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Aplicativo da Saúde recomenda remédios sem eficácia contra Covid-19 e expõe contradições de Pazuello

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
20.jan.2021 | 17h20 |

O TrateCOV, aplicativo lançado na semana passada pelo Ministério da Saúde para auxiliar profissionais de saúde no diagnóstico de Covid-19, indica o uso de medicamentos que não tiveram sua eficácia comprovada contra a doença, como hidroxicloroquina e ivermectina. A recomendação é feita indiscriminadamente em casos suspeitos de infecção pelo novo coronavírus, sem levar em consideração, por exemplo, a idade ou o histórico de saúde do paciente. No entanto, a promessa do ministério é que a plataforma seja guiada por “rigorosos critérios clínicos” para recomendar formas de tratamento da doença. O próprio formulário do aplicativo afirma que “o TrateCov orienta opções terapêuticas disponíveis na literatura científica atualizada”.

A recomendação dessas drogas pelo aplicativo é mais uma contradição com a fala do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na segunda-feira (18). Pazuello afirmou que nunca receitou hidroxicloroquina ou indicou o “tratamento precoce” para pessoas infectadas pelo vírus. No entanto, a Lupa mostrou que o Ministério da Saúde e o próprio ministro já haviam indicado esses medicamentos como formas de tratamento

O TrateCOV foi feito pelo Ministério da Saúde para ser utilizado por médicos e enfermeiros, mas podia ser acessado por qualquer pessoa. O aplicativo foi tirado do ar na quinta-feira, dia 21 de janeiro, depois que o Conselho Federal de Medicina (CFM) solicitou a retirada imediata. Em nota, o Ministério da Saúde informou que a plataforma não estava funcionando oficialmente, “apenas como um simulador”, e que o “sistema foi invadido e ativado indevidamente”. Através dessa ferramenta, o profissional pode descrever as características do paciente, incluindo idade, peso, altura, comorbidades e atividades nos últimos 14 dias. Depois, o usuário deve marcar os sintomas do paciente. Ao final, o aplicativo fornece um “resultado”. Se a “nota” mostrada for igual ou superior a 6, a ferramenta sugere iniciar o chamado “tratamento precoce para Covid-19”. 

Quando o usuário do aplicativo seleciona a opção que diz que o paciente receberá o “tratamento precoce”, a aplicação retorna com uma lista de medicamentos: cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, sulfato de zinco, azitromicina, doxiciclina e dexametasona. Não existe comprovação científica da eficácia do chamado “tratamento precoce” contra Covid-19, e alguns desses remédios são, inclusive, contraindicados para pacientes com sintomas leves ou moderados da doença.

A ferramenta não permite a impressão de receitas, e está em testes em Manaus, no Amazonas. O município foi escolhido pelo Ministério da Saúde levando em consideração a situação epidemiológica do local, que vem sofrendo com o aumento de casos nas últimas semanas.

Custo

No texto de anúncio do lançamento do aplicativo, o Ministério da Saúde informa que o TrateCOV foi desenvolvido com recursos humanos e tecnológicos próprios da pasta, sem recursos financeiros extras. A Lupa entrou em contato com o órgão questionando os custos do projeto, mas não obteve uma resposta até o momento.

Simulações

A Lupa simulou o histórico de alguns pacientes fictícios para comparar se havia diferença na prescrição, mas constatou variação apenas na posologia, não nos medicamentos. O paciente número um ― uma mulher de 42 anos com asma, que saiu para trabalhar dez dias nas últimas duas semanas, utilizou transporte público e tem sintomas clássicos de Covid-19 como perda de olfato e de pedalar, febre e tosse seca ― recebeu um “escore de gravidade” 37. Os remédios recomendados pela plataforma foram: difostato de cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, doxiciclina ou sulfato de zinco.

O paciente número dois simulado pela Lupa era um bebê de seis meses. Diferente da primeira simulação, o paciente não tinha histórico de doença nem saiu de casa. Marcamos apenas que a criança tinha febre, tosse seca, congestão nasal e falta de ar, sintomas clássicos da Covid-19. Nesse caso, o aplicativo indicou um “escore de gravidade” de 14 pontos e voltou a indicar os mesmos medicamentos mencionados na primeira paciente: difostato de cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, doxiciclina ou sulfato de zinco.

Na terceira simulação, a paciente era uma mulher de 67 anos que apresentou febre, fadiga e tontura por oito dias, o que também poderia ser uma gripe. Sinalizamos que ela não teria saído de casa, não teve contato com infectados e não tinha falta de ar. Mesmo assim, a plataforma indicou que ela tinha um “escore de gravidade” de nove pontos e indicou o tratamento precoce com os mesmos medicamentos apontados nas outras duas simulações.

Na última simulação, o paciente era um homem de 37 anos que teve diarreia e dor de estômago por um dia. Ele não saiu de casa nas últimas duas semanas. Ainda assim, a plataforma atribuiu um “escore de gravidade” de seis pontos e recomendou o início do chamado “tratamento precoce”.

Por essas simulações, é possível concluir que condições listadas no formulário, como o número de vezes que saiu de casa e as pré-condições clínicas, não alteram em nada o resultado do “diagnóstico”. Além disso, sintomas mais particulares recebem 5 pontos, e outros menos específicos, 3. Bastando dois sintomas pouco específicos, como diarreia, dor de cabeça ou náuseas, o sistema já recomenda o “tratamento precoce” imediatamente — mesmo que não haja nenhum indício real da doença.

Outro problema destacado no aplicativo é a possibilidade de inserção de dados negativos de peso e altura. Quando isso acontece, a indicação pode ser de uma quantia negativa de ivermectina.

O aplicativo também solicita dados profissionais para validar o relatório, mas sem qualquer conferência com as bases de dados existentes. É possível fornecer qualquer número no lugar do CRM, e qualquer nome no lugar do médico.

Sem comprovação científica

Como a Lupa já mostrou em diversas ocasiões, a hidroxicloroquina e a ivermectina não são eficazes no tratamento de infecções pelo novo coronavírus. Essas drogas foram amplamente pesquisadas durante a pandemia e diversos estudos descartaram a possibilidade do uso desses medicamentos para tratar pacientes.

A Lupa já mostrou que o uso da cloroquina em pacientes internados com a doença não trouxe benefícios, como a redução na letalidade ou no tempo de internação. Além disso, efeitos colaterais como a arritmia cardíaca vêm sendo observados em muitas pesquisas, levando a Associação Médica Americana a emitir um comunicado pedindo que o uso da cloroquina fosse limitado a estudos clínicos e dentro de hospitais, sob rigoroso controle.

Também não existe comprovação científica que sustente a recomendação de ivermectina, uma medicação usada contra piolhos, como prevenção ou tratamento da Covid-19. A epidemiologista e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ana Luiza Curi Hallal, explica que existe uma diferença entre o uso de medicamentos como a cloroquina e a ivermectina pré-exposição, ou seja, quando se toma para evitar contágio; e o uso como tratamento precoce, ou seja, por pessoas que tiveram contato com alguém que testou positivo para a doença e busca uma terapia para evitar que a infecção evolua para um quadro mais grave. 

“Em ambos os casos, estudos mostraram que não existem vantagens em usar cloroquina ou ivermetcina. O conhecimento evoluiu ao longo dos últimos meses e as dúvidas que tínhamos lá em abril e maio não são as mesmas. Na época, os estudos estavam começando e hoje evidenciam que esses medicamentos não previnem a Covid-19 e nem fazem com que a doença evolua menos”, afirma.

Como explicado pela Lupa, a ivermectina passou a ser disseminada como possível tratamento da doença depois que um estudo, publicado na Antiviral Research, indicou que a droga foi capaz de inibir a replicação do SARS-CoV-2 in vitro. Apesar disso, a OMS excluiu a ivermectina do projeto Estudo Solidariedade, uma iniciativa co-patrocinada para encontrar um tratamento efetivo para COVID-19, porque “estudos sobre ivermectina tinham um alto risco de viés, muito pouca certeza de evidências, e as evidências existentes eram insuficientes para se chegar a uma conclusão sobre benefícios e danos.”

A azitromicina é um antibiótico que pode ser usado contra infecções bacterianas secundárias em casos de Covid-19, mas não atua diretamente contra o vírus causador da doença. O mesmo vale para a doxiciclina. 

Por fim, a dexametasona é um corticoide considerado promissor no combate à Covid-19. Contudo, essa substância não atua contra o vírus, e sim na regulação da resposta imune do organismo. Ela só é indicada para pacientes hospitalizados em estado grave. Antes disso, ela pode, inclusive, atrapalhar o funcionamento das células de defesa e agravar a situação do paciente com sintomas leves da doença.

Atualização às 17h do dia 21 de janeiro de 2021: Reportagem atualizada para incluir que o aplicativo foi tirado do ar e a posição do Ministério da Saúde.

Editado por: Chico Marés

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