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#Verificamos: Estudo britânico não prova que ivermectina reduz mortes por Covid-19 em 75%

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
22.jan.2021 | 11h08 |

Circula pelas redes sociais que pesquisadores da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, concluíram recentemente que a ivermectina, vermífugo usado contra piolhos, reduz mortes por Covid-19 em até 75%. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Cientistas britânicos afirmam que ivermectina reduz mortes por Covid em até 75%”
Publicação no Facebook que, até as 13h30 do dia 21 de janeiro de 2021, tinha sido compartilhada por 1,3 mil pessoas

EXAGERADO

Uma meta-análise produzida por pesquisadores da Universidade de Liverpool sobre a ivermectina indica que, em um número limitado de estudos, o número de mortes entre voluntários com Covid-19 que tomaram ivermectina foi 75% menor do que no grupo de controle. Contudo, os próprios pesquisadores ressaltam que isso não comprova que a droga é eficaz no tratamento. Os estudos ainda são poucos e, na sua maioria, de baixa qualidade. Os autores sustentam que esses resultados justificam a realização de estudos clínicos de larga escala com o remédio. O estudo não foi revisado por pares e não foi publicado em nenhuma revista científica. Os autores disponibilizaram o conteúdo no site Research Square.

Os pesquisadores britânicos fizeram uma meta-análise, ou seja, um estudo sobre estudos, de 18 trabalhos sobre o tratamento de Covid-19 com ivermectina, envolvendo no total 2.282 pacientes. Em seis deles, com casos de infecção moderada ou grave do vírus, foi identificada uma redução de 75% na mortalidade nos pacientes que foram tratados com ivermectina. Contudo, no próprio estudo, os pesquisadores reconhecem que isso não significa que a droga reduz o número de mortes nessa proporção.

“A diferença na mortalidade de 75% nessa meta-análise é baseada somente em 71 mortes, em seis estudos clínicos. Esse número é menor do que os estudos do Recovery ou do REMAP-CAP que levaram à aprovação da dexametasona, tocilizumabe e sarilumabe”, diz o texto. Apesar disso, os pesquisadores acreditam que esse número justifica a realização de “uma avaliação criteriosa” do remédio e ressaltam que outras drogas não atingiram esse pataramar de recuperação.

Limitações

Os autores do estudo reconhecem que a meta-análise é bastante limitada. Dos 18 estudos analisados, apenas cinco foram efetivamente publicados em revistas científicas. 11 foram considerados de má qualidade e apenas dois foram considerados bons. Além disso, parte dos estudos foi feito sem randomização e duplo-cego, ou seja, há uma alta possibilidade de viés.

Além disso, as pesquisas utilizaram dosagens diferentes e combinações diferentes de ivermectina com outros remédios. Também foram usados objetivos diferentes, o que dificulta a comparação.


“Análise de pesquisadores da Universidade de Liverpool aponta ivermectina como tratamento eficaz e acessível em casos da doença”
Publicação no Facebook que, até as 13h30 do dia 21 de janeiro de 2021, tinha sido compartilhada por 1,3 mil pessoas

FALSO

Na conclusão, os cientistas reconhecem que, embora os resultados sejam positivos, eles não servem como prova de que o remédio funciona. “Apesar das tendências encorajadoras demonstradas nas bases de dados, não temos ainda evidência suficientemente robusta para justificar o uso ou a aprovação regulatória da ivermectina [contra a Covid-19]. Contudo, a falta de evidência de alta qualidade apenas destaca a necessidade clara de estudos clínicos adicionais, com maior qualidade e escala, para investigar o uso da ivermectina com mais profundidade”, diz o texto.

O estudo ainda não foi publicado em nenhuma revista científica e não passou por revisão por pares. Ele está disponível para leitura na Research Square, plataforma de compartilhamento de estudos ainda não revisados.

Pesquisas revisadas não apresentam evidências da eficácia

Uma das pesquisas mais recentes sobre o medicamento, publicada na última terça-feira (19) pela revista científica Lancet, concluiu que, embora a ivermectina consiga inibir a replicação do SARS-CoV-2 in vitro, a concentração da substância não é facilmente alcançada em doses para seres humanos e, portanto, as evidências são limitadas para apoiar o uso clínico em pacientes com Covid-19. 

Esse estudo piloto, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, foi feito para avaliar a eficácia de uma dose única de ivermectina na redução da transmissão do novo coronavírus quando administrada logo após o início da doença. Foi conduzido em pacientes sem gravidade que foram atendidos na Clínica Universidad de Navarra, na Espanha, entre 31 de julho e 11 de setembro de 2020. A conclusão dos pesquisadores é de que não houve diferença na proporção de positivos para PCR (teste que identifica a Covid-19) entre quem tomou ou não a dose de 400mg do antiparasitário. No entanto, foi observada redução da tosse e uma tendência para diminuir as cargas virais. Esse dado, por fim, justifica a avaliação em ensaios maiores.

De acordo com instituições internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NHI, na sigla em inglês), não há, até o momento, medicamentos que comprovadamente reduzem o risco de infecção pela Covid-19.

Como já explicado pela Lupa, a ivermectina passou a ser disseminada como possível tratamento da doença depois que um estudo, publicado na Antiviral Research, indicou que a droga foi capaz de inibir a replicação do SARS-CoV-2 in vitro. Apesar disso, a OMS excluiu a ivermectina do projeto Estudo Solidariedade, uma iniciativa co-patrocinada para encontrar um tratamento efetivo para Covid-19, porque “estudos sobre ivermectina tinham um alto risco de viés, muito pouca certeza de evidências, e as evidências existentes eram insuficientes para se chegar a uma conclusão sobre benefícios e danos”.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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