “a ir embora” do país. Em 12 de abril, data da fala de Bolsonaro, o país registrou 22.318 casos do novo coronavírus e 1.230 mortes.


“Cada vez mais o uso da Cloroquina se apresenta como algo eficaz”
Presidente Jair Bolsonaro, em tuíte publicado em 8 de abril de 2020

FALSO

Não há evidências científicas do uso eficaz da cloroquina ou da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informa que as evidências disponíveis sobre benefícios do uso dos medicamentos são insuficientes. “A maioria das pesquisas até agora sugere que não há benefícios e já foram emitidos alertas sobre efeitos colaterais do medicamento”, reforça. 

Em março deste ano, o médico francês Didier Raoult disponibilizou publicamente um polêmico pré-print (estudo sem revisão de terceiros), em que mostrou dados do tratamento de 20 pessoas com hidroxicloroquina. Apesar de severas falhas metodológicas apontadas por outros cientistas, incluindo a exclusão de pacientes que reagiram mal, o medicamento virou uma bandeira política para os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido).

Em junho, o Recovery Trial, coordenado pela Universidade de Oxford, suspendeu testes com o remédio ao notar que ele não mostrou nenhum benefício no tratamento da doença em relação ao grupo de controle. Ao todo, 1.532 pacientes foram medicados, em testes randomizados (escolha aleatória dos participantes). Em julho, foi a vez do Solidarity Trial, coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), encerrar testes com hidroxicloroquina. Assim como no Recovery Trial, a droga não mostrou benefícios no tratamento.

Um estudo brasileiro publicado em julho no periódico New England Journal of Medicine também comprovou que a hidroxicloroquina é ineficaz no tratamento de casos leves e moderados da Covid-19. Foi um ensaio clínico multicêntrico, randomizado e controlado, realizado com centenas de pacientes. Trata-se de uma série de práticas que permitem eliminar possíveis vieses e incertezas durante o processo, permitindo resultados mais confiáveis.


“No passado – 2009, 2010 –, tivemos uma crise semelhante, outro problema [de saúde] aqui no mundo. (…) E a reação não foi nem sequer perto dessa que está acontecendo hoje em dia aqui no mundo todo”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à CNN Brasil, no dia 15 de março de 2020

FALSO

A pandemia de H1N1, popularmente conhecida como gripe suína, não foi semelhante em nada à pandemia de Covid-19. Embora tenha sido considerada uma pandemia pela OMS no ano de 2009, a H1N1 foi muito menos letal do que inicialmente imaginado.

Entre os meses de março de 2009 e agosto de 2010, período no qual a OMS considerou a H1N1 uma pandemia, foram registradas 18.449 mortes. Entretanto, um estudo liderado pelo Centro para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), publicado no The Lancet, estima que esse número seja 15 vezes maior, entre 151,7 mil e 575,4 mil. “Um número desproporcional de mortes ocorreu no Sudeste Asiático e na África, onde o acesso aos recursos de prevenção e tratamento têm maior probabilidade de ser limitado”, explica. Pesquisadores estimam que a taxa de letalidade foi de apenas 0,02%, ou seja, a proporção entre o número de mortes e o total de infecções.

Sobre a Covid-19, dados da OMS de 22 de dezembro de 2020 mostram que foram confirmados 76,2 milhões de casos, sendo 1,66 milhão de óbitos. A taxa de letalidade ainda não é certa, mas estudos convergem para algo entre 0,5% e 1% ― o que significa que a Covid-19 é pelo menos 25 vezes mais letal do que a gripe suína.

Apesar de os efeitos da pandemia da Covid-19 serem maiores, em 2009, alguns países adotaram medidas emergenciais para diminuir a propagação da H1N1. Viajantes passaram por triagens, casos suspeitos foram isolados, e aulas chegaram a ser suspensas.

O governo da Cidade do México, por exemplo, ordenou a suspensão das atividades em todos os setores não essenciais, para prevenir a contaminação pelo vírus durante cinco dias, no final de abril de 2009. Atividades em ginásios, cinemas e teatros, por exemplo, foram restringidas. Jogos de futebol foram realizados sem público. Houve também o cancelamento de todas as atividades de educação no Distrito Federal e em toda a sua área metropolitana, e no estado do México. Medidas de distanciamento social também foram implementadas no resto do país, em especial a suspensão das atividades escolares. Foi no México onde ocorreu o primeiro registro do vírus, em março de 2009, em um vilarejo no estado de Veracruz.

Algumas escolas no Brasil, conforme reportagens publicadas na época (a exemplo da Folha de S.Paulo e UOL), decidiram adiar a volta às aulas após o período de férias para diminuir a propagação do H1N1.

Editado por: Chico Marés e Marcela Duarte

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