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Foto: Breno Esaki/Agência Saúde DF
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#Verificamos: É falso que 97% dos resultados dos testes PCR para Covid-19 são falsos positivos

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
19.fev.2021 | 13h58 |

Circula nas redes sociais a informação de que testes PCR para Covid-19 geram 97% de falsos positivos como resultado. De acordo com a publicação, de cada 100 pessoas diagnosticadas com o novo coronavírus, somente 3 estariam realmente infectadas. O texto diz ainda que esse tipo de teste não é confiável, porque pode identificar outros vírus, como o da gripe, e validar o resultado como positivo para Covid-19. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação:

“PCR gera falsos positivos de até 97%, ou seja, de 100 pessoas diagnosticadas com Coronavírus, apenas 3 têm Coronavírus”
Trecho de mensagem compartilhada no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há estudos científicos que comprovem que 97% dos resultados de testes PCR são falsos positivos. Além disso, os testes PCR usados neste momento de pandemia são específicos para identificar o vírus da Covid-19, ou seja, não conseguem identificar outros vírus, como o H1N1.

A doutora em microbiologia Karine Lourenço, do CT Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explicou, por telefone, que os testes PCR são “extremamente sensíveis”, e que, mesmo numa carga viral baixa, é possível identificar o vírus. “Eu trabalho com PCR para outros vírus há mais de oito anos, então essa informação não procede”, diz. O virologista e professor da USP Paulo Eduardo Brandão também reafirma que os testes PCR têm elevadíssimas sensibilidade e especificidade. “A PCR criticada é a usada no mundo todo e recomendada pela OMS”.

A mensagem que circula no WhatsApp vem com um link que apresenta um “estudo” que comprovaria a afirmação. Na verdade, trata-se de um texto não publicado em revista científica, escrito por um grupo de 22 cientistas que se diz “independente”. Segundo a publicação, se alguém é testado por PCR como positivo quando um limite de 35 ciclos ou mais é usado, a probabilidade de que essa pessoa esteja realmente infectada é inferior a 3%. A análise é feita a partir de uma ‘revisão’ de um artigo publicado em janeiro de 2020 na revista científica Eurosurveillance sobre testes PCR.

Entretanto, essas informações não necessariamente comprovam que 97% dos testes PCR geram falsos positivos. Além disso, a própria revista científica Eurosurveillance, em resposta, explicou que as alegações detalhadas com respeito a falhas científicas no artigo foram revisadas por um grupo de cinco especialistas de laboratório. “Os especialistas consultados confirmaram que o artigo foi cientificamente adequado para seu propósito e para os dados e materiais limitados disponíveis neste estágio inicial da pandemia”.

Ciclo de testes

O virologista Ben Neuman, da Texas A&M University-Texarkana, explicou à plataforma de checagem Politifact, dos Estados Unidos, que os testes de PCR funcionam duplicando o material genético em ciclos até que os traços do vírus se tornem mais facilmente detectáveis. Se houver uma grande presença de vírus na amostra, menos ciclos serão necessários para detectá-lo, diz. A quantidade de ciclos necessária para determinar se um paciente é positivo varia entre os diferentes tipos de testes.

O teste PCR em tempo real para diagnóstico de Covid-19 tem aproximadamente 45 ciclos, segundo a pesquisadora Karine Lourenço. Se um paciente cujo teste positivo tenha sido dado num ciclo 16, a carga viral contida nele é maior do que um paciente que recebeu positivo num ciclo 35, por exemplo. Ambos terão resultados “positivos”, o que diferencia é a carga viral — a concentração do vírus no organismo, o que não tem relação direta, necessariamente, com a gravidade dos sintomas.

O pesquisador Zilton Vasconcelos, do Laboratório de Alta Complexidade do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), afirma, por exemplo, que o teste molecular deve ser realizado entre o terceiro e sétimo dia de sintomas para aumentar a chance de detecção do RNA viral. “Um teste negativo não descarta a infecção, apenas indica que naquele momento sua carga viral é indetectável”, diz.

A mesma informação é compartilhada pela Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), que diz que o teste PCR avalia a presença de RNA viral na amostra. A entidade explica ainda que um único resultado não detectado com RT-PCR para SARS-CoV-2 não exclui o diagnóstico da Covid-19. Vários fatores como coleta inadequada da amostra, tipo de amostra biológica, tempo decorrido entre a coleta e o início dos sintomas, e oscilação da carga viral podem influenciar o resultado do exame. “Sempre que houver discordância com o quadro clínico epidemiológico, o exame de RT-PCR deve ser repetido em outra amostra do trato respiratório”, diz.


“Os outros 97 podem ter fragmentos ou vírus inteiros que podem ser de Coronavírus por já terem tido, podem ser de gripes, Resfriados, H1N1, H3N2, etc. Para os testes de PCRS todo fragmento de Vírus é detectado como Coronavírus, o PCR foi criado exatamente para isso, não tendo validade nenhuma para servir para detectar o Coronavírus”
Trecho de mensagem compartilhada no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A pesquisadora Karine Lourenço, do CT Vacinas, explica que, “de forma alguma” o teste PCR, exclusivo para Covid-19, é capaz de identificar outros vírus, como o da gripe. Neste caso, é utilizado um alvo específico que tem o mesmo código genético do SARS-CoV-2. “Se o paciente está com influenza, por exemplo, não será detectável. Neste caso, são necessários testes específicos para esses vírus”. O professor da USP Paulo Eduardo Brandão afirma que os PCRs não demonstram vírus infeccioso, mas sim a presença do RNA viral. “Cada RT-PCR tem que ser ajustado para cada organismo-alvo: gripe, coronavírus, bactérias etc”.

A afirmação também é confirmada por José Manuel Bautista, professor de Biologia Molecular e um dos coordenadores do laboratório de detecção do novo coronavírus da Universidad Complutense de Madrid, em entrevista à plataforma de checagem Maldita, da Espanha. “Está demonstrado em muitas publicações. Há outros PCR gerais para detectar outros coronavírus, mas os que são usados agora são altamente específicos”.

Checagem similar foi feita por Aos Fatos. Na Irlanda, o boato também foi desmentido pelo TheJournal.ie.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Chico Marés

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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Os dados são mais graves do que a informação
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A informação está comprovadamente incorreta
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