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Covid, empregos e extremismo: veja checagens do discurso de posse de Joe Biden

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.jan.2021 | 08h00 |

Por Jon Greenberg e Louis Jacobson, do PolitiFact
Tradução: Equipe Lupa

Foi uma posse como jamais os Estados Unidos tinham visto. Uma cerimônia espremida entre um aparato maciço de segurança e uma pandemia que já matou mais de 400 mil americanos. Em vez de multidões, um mar de bandeiras enchia o National Mall, em Washington D.C. E os guardas armados substituíram os curiosos que costumam lotar a Avenida Pensilvânia para ver o desfile presidencial, que vai do Capitólio à Casa Branca. 

Em vez de 200 mil convidados, apenas mil pessoas – sentadas em pares de cadeiras dobráveis ​​colocadas a pelo menos seis pés de distância umas das outras – assistiram presencialmente ao presidente Joe Biden e à vice-presidente Kamala Harris jurar defender a Constituição dos Estados Unidos. 

Em uma decisão que não tem precedentes em 152 anos de história, o ex-presidente Donald Trump optou por não participar da cerimônia que marcou a transferência pacífica de poder na Casa Branca. 

Em seu primeiro discurso, feito diante do agora ex-vice-presidente Mike Pence e de líderes congressistas republicanos, Biden preferiu, no entanto, pedir um novo começo e o fim “desta guerra não civilizada”.

“A política não precisa ser um incêndio violento destruindo tudo que passa em seu caminho”, disse Biden. “Cada momento de desacordo não precisa ser motivo para uma grande guerra. Devemos rejeitar a cultura na qual os fatos são manipulados e fabricados.”

Empossada minutos antes de Biden, Harris tornou-se a primeira mulher vice-presidente. Também é a primeira negra e primeira asiático-americana a servir como presidente ou vice-presidente.

A posse desta quarta-feira aconteceu duas semanas após a tomada do Capitólio pelos partidários de Trump, e uma semana depois de a Câmara dos Deputados ter aprovado o segundo impeachment de Trump.

Em sua fala, Biden concentrou-se na necessidade de reprimir o coronavírus, erradicar o racismo sistêmico, abordar as mudanças climáticas e enfrentar o terrorismo doméstico. Invocando o tema principal de sua campanha, falou repetidamente sobre a união.

“Sem união não há paz, apenas amargura e fúria”, disse o novo presidente. “Nenhum progresso, apenas indignação exaustiva. Nenhuma nação, apenas um estado de caos. Este é nosso momento histórico de crise e desafio. Unidade é o caminho a ser seguido.”

O tom difere fortemente das linhas mais memoráveis ditas por Trump no discurso inaugural de 2017. Naquela manhã chuvosa de janeiro, o agora ex-presidente falou de “fábricas enferrujadas espalhadas como lápides pela paisagem de nossa nação” e disse que a “carnificina americana” terminaria “aqui e agora”.

Biden, por outro lado, enfatizou: “Há verdades e mentiras, mentiras contadas para gerar poder e lucro.”

O PolitiFact checou algumas das frases ditas pelo presidente durante a posse, e a equipe da Lupa traduziu. A plataforma de checagem americana não usa etiquetas em sua metodologia de classificação, e o formato foi mantido pela Lupa nesta publicação. Leia, a seguir:

“Um vírus que ocorre uma vez em um século, ele silenciosamente espreita o país. Custou tantas vidas em um ano quanto os Estados Unidos perderam em toda a Segunda Guerra Mundial.”

A frase é quase verdadeira. 

Enquanto Biden falava, o sistema da Universidade Johns Hopkins que acompanha os números do novo coronavírus pelo mundo registrava 402.269 mortes nos Estados Unidos. Esse total está pouco abaixo das 405.399 mortes que os EUA tiveram durante a Segunda Guerra Mundial, de acordo com dados do Serviço de Pesquisa do Congresso

Se a média móvel semanal de mortes por coronavírus se mantiver em 3.015, total observado nesta quarta-feira, o total de falecimentos por Covid-19 se igualará aos da Segunda Guerra Mundial nos próximos dias, menos de um ano depois de o vírus chegar aos Estados Unidos.

Com este marco alcançado, apenas a Guerra Civil terá matado mais americanos. Foram entre 618 mil e 750 mil vidas em ambos os lados, segundo estimativas

Atualmente, o Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington projeta 566.720 mortes por Covid-19 até 1º de maio, mesmo com a distribuição da vacina, que já está em andamento.


“Milhões de empregos foram perdidos. Centenas de milhares de empresas fechadas.”

Biden estava correto sobre a perda de empregos durante a pandemia. 

Entre fevereiro e dezembro de 2020, o número de empregos não-agrícolas em todos os Estados Unidos caiu em mais de 9,8 milhões. Quanto às empresas, embora seja inegável que um grande número delas tenha fechado definitivamente, os números específicos são confusos.

 Em setembro, o Relatório de Impacto Econômico LocalYelp indicou quase 100 mil fechamentos acumulativos permanentes, além de outros 66 mil fechamentos temporários. O número real, entretanto, pode ser maior, uma vez que nem todos os negócios são capturados pela metodologia do Yelp. E esses números já existem há vários meses.


“108 anos atrás, em outra posse, milhares de manifestantes tentaram impedir a marcha de mulheres corajosas pelo direito de voto.”

Para enfatizar a histórica posse de Kamala Harris, o presidente descreveu com precisão um confronto que ocorreu em 1913, na véspera da posse de Woodrow Wilson (embora não no dia da posse). De acordo com a Biblioteca do Congresso, as sufragistas mobilizaram 5 mil mulheres que foram maltratadas nas ruas de Washington por multidões indisciplinadas e pela polícia.

“Mulheres foram zombadas, atropeladas, agarradas, empurradas e muitas ouviram piadas indecentes'”, indicam relatórios citados pela Biblioteca do Congresso. “Em vez de proteger o desfile, a polícia ‘parecia gostar de todas as piadas e risadas obscenas e parte delas inclusive participava delas’. Um policial chegou a dizer que elas deveriam ficar em casa, onde pertenciam.”


“Agora, um aumento do extremismo político, da supremacia branca, do terrorismo doméstico que devemos enfrentar e iremos derrotar.”

Biden se referiu à ascensão de grupos extremistas adotando uma postura oposta à do ex-presidente Donald Trump. 

Quando uma marcha de grupos neonazistas e outros supremacistas brancos ocorreu em Charlottesville e se tornou violenta, Trump disse: “havia pessoas que eram muito boas, em ambos os lados”. Trump condenou manifestações violentas, mas, nos debates presidenciais, quando questionado se condenaria supremacistas brancos e grupos como os Proud Boys, Trump disse apenas: “Proud Boys, recuem e aguardem.” 

A fala de Biden, então, remonta às ameaças que o diretor do FBI Christopher Wray descreveu em uma audiência do comitê da Câmara em setembro de 2020.

“Extremistas violentos com motivação racial nos últimos anos foram responsáveis ​​pela atividade mais letal nos Estados Unidos”, disse Wray aos legisladores. “Agora, neste ano, o terrorismo doméstico, os ataques letais que tivemos, eu acho, se encaixam na categoria de anti-governo, anti-autoridade, que cobre tudo, desde extremistas violentos anarquistas até tipos de milícia. Pense em termos de esquerda, direita.”

Wray detalhou e esclareceu que, entre os extremistas com motivação racial, “as pessoas que aderem a algum tipo de ideologia do tipo supremacista branca são certamente a maior parte disso”.

Quando Biden citou os dados de Wray durante a campanha, classificamos como Verdadeiro

Editado por: Natália Leal

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