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Foto: Nailana Thiely/ Ascom Uepa
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Reação do organismo às vacinas não é imediata, o que explica infecções após primeira dose

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.fev.2021 | 08h01 |

 

 

Desde o início da vacinação contra Covid-19 no Brasil, publicações em redes sociais noticiam a morte por essa doença de pessoas que foram vacinadas. Embora, em alguns casos, as informações não sejam falsas, esses posts desinformam ao sugerir que os imunizantes utilizados seriam ineficientes em razão dos óbitos. Vacinas costumam demorar mais de uma semana para começar a fazer efeito. No caso dos produtos usados no Brasil contra o novo coronavírus, a dose é dupla, o que significa que a imunização completa só ocorre a partir da segunda aplicação.

As vacinas funcionam da seguinte maneira: um elemento que simula a doença combatida, chamado de antígeno, é introduzido no organismo. Ao reconhecer essa potencial ameaça ao corpo, o sistema imunológico “aprende” a produzir respostas específicas. Assim, quando o paciente é infectado pela doença real, o sistema imunológico já “sabe” como reagir de forma eficaz. Esse processo, contudo, não é imediato no caso de nenhuma vacina — e, tampouco, é 100% eficaz.

Segundo o infectologista Alexandre Naime, professor da Unesp – Faculdade de Medicina de Botucatu, no caso das vacinas atualmente disponíveis contra Covid-19, o corpo começa a desenvolver a resposta imune cerca de 10 a 14 dias após a aplicação da primeira dose. Ou seja, na primeira semana, o organismo está tão vulnerável à doença quanto antes. A duração desse período varia de acordo com o paciente. 

Além disso, as duas vacinas contra Covid-19 utilizadas no Brasil são de dose dupla. Isso significa que, para atingir a resposta imunológica desejada, são necessárias duas aplicações. Assim como na primeira dose, a eficácia da segunda dose só é verificada dias depois da aplicação. No caso da CoronaVac, a segunda dose deve ser aplicada entre duas e quatro semanas após a primeira. Já as doses da vacina de Oxford/AstraZeneca podem ser aplicadas com até três meses de diferença.

Esse tempo pode ser decisivo para os pacientes, pois eles podem ser contaminados com o novo coronavírus antes de desenvolverem os anticorpos estimulados pela vacina, segundo o professor Valdes Roberto Bollela, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). “Se você tomou a primeira [dose], você já começou a produzir resposta, mas essa resposta não é capaz de ter uma proteção efetiva e aí você tem chance nesse período, entre a primeira e a segunda dose, se tiver contato com alguém doente, de se infectar e de adoecer. A gente tem visto casos assim”, conta. 

Um desses casos aconteceu em João Pessoa (PB). O médico Fernando Ramalho Diniz, diretor do Hospital Santa Isabel, contraiu Covid-19 e morreu dias depois de tomar a primeira dose da vacina. Caso similar ocorreu no Pará:  a vítima foi a médica Ivana Carmen do Nascimento Ivo Liberal. Nas redes sociais, as duas histórias foram usadas  como “prova” de que as vacinas seriam ineficazes contra a Covid-19.

Eficácia

Nenhuma vacina é 100% eficaz contra nenhuma doença. Uma das vacinas aprovadas para uso contra a Covid-19 no Brasil, a CoronaVac teve eficácia verificada de 50,38% contra a doença, no geral — 78% em relação a casos leves, e 100% em relação a casos moderados e graves. Já a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pelo laboratório AstraZeneca, que também foi aprovada no Brasil, tem eficácia geral de 82,4%, e também mostrou ser de 100% em relação a casos graves.

Esse fato não diminui a importância das vacinas. “O motivo das vacinas é evitar Covid grave, evitar hospitalização, desafogar o SUS, evitar que as pessoas morram”, afirma Naime.

Contudo, isso também significa que medidas de distanciamento social, higiene das mãos e uso de máscara também devem continuar a ser seguidas mesmo depois da vacinação. O coordenador dos projetos educacionais do Instituto Questão de Ciência, Luiz Gustavo de Almeida, lembra ainda que, até o momento, estudos não apontaram se uma pessoa vacinada pode transmitir ou não o vírus para outras que não foram imunizadas. Com isso, essas pessoas que não receberam a vacina podem, em tese, desenvolver casos graves de Covid-19 a partir dessa transmissão.

Segurança

Outras publicações em redes sociais acusam as próprias vacinas de causarem os óbitos. Até o momento, contudo, não há nenhum registro de que o imunizante foi a causa da morte de alguma pessoa. Como qualquer medicamento, as vacinas disponíveis no Brasil podem causar eventos adversos, mas estes costumam ser brandos — como dor no local de aplicação, tontura e diarreia. 

Vacinas disponíveis

Até o momento, a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou duas vacinas para o uso emergencial no Brasil: a CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, e a Covishield, vacina da Universidade de Oxford com o laboratório AstraZeneca. Por causa disso, essas são as únicas vacinas que estão sendo aplicadas no país. As bulas da CoronaVac e do imunizante de Oxford estão disponíveis no site da Anvisa para consulta.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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