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#Verificamos: É falso que WWF patrocinou queimadas na Amazônia

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
09.fev.2021 | 18h11 |

Circula pelas redes sociais que a organização não-governamental (ONG) World Wildlife Fun (WWF) patrocinou incêndios na Amazônia. O post é acompanhado de um vídeo que mostra cenas de queimadas, de algumas pessoas sendo presas e, também, de trechos de uma coletiva de imprensa da Polícia Civil do Pará. Nessa entrevista, os policiais afirmam ter interceptado ligações telefônicas e comprovado que alguns brigadistas de Alter do Chão (PA) tinham contratos com a WWF. Segundo os policiais, esses brigadistas venderam 40 imagens ao custo de R$ 70 mil cada para a ONG. Com essas fotos, a WWF conseguiu financiamentos e doações, como, por exemplo, de Leonardo DiCaprio, que contribuiu com 500 mil dólares. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“CONFIRMADO: BOLSONARO ESTAVA CERTO!!!

A ong WWF estava sim patrocinando o fogo na Amazônia. Teve quebra do sigilo telefônico e bancário, dos incendiarios da reserva de Alter do Chão. Divulguem bastante esse vídeo, a extrema imprensa não vai divulgar.”

Texto em vídeo publicado no Facebook que, até as 13h30 do dia 8 de fevereiro de 2021, tinha mais de  2,6 mil visualizações

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há, até o momento, nenhuma confirmação oficial de quem foram os culpados pelos incêndios em uma Área de Preservação Permanente (APP) na região de Alter do Chão, no Pará, em 2019. A WWF não é considerada suspeita por ter patrocinado essas queimadas. Dois inquéritos para apurar o crime foram abertos, um por parte da Polícia Civil paraense e outro encabeçado pela Polícia Federal (PF). O inquérito da PF foi concluído em agosto do ano passado e indicou que não havia definição clara de autoria. Já a investigação da Polícia Civil do Pará (PCPA) segue em segredo de justiça, conforme informou, em nota, a corporação. Diferentemente do que afirma o post, em nenhum dos casos a ONG WWF-Brasil foi chamada para prestar informações. Em nota, a organização informou que em nenhum momento a organização ou qualquer um de seus funcionários ou dirigentes foi investigada ou indiciada, “tampouco processada em ação judicial que questione esses acontecimentos”.

A peça de desinformação refere-se à prisão, feita pela PCPA, de quatro pessoas ligadas a brigadas de incêndio em 26 de novembro de 2019 numa operação chamada Fogo do Sairé. Na época, os brigadistas voluntários do Instituto Aquífero Alter do Chão foram acusados de iniciar focos de incêndio e vender fotos dessas queimadas para a WWF-Brasil, com quem supostamente tinham contrato exclusivo. De acordo com a gravação da coletiva de imprensa da PCPA naquela ocasião, os policiais afirmaram que os suspeitos “venderam 40 imagens para a WWF para uso exclusivo por R$ 70 mil, e a WWF conseguiu doações como do ator Leonardo DiCaprio no valor de US$ 500 mil para auxiliar as ONGs no combate às queimadas na Amazônia”.

Essas afirmações foram feitas no dia da prisão, ou seja, em 26 de novembro de 2019, mas vêm sendo compartilhadas como se fossem atuais. Naquele ano, o caso foi usado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para culpar o envolvimento de ONGs ambientalistas nas chamas.

Contudo, um dia depois que a operação da PCPA foi deflagrada, o Ministério Público Federal (MPF) de Santarém (PA) requisitou acesso integral ao inquérito e informou que a Polícia Federal já vinha investigando casos de incêndios criminosos na região. “Na investigação federal, nenhum elemento apontava para a participação de brigadistas ou organizações da sociedade civil”, diz a nota do MPF. “Ao contrário, a linha das investigações federais, que vem sendo seguida desde 2015, aponta para o assédio de grileiros, ocupação desordenada e para a especulação imobiliária como causas da degradação ambiental em Alter.” O delegado da Polícia Civil responsável pela operação foi substituído três dias depois da coletiva e os quatro brigadistas suspeitos foram soltos.

Uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo de 2019 mostrou que o inquérito da Polícia Civil apontava conversas interceptadas entre quatro brigadistas, mas nenhuma delas apresentava indício de que eles seriam responsáveis por incêndios. O inquérito tampouco detalhava, à época das prisões, nenhuma perícia, testemunha ou imagens conclusivas sobre o caso. A Folha de São Paulo também revelou, em 2019, que os grampos telefônicos que embasaram a prisão haviam sido tirados de contexto no inquérito da Polícia Civil. Segundo a reportagem, a investigação foi baseada em depoimentos de militares e ruralistas.

ONG afirma que não recebeu doação de Leonardo DiCaprio

A WWF-Brasil negou ter recebido qualquer doação do ator Leonardo DiCaprio, como afirmaram os policiais na coletiva de imprensa. Em 2019, a receita total da WWF-Brasil foi de R$ 63 milhões. Desse total, 69,4% foram provenientes da Rede WWF, ou seja, organizações que fazem parte da WWF em todo o mundo. A ONG também afirmou não ter comprado nenhuma foto dos brigadistas que foram presos à época: “o fornecimento de fotos por qualquer parceiro da organização é inerente à comprovação das ações realizadas e complementam a prestação de contas”, escreveu a assessoria de comunicação da WWF-Brasil. 

Em relação ao contrato com brigadistas, a organização explicou que, na verdade, manteve um contrato de parceria de caráter técnico financeiro com o Instituto Aquífero Alter do Chão. No período entre 2018 e 2020, repassou R$ 70.654,360 para viabilizar a aquisição de equipamentos para a Brigada, “que foi selecionada porque atuava no apoio ao combate a incêndios florestais, em parceria com o Corpo de Bombeiros desde 2018”.

Esse conteúdo também foi verificado pelo Aos Fatos e pelo Boatos.org.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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