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#Verificamos: É falso que vacinas de RNA mantidas em baixas temperaturas não têm eficácia

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
17.fev.2021 | 17h11 |

Circula nas redes sociais que as vacinas da Covid-19 que precisam estar armazenadas a uma temperatura de -80ºC não são, de fato, vacinas. Elas seriam, segundo o post, “agentes de transfecção” que alteram o material genético do ser humano. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Qualquer vacina que precise ser enviada e armazenada a -80ºC não é uma vacina. É um agente de transfecção, mantido vivo para infectar suas células e transferir material genético. Não os deixe enganar você. Isso é manipulação genética de humanos em grande escala”
Legenda de post publicado no Facebook que, até as 14h de 17 de fevereiro de 2021, tinha mais de 240 compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. As vacinas que usam a tecnologia RNA, a exemplo dos imunizantes da Pfizer/BioNTech e Moderna, precisam estar armazenadas em uma temperatura baixa devido à sensibilidade da molécula RNA, que pode perder a sua eficácia caso não esteja estabilizada na temperatura correta. Outras vacinas não precisam estar armazenadas a temperaturas similares porque são desenvolvidas com outras tecnologias. Além disso, imunizantes desenvolvidos com essa plataforma não têm a capacidade de “manipular geneticamente” células humanas, como diz o post.

Por e-mail, a professora Santuza Teixeira, do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que as vacinas de RNA possuem moléculas de mRNA (ou RNA mensageiro) sensíveis na sua composição, as quais sofrem degradação com facilidade. “Isso porque o papel dos RNAs nas células exige exatamente isso: o RNA tem que ser produzido, utilizado para guiar a síntese de proteínas e degradado rapidamente para que proteínas diferentes possam ser produzidas em seguida”.

Um dos grandes desafios das vacinas de RNA, diz, é o de encontrar uma formulação que permita que essas moléculas se mantenham estáveis enquanto elas não são internalizadas pelas células do indivíduo vacinado. Por isso, a necessidade de baixas temperaturas no armazenamento.

À AP News, a professora Julie Swann, da North Carolina State University, também explica que a razão pela qual a vacina RNA deve ser armazenada em uma temperatura tão fria é por causa da tecnologia usada. “Eles não podem garantir que ela mantenha sua potência se ficar mais quente por períodos mais longos”, diz.

A vacina da Pfizer/BioNTech precisa ser armazenada em uma temperatura de -75ºC, e por ser guardada por até seis meses nessa temperatura. Já o imunizante da empresa Moderna tem uma certa vantagem em relação à concorrente, podendo ser conservada em uma temperatura entre -25ºC e -15ºC.

O pesquisador Daniel Bargieri, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, explica, por e-mail, que essa diferença depende de que tipo de nanopartícula estaria sendo usada nas formulações de cada imunizante. Essa partícula serve como “veículo” para que o RNA entre nas células. “Ainda que a Pfizer e a Moderna utilizem o mesmo tipo de mRNA, elas usam nanopartículas lipídicas diferentes. A Moderna usa uma tecnologia chamada Lipid H, e a Pfizer usa uma tecnologia chamada Acuitas ALC-0315. Provavelmente as diferenças de temperatura são devido às diferenças na composição das nanopartículas lipídicas usadas”. Outro ponto levantado pelo pesquisador é em relação à diferença de quantidade de mRNA em cada uma delas. “É possível que isso tenha também impacto para a diferença de tempo que essas vacinas resistem em temperaturas mais altas”.

Em geral, as vacinas são sensíveis a variações de temperaturas, mas não exigem temperaturas tão baixas. A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) explica que as vacinas são conservadas entre 2°C e 8°C. É o caso do imunizante da CoronaVac, desenvolvido pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. O motivo é o tipo de tecnologia usado, a de vírus inativado, uma das mais tradicionais entre os imunizantes. Esse tipo de tecnologia é mais resistente ao calor.

Alteração de DNA

As vacinas que usam a tecnologia RNA não alteram o código genético do ser humano, e não interagem com o DNA humano. Elas usam um RNA mensageiro, ou mRNA, que pode ser descrito como uma “instrução” genética que é “lida” pelos ribossomos das células. A partir dessa “mensagem”, eles passam a produzir proteínas particulares do novo coronavírus — as chamadas proteínas spike — que são lançadas no organismo. Elas não têm a capacidade de causar Covid-19 sozinhas, mas servem para “ensinar” o sistema imunológico a se defender contra o vírus real.

Em outra checagem sobre assunto similar feita pela Lupa, o médico Gilmar Reis, professor do Departamento de Medicina da PUC Minas, reafirmou que a vacina não tem qualquer efeito no DNA da célula. “As vacinas não modificam nem o nosso mRNA, nem o nosso código genético, de forma alguma. O que elas fazem é provocar uma resposta imunológica do organismo frente àquele corpo estranho, sem riscos de alterações genéticas”.

De acordo com Gilmar, manipulação genética seria pegar, por exemplo, o núcleo de uma célula e colocá-lo em outra. “[Isso] não ocorre com as vacinas, visto que elas atuam no sistema imunológico para impedir ou retardar a chegada do vírus às células e, portanto, não provocam modificações no código genético das pessoas”.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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