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Campanha de vacinação contra poliomielite e sarampo.  Arquivo 2014. Crédito: Camila Domingues/ Fotos Públicas
Campanha de vacinação contra poliomielite e sarampo. Arquivo 2014. Crédito: Camila Domingues/ Fotos Públicas

Cobertura vacinal dos brasileiros está caindo há cinco anos; doenças já erradicadas no país voltam a preocupar

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.jan.2021 | 13h42 |

2021 começou com grandes notícias: as primeiras vacinas contra a Covid-19 começaram a ser aplicadas no Brasil, criando uma luz no fim do túnel da pandemia. Essa grande campanha de vacinação pode servir para jogar os holofotes em outro problema de saúde pública. Há cinco anos, a cobertura vacinal está caindo no Brasil. Em 2020, a meta de vacinação atingiu a taxa de apenas 65,5% — em 2015, a cobertura chegou a 95%. Os dados ainda são parciais, mas especialistas acham pouco provável que os dados finais mostrem uma inversão nessa tendência. O resultado é que doenças antes erradicadas no país, como o sarampo, avançaram no Brasil no ano passado.

A queda na adesão da vacinação no país preocupa a comunidade médica. Se em 2016 se comemorava o certificado de país livre do sarampo, entregue pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2020 o Brasil teve 8.419 casos confirmados e em praticamente todos os estados. O Pará foi o mais afetado, segundo o boletim epidemiológico sobre sarampo da Secretaria de Vigilância em Saúde.

Das sete mortes por sarampo registradas em todo país no ano passado, cinco foram no estado da região norte. Um levantamento feito pelo jornal O Globo também mostrou que do total de mortes pela doença, seis eram crianças com menos de um ano e meio de idade e um homem de 34 anos. Nenhum tinha histórico de vacinação contra o vírus.

“Nós já observamos uma queda das coberturas nos últimos anos, em especial a partir de 2016. E esse número ficou mais baixo em 2020, também em razão do medo das pessoas de procurarem as unidades de saúde e até obedecendo às recomendações de distanciamento”, disse um dos especialistas ouvidos pela Lupa, o médico pediatra Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações  (SBIm).

Segundo o médico, isso representa um risco muito grande. “Se nossa rede de saúde já estava comprometida com a Covid, outras doenças vão impactar ainda mais o sistema de saúde pública que já está precário”, avalia.

Procurado pela Lupa, o Ministério da Saúde respondeu apenas que o banco de dados de 2020 será fechado em março de 2021 e, portanto, “os dados ainda são preliminares. Ou seja, ainda não é possível, neste momento, avaliar a adesão à vacinação em 2020”. 

Embora os dados em relação ao último ano ainda não estejam consolidados, especialistas afirmam que a queda é notável. “A gente já vinha em baixa e com o distanciamento em razão da pandemia em 2020 só piorou. Pode ser que melhore um pouco o percentual até o fechamento, que não seja dessa exata magnitude, mas isso não faz diferença porque essa queda é evidente”, avalia o infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Cobertura vacinal em queda desde 2016

Desde 2016 a cobertura vacinal está em queda. Em 2015, a cobertura atingiu 95% da meta em todo o Brasil. De lá para cá, as taxas foram diminuindo. Em 2019, ainda antes da pandemia, sete das nove vacinas indicadas para bebês tiveram os piores índices de cobertura desde 2013. “O principal motivo para essa diminuição, já observada antes da pandemia de Covid-19, é a hesitação da população. Afinal, se você tem a vacina disponível, que é recomendada e gratuita e, mesmo assim, não é aplicada ou é aplicada com atraso, isso se chama hesitação. Nesse sentido, identificamos problemas em três fatores: confiança, complacência e conveniência”, explica Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações  (SBIm).

O problema da falta de confiança está atrelado, segundo o presidente da SBIm, à  politização do assunto, além da desinformação e de teorias conspiratórias — assim como acontece com as vacinas da Covid-19. A consequência é a queda na adesão aos imunizantes. Procurado pela Lupa, o especialista em vacinas e professor de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, José Cássio de Moraes, disse por telefone que há uma pesquisa em curso para entender o comportamento da população brasileira em relação à imunização.

Independente do resultado, a comunicação, por parte do Ministério da Saúde, é considerada crucial. “A comunicação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) eu não diria que é ruim porque é, na verdade, inexistente. Nem profissionais de saúde sabem. Não tem como executar uma estratégia se não tem comunicação. E vale dizer que vacina é um direito conquistado pela população”, opina o médico. 

Surto de sarampo preocupa comunidade médica

De todas as vacinas do Programa Nacional de Imunizações, a que menos teve adesão no último ano foi a tetraviral: apenas 20% da meta. Essa vacina protege contra sarampo, caxumba, rubéola e varicela (catapora) e é indicada para crianças com menos de 12 anos em substituição às vacinas tríplice viral — indicada para crianças de até 15 meses. A tríplice viral, por sua vez, que também protege contra sarampo, rubéola e caxumba, chegou a 78,4% da meta para a primeira dose em 2020. A segunda dose atingiu apenas 61,7%.

No momento, a doença que realmente preocupa é o sarampo, segundo Moraes, uma vez que a queda na cobertura vacinal efetivamente se refletiu num ressurgimento do vírus. Contudo, ele alerta que há outros vírus, mais perigosos, que também podem voltar à tona. Um deles é a poliomielite, atualmente erradicada no Brasil. Embora a variante selvagem do vírus tenha sido erradicada da África no ano passado, ainda há casos da doença no continente, assim como em partes da Ásia. O Brasil atingiu apenas 74,7% da meta de vacinação contra a pólio.

Moraes explica que a baixa adesão às vacinas é cumulativa, principalmente para doenças transmissíveis como o sarampo. Cada pessoa infectada pelo vírus pode gerar 18 novos casos se encontrar uma população suscetível, ou seja, não imunizada. 

Calendário de vacinação é complexo

Quando o Programa Nacional de Imunizações começou, nos anos 70, faziam parte do calendário apenas quatro vacinas: a BCG, a Polioral, a Tríplice bacteriana e a vacina do sarampo. Atualmente, fazem parte do Calendário Nacional 17 vacinas, com imunizantes específicos para crianças, adolescentes, adultos e idosos. 

O calendário vacinal brasileiro é considerado o mais completo do mundo, ao mesmo tempo é muito complexo. “São muitas e isso se torna complexo para nossa rede que é sucateada e tem alta rotatividade”, observa o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações  (SBIm), Juarez Cunha.

Conheça as principais vacinas infantis

Recém-nascidos

  • BCG (protege contra as formas graves de tuberculose)
  • 1ª dose da vacina contra hepatite B

Dois meses

  • 1ª dose da Pentavalente (protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e doenças invasivas causadas por Haemophilus influenzae tipo B)
  • VIP (protege contra a poliomielite, causadora da paralisia infantil)
  • Pneumocócica 10 V (previne doenças causadas por pneumococos, como pneumonia, meningite e otite)
  • Rotavírus (protege da doença diarreica causada pelo rotavírus)

Três meses

  • Meningocócica C (protege contra a meningite e a meningococcemia, doenças causadas pelo meningococo C)

Quatro meses

  • 2ª dose das vacinas Pentavalente, VIP, pneumocócica 10 V e rotavírus 

 Cinco meses

  • 2ª dose de Meningocócica C

Seis meses

  • 3ª dose das vacinas pentavalente e VIP

Nove meses

  • Vacina contra febre amarela

12 meses

  • 1ª dose da tríplice viral (protege contra o sarampo, a caxumba e a rubéola)

15 meses

  • Vacina contra hepatite A
  • 1ª dose Tetraviral (protege contra a varicela, sarampo, caxumba e rubéola)
Editado por: Chico Marés

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