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Rossieli erra ao falar sobre políticas educacionais adotadas por outros países na pandemia

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
10.fev.2021 | 08h00 |

Na última segunda-feira (8), o secretário estadual de Educação de São Paulo, Rossieli Soares, foi o entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura. Durante a conversa, ele falou sobre a volta às aulas no estado e comparou essa retomada com políticas adotadas por outros países, como o Reino Unido. A Lupa selecionou algumas informações ditas pelo secretário. Veja o resultado:

“Se você pegar a palavra do primeiro-ministro inglês, eles reconhecem na Europa, por exemplo, que um dos grandes erros foi não ter aberto as escolas antes”
Rossieli Soares, secretário estadual de Educação de São Paulo, em entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 8 de fevereiro de 2020

FALSO

O primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, jamais afirmou que foi um erro não ter aberto as escolas antes. Não há nenhuma declaração dele nesse sentido. O Reino Unido fechou os estabelecimentos de ensino em março, no início da pandemia, e fez a reabertura no segundo semestre do ano passado. Com o grande aumento de casos provocado por uma segunda onda no país, os locais voltaram a ser fechados em janeiro deste ano. 

Em artigo publicado no jornal Mail on Sunday em 8 de agosto, Johnson afirmou que o fechamento das escolas no início da pandemia foi necessário. “Em março, não tivemos opção a não ser fechar as escolas para todas as crianças, exceto as vulneráveis e os filhos de trabalhadores de serviços essenciais, como parte de nosso esforço mais amplo para proteger o NHS [sistema de saúde britânico] e salvar vidas”, escreveu. No artigo, ele classificou o esforço das famílias e professores em migrar para o ensino remoto como “hercúleo” e disse que isso sempre o deixará orgulhoso.

Ao falar da retomada do ensino presencial, ele diz que o Reino Unido se encontrava em um momento diferente, em que havia sido feito grande progresso na luta contra o coronavírus. Segundo o primeiro-ministro, o número de casos ativos havia caído de 157 mil, no início de maio, para 28 mil no começo de agosto. Ele destacou ainda que cientistas passaram a saber mais sobre o vírus, descobrindo, por exemplo, que a Covid-19 é menos perigosa para crianças do que para os adultos.

Em novembro, a alta de casos forçou um novo lockdown no Reino Unido, mas as escolas continuaram abertas. “Não vamos deixar que o vírus cause nenhum dano adicional ao futuro das nossas crianças”, declarou Johnson, na ocasião. “Eu disse, no verão, que tínhamos um dever moral de reabrir nossas escolas tão logo fosse seguro fazer isso, e elas serão o último elemento (…) da nossa sociedade a fechar novamente.”

O descontrole no número das infecções, no entanto, levou a mais um lockdown em janeiro. Dessa vez, as escolas voltaram a ser fechadas, com previsão de permanecer nessa condição pelo menos até 8 de março. “E porque temos que fazer tudo o que pudermos para evitar a disseminação da doença, escolas primárias, escolas secundárias e universidades por toda a Inglaterra devem mudar para o ensino remoto a partir de amanhã, exceto para crianças vulneráveis e os filhos de trabalhadores essenciais”, disse o primeiro-ministro, em um pronunciamento na TV. 

Procurada, a assessoria de imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo afirmou que Boris Johnson é um dos líderes nacionais mais vocais pela abertura das escolas durante a pandemia da Covid-19. “Ele deixa claro que, com as informações disponíveis à época, esse foi o caminho a ser seguido, entretanto, a posição dele é justamente a de que, com o avanço dos conhecimentos a respeito do assunto, a abertura das escolas virou um ‘dever moral’”, diz a nota. 


“Posso falar da volta às aulas na África por exemplo, que voltou muito antes da gente”
Rossieli Soares, secretário estadual de Educação de São Paulo, em entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 8 de fevereiro de 2020

EXAGERADO

O continente africano tem um total de 54 países e pelo menos dez deles optaram por não voltar completamente com o ensino presencial até o momento. Essa informação consta no painel da Unesco do dia 02 de fevereiro, última atualização disponível para consulta. Em cinco deles, todas escolas estão fechadas. Segundo a ferramenta, autoridades do Sudão, Chade, República Democrática do Congo e Zimbábue decidiram fechar instituições de ensino e optaram por ensino a distância. Na Argélia, as autoridades suspenderam todas as aulas. 

Em outros cinco países, há aulas em algumas regiões, mas as escolas estão fechadas em outras. O painel da Unesco mostra que, atualmente, essa é a situação no Egito, Gana, Uganda, Angola e Moçambique.

É importante pontuar que o efeito da pandemia na África foi consideravelmente menos severo do que no Brasil. Segundo a última edição do relatório epidemiológico da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2 de fevereiro, em 59 países e territórios do continente (incluindo oito países africanos considerados parte da região Mediterrâneo Oriental pela OMS), o número total de casos de Covid-19 foi de 3,6 milhões, com 90,6 mil mortes. O continente tem uma população de 1,3 bilhão de pessoas. O mesmo relatório mostra que foram 9,1 milhões de casos no Brasil, e 222 mil mortes.

Procurada, a assessoria de imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo afirmou que a maioria dos países da África voltou às aulas parcialmente ou completamente, e que apenas quatro ainda estão totalmente fechados. 


“A média mundial de paralisação das aulas foi de 22 semanas no mundo. Nós estamos em 43 no Brasil”
Rossieli Soares, secretário estadual de Educação de São Paulo, em entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 8 de fevereiro de 2020

VERDADEIRO

Em janeiro, a Unesco informou que a média mundial do fechamento de escolas foi de 22 semanas, o que equivale a 5,5 meses. Esse número considera casos em que apenas parte das escolas de um determinado país estão fechadas — quando esses casos são desconsiderados, a média cai para 14 semanas. Em 25 de janeiro, o painel da Unesco mostra que as escolas brasileiras estiveram fechadas por 40 semanas.


“Hoje nós temos 31% dos jovens de 18 a 24 anos desempregados no nosso país”
Rossieli Soares, secretário estadual de Educação de São Paulo, em entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 8 de fevereiro de 2020

VERDADEIRO

A edição mais recente da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral (PnadC/T), do terceiro trimestre de 2020, mostra que a taxa de desocupação foi de 31,4% para os jovens de 18 a 24 anos no país (pág. 36). Os números foram divulgados em novembro do ano passado. Trata-se do maior valor registrado na série histórica, iniciada em 2012. No mesmo período, a taxa média de desemprego no país, considerando todas as faixas etárias, chegou a 14,6% (pág. 34).

Editado por: Chico Marés

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