A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Tem certeza que deseja sair da sua conta?

#Verificamos: Fala atribuída à procuradora sobre ‘orgasmo’ com prisão de Lula é do próprio ex-presidente

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
03.fev.2021 | 18h57 |

Circula nas redes sociais um trecho de uma conversa interceptada entre procuradores sobre a prisão do ex-presidente Lula. Nas mensagens, a procuradora Lívia Tinôco, da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), teria escrito que a prisão de Lula é um “sonho” do Ministério Público e da Globo, que pobres não deveriam ter direitos, e que a foto de Lula preso causaria “orgasmos múltiplos”. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“‘TRF, Moro, Lava Jato e Globo tem um sonho: que Lula não seja candidato em 2018. E o outro sonho de consumo deles é ter uma fotografia dele preso para terem um orgasmo múltiplo, para não ter tesão’, afirmou a procuradora Lívia Tinoco, diretora cultural da ANPR”
Post publicado no Twitter que, até as 18h de 3 de fevereiro de 2021, tinha mais de 1,6 mil compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A frase atribuída à procuradora Lívia Tinoco é, na verdade, uma paráfrase de parte do discurso feito pelo ex-presidente Lula no dia 7 de abril de 2018, quando foi preso pela Polícia Federal no âmbito da operação Lava Jato. Os trechos que aparecem nas peças que circulam em redes sociais são de uma conversa em grupo de mensagens de procuradores federais, incluindo membros da Operação Lava Jato. As mensagens apreendidas pela Operação Spoofing são citadas em um documento enviado ao STF pela defesa do ex-presidente (ver página 4). Tinoco resume aos procuradores falas de Lula em seu discurso em São Bernardo do Campo (SP) e faz comentários.

Em um primeiro momento, a procuradora afirma: “TRF, Moro, Lava Jato e Globo tem um sonho: Que Lula não seja candidato em 2018. Não querem Lula de volta porque pobre não pode ter direito”. Comparando, o ex-presidente Lula, durante discurso, diz: “Pois bem, eu acho que tanto o TRF4, quanto o Moro, a Lava Jato e a Globo, elas têm um sonho de consumo. O sonho de consumo é que, primeiro, o golpe não terminou com a Dilma. (…) Eles não querem o Lula de volta porque pobre na cabeça deles não pode ter direito. Não pode comer carne de primeira. Pobre não pode andar de avião. Pobre não pode fazer universidade”.

A procuradora, em seguida, escreve no grupo: “E que o outro sonho de consumo deles é ter uma fotografia dele preso para terem um orgasmo múltiplo, para ter tesão”. Já em seu discurso, o ex-presidente Lula, ao fazer críticas à revista Veja e à TV Globo, faz uso da expressão ‘orgasmo’ como delírio da imprensa ao vê-lo preso. “Ah, eu fico imaginando o tesão da Veja colocando a capa comigo preso. Eu fico imaginando o tesão da Globo colocando a minha fotografia preso. Eles vão ter orgasmos múltiplos”.

Um outro fator que corrobora é o horário do discurso com o da publicação das mensagens no grupo. Um vídeo da Globo News, que transmitiu o discurso de Lula ao vivo, confirma a hipótese. Eram 12h40 quando Lula começou a falar que o TRF, Globo e Moro não queriam ver a candidatura do ex-presidente nas eleições de 2018. Às 12h41, Lula trata da questão sobre “pobre não pode ter direito”. É o mesmo horário em que a procuradora Lívia Tinôco publica as mensagens no grupo. Além disso, na mesma conversa, outra pessoa, não identificada, diz que ligou a televisão “na hora dos orgasmos múltiplos”.

Segundo nota enviada à imprensa, a procuradora explica que estava parafraseando o discurso do ex-presidente. “As mensagens reproduzidas fora de contexto, e veiculadas por meio de manchetes incorretas e apressadas, sem a devida apuração, induzem leitores ao erro, causam desinformação e não correspondem à verdade dos fatos”, diz.

No único trecho em que a procuradora Lívia Tinôco não parafraseia o discurso de Lula, ela insinua que o ex-presidente poderia estar embriagado. “Tomou uma no churras e ainda não passou”. A reportagem entrou em contato com a assessoria da procuradora sobre a mensagem, mas não recebeu resposta.

Operação Spoofing

A Operação Spoofing investiga a invasão de dispositivos eletrônicos de autoridades, como o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol, em relação à Operação Lava Jato. Em 28 de dezembro de 2020, o ministro do STF Ricardo Lewandowski garantiu à defesa do ex-presidente Lula o compartilhamento das mensagens apuradas pela Operação Spoofing que lhe digam respeito, direta ou indiretamente, e as que tenham relação com investigações e ações penais contra ele movidas na 13ª Vara Federal de Curitiba ou em qualquer outra jurisdição, ainda que estrangeira.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

A Lupa está infringindo esse código? Clique aqui e fale com a IFCN

 

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo