A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Vacina contra HIV: conheça os mitos e as verdades sobre o imunizante em teste no Brasil

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
22.fev.2021 | 08h00 |

Enquanto o mundo celebra a chegada da vacina contra a Covid-19 em tempo recorde, um outro imunizante, também aguardado, chega à terceira fase de testes: a vacina contra o vírus HIV. Nos últimos 40 anos, desde que os primeiros casos foram relatados nos Estados Unidos em 1981, cerca de 33 milhões de pessoas morreram em decorrência da Aids em todo o mundo. O número evidencia a letalidade do vírus, responsável por uma das epidemias mais mortais do planeta. Só no Brasil, o Boletim Epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde mostrou que, desde a década de 1980, o vírus causou a morte de 349.784 pessoas. 

O HIV ataca diretamente o sistema imunológico, responsável por defender o organismo de doenças, causando uma condição chamada de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, ou Aids. Ele se espalha por meio de fluidos corporais e afeta células específicas do sistema imunológico, conhecidas como células CD4 ou células T. Depois que destrói essas células, o organismo se torna incapaz de lutar contra outros patógenos. 

Nem todas as pessoas que contraem o vírus, contudo, desenvolvem a doença. Apesar de não existir cura, atualmente há tratamentos capazes de reduzir a multiplicação do vírus, evitando que muitas pessoas soropositivas desenvolvam a Aids.

O Brasil é um dos oito países onde será testada uma fórmula para prevenir a infecção pelo HIV. O estudo já está na fase três de testes — é a terceira vez nos últimos 20 anos que uma pesquisa chega a essa etapa — e os pesquisadores estão otimistas.

Como funciona o imunizante 

A vacina contra o HIV em teste no Brasil é feita a partir da combinação de dois imunizantes: Ad26.Mos4.HIV e Bivalent gp140. Ambas são resultado de uma pesquisa chamada Mosaico, realizada ao mesmo tempo nos Estados Unidos, Espanha, Polônia, Peru, México, Brasil, Argentina e Itália. O estudo é coordenado pela Rede de Ensaios de Vacinas contra o HIV (HVTN, na sigla em inglês) e financiado pela farmacêutica Janssen, da Johnson & Johnson. Esses imunizantes, associados, devem estimular uma resposta imunológica ampla o suficiente para reduzir os riscos de infecção pelo HIV.

A vacina Ad26 é produzida a partir de adenovírus 26, um tipo de vírus comum que causa resfriados. Esse adenovírus foi atenuado e contém parte do DNA do vírus inseridas dentro dela. Esse imunizante é projetado para “dizer” ao corpo para produzir proteínas semelhantes às encontradas no HIV. Dessa forma, o sistema imunológico do corpo poderá responder às cópias dessas proteínas do HIV e reconhecer as mesmas proteínas do vírus para combatê-lo no futuro. Essa metodologia é similar a alguns produtos usados contra a Covid-19, como o imunizante da Universidade de Oxford com a farmacêutica AstraZeneca. 

Já a vacina Bivalent gp140, ou vacina proteica, é feita de proteínas sintéticas similares a uma estrutura encontrada na superfície do HIV. Quando elas estão presentes no corpo, o sistema imunológico pode reconhecê-las e “lutar” contra o vírus em caso de exposição ao HIV real. 

No Brasil, existem oito centros de pesquisa da Mosaico nas cidades de Belo Horizonte, Curitiba, Manaus, Rio de Janeiro e São Paulo. Desde que o recrutamento de voluntários começou, em dezembro do ano passado, cerca de 40 pessoas já tomaram a primeira dose. No total, 3,8 mil pessoas participarão do estudo. Dessas, 1,2 mil serão voluntários brasileiros. O recrutamento segue aberto até julho deste ano.

Responsável pelo braço do estudo no Brasil, o pesquisador Jorge Andrade Pinto, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explicou, por telefone, que o HIV é extremamente complexo e por isso a comunidade científica tem se debruçado, há quatro décadas, no desenvolvimento de uma vacina. “Existe uma diversidade de HIVs, são 9 subtipos, além das formas recombinantes, que se misturam entre si. Essa variabilidade são obstáculos ao desenvolvimento do imunizante. Passados 40 anos, o fato de ainda não termos uma fórmula mostra a medida da complexidade do vírus”, afirmou.

A notícia sobre a participação de voluntários brasileiros no estudo gerou comoção nas redes sociais. A Lupa verificou as principais dúvidas e peças de desinformação que circularam pelas redes sociais acerca da pesquisa. Confira:

“Nenhuma vacina para o HIV dps de 40 anos de pesquisa. (…)
Um vírus aparece misteriosamente e dentro de um ano cria-se uma vacina e se espera que todos nós a tomemos. Não, obrigada”
Post no Twitter publicado em 6 de fevereiro de 2021

FALSO

A comparação feita no tuite é inadequada, uma vez que o HIV e o SARS-Cov-2 são organismos completamente diferentes. Há diversos fatores que tornam o desenvolvimento de uma vacina contra o HIV mais difícil do que um imunizante contra a Covid-19, incluindo as características dos dois vírus e a existência de produtos contra vírus similares. 

Um dos motivos é que o HIV, em particular, é um vírus que sofre muitas mutações. “Os antígenos considerados importantes para se produzir resposta imune eficiente ficam muito bem escondidos na partícula viral. Além disso, é um vírus que acomete células do sistema imune – o que não é o caso do SARS-Cov-2”, observa o professor Aguinaldo R. Pinto, o chefe do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Alexandre Cunha dos Santos, presidente do Grupo de Apoio de Prevenção à Aids de Santa Catarina (Gapa), explica que uma das propriedades do HIV é se “disfarçar” de anticorpo, o que torna a criação de defesas contra ele consideravelmente mais difícil. “O que acontece é que o vírus tem um capsídeo ao redor. Esse capsídeo se disfarça como uma célula e o corpo, então, não o reconhece como estranho. É como se usasse uma máscara e ‘fingisse’ ser uma célula do nosso corpo. É por isso que depois que uma pessoa foi infectada, nem o anticorpo consegue identificar o vírus”, disse.

Apesar das dificuldades, desde o começo dos anos 1990 existem pesquisas para uma fórmula capaz de fazer com que o corpo humano combata o vírus. Em 1992, dez anos depois dos primeiros casos identificados na Califórnia, existiam 14 vacinas em vários estágios de experiências clínicas humanas. No entanto, muitas dessas tentativas foram descartadas

Já o SARS-Cov-2, vírus que causa a Covid-19, é um tipo de coronavírus. Nos últimos 20 anos, dois organismos muito similares causaram epidemias localizadas que geraram preocupação na comunidade científica: o SARS-Cov, que causa a SARS, e o MERS-Cov, que causa a MERS. Vacinas contra esses dois vírus já estavam em desenvolvimento desde então, mas não foram concluídas porque essas duas epidemias foram contidas. “Como a doença sumiu, as empresas não tiveram interesse em continuar financiando estudos. Mas se aprendeu muita coisa”, afirmou Aguinaldo, por WhatsApp. 

Por fim, vale pontuar que a imensa maioria das pessoas infectadas pelo SARS-Cov-2 se curam após um determinado período. No caso do HIV, mesmo que a pessoa não desenvolva a Aids, o vírus persiste no organismo do paciente para o resto da vida, com raríssimas exceções.


“Primeira vez que uma vacina para HIV vai para fase três (…)”
Post no Twitter publicado em 5 de fevereiro de 2021

FALSO
 

Pelo menos cinco grandes pesquisas para desenvolver uma vacina foram realizadas desde que o vírus foi identificado, no começo dos anos 1980. Dessas, duas chegaram à fase três de testes, ambas desenvolvidas na Tailândia: a HVTN 501, no final dos anos 1990, e a Alvac/Aidsvax, realizada entre 2005 e 2009. “A eficácia desta última ficou em cerca de 31%. Não foi brilhantemente eficaz, apesar de ser um número aceitável”, avalia o professor Jorge Andrade Pinto, pesquisador responsável pelo estudo na UFMG.

Segundo ele, a vacina que está sendo testada neste momento tem uma estratégia mais avançada em relação às anteriores: “tem mais de uma frente de estímulo imunogênico, ou seja, são duas ao mesmo tempo. São imunizantes de vetor viral, como algumas das que estão sendo utilizadas contra a Covid-19 [a vacina da Janssen e da Astrazeneca]”


“O HIV (…) jamais foi isolado”
Post no Twitter publicado em 7 de fevereiro de 2021

FALSO

O HIV foi isolado pela primeira vez em 1983, dois anos depois que 270 casos de um tipo de deficiência imunológica grave foram relatados nos Estados Unidos. Em 1982, o termo Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) foi usado pela primeira vez e, em maio do ano seguinte, o cientista Luc Montagnier, do Instituto Pasteur, na França, isolou o vírus causador da doença. Em 2008, Montagnier e a pesquisadora Françoise Barré-Sinoussi receberam o Prêmio Nobel de Medicina pela descoberta.

Em 2018, a revista Nature publicou um artigo sobre a história da descoberta do HIV e revelou que, em menos de dois anos, pelo menos três grupos de cientistas isolaram e caracterizaram o HIV-1, mostrando uma associação do vírus com a Aids e sugerindo um nexo causal. 


“Mais de 32 milhões de pessoas morreram em decorrência do HIV. 38 milhões vivem com o vírus. Ainda não tem cura”
Post no Twitter publicado em 3 de fevereiro de 2021 

VERDADEIRO

Os dados mais recentes do Unaids, programa das Nações Unidas para ajudar nações no combate à Aids, indicam que 32,7 milhões de pessoas morreram em todo o mundo em decorrência de doenças relacionadas à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida desde o início da epidemia, no começo dos anos 1980, até o de 2019. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 38 milhões de pessoas vivem com o HIV atualmente — dados de 2019, as informações de 2020 ainda não foram disponibilizadas. A OMS também estimou que cerca de 1,7 milhão de pessoas foram infectadas somente no ano de 2019.

Embora os tratamentos atuais sejam capazes de controlar o HIV, ainda não existe cura definitiva — ou seja, se uma pessoa contrai o vírus, conviverá com ele para sempre . A principal razão para isso, mesmo depois de 40 anos de estudos, reside na biologia do vírus, caracterizado pela capacidade de mutação e de atacar os mecanismos de defesa natural do organismo. “Já se sabe o mecanismo de replicação, já se tem o mapeamento e genoma do vírus. O problema é que ele se ‘disfarça’”, explicou, por telefone, o presidente do Grupo de Apoio de Prevenção à Aids de Santa Catarina (Gapa), Alexandre Cunha dos Santos. 


“A fase de teste da vacina de HIV, deve durar uns anos (…)”
Post no Twitter publicado em 6 de fevereiro de 2021 

VERDADEIRO

A fase 3 de testes da vacina contra o HIV no Brasil terá duração de 30 meses. Segundo informações da Faculdade de Medicina da UFMG, responsável pelo recrutamento de 120 voluntários, o estudo duplo cego terá a participação total de 3.800 pessoas em diferentes partes do mundo. Todas serão avaliadas por uma equipe de médicos e passarão por exames físicos e laboratoriais antes de serem aprovadas para participar do programa. Os participantes serão sorteados e divididos igualmente entre grupo placebo e grupo ativo, e somente um comitê externo saberá quem recebeu placebo e quem recebeu vacina.

No total, os voluntários receberão quatro doses da vacina num intervalo de três meses. Segundo Andrade, responsável pela pesquisa no Brasil, as duas primeiras doses serão apenas com o imunizante de vetor viral. As doses restantes serão uma fórmula contendo as duas vacinas, a de vetor viral e a proteica. O acompanhamento será feito de três em três meses e, depois, a cada 6 meses.


“(…) [A vacina contra o HIV deve ser testada] Só em profissionais do sexo”
Post no Twitter publicado em 6 de fevereiro de 2021 

FALSO

O critério para ser voluntário dos testes no Brasil não tem a ver com profissão, ou seja, profissionais do sexo podem ou não se voluntariar. A principal exigência é que os participantes sejam pessoas do sexo masculino — incluindo mulheres trans — que mantenham relação com pessoas do mesmo sexo. Outros critérios são que esses voluntários tenham entre 18 e 60 anos de idade, não estejam infectados pelo HIV e também que não usem a profilaxia pré-exposição, a PrEP — esse tratamento consiste em tomar diariamente um medicamento que impede que o vírus se espalhe pelo corpo, caso infectado.


“[A vacina contra o HIV] É algo revolucionário e eu concordo, mas exigir que os participantes sejam apenas Gays ou trans me fez lembrar do preconceito que as pessoas têm, da história de que HIV/AIDS foi um castigo de Deus para os gays”
Post no Twitter publicado em 3 de fevereiro de 2021 

VERDADEIRO, MAS

No Brasil, os testes estão sendo realizados somente com pessoas do sexo masculino — incluindo mulheres trans — que mantém relações sexuais com outras pessoas do mesmo sexo. Contudo, isso ocorre porque, especificamente no Brasil, este grupo é o que está mais exposto à contaminação pelo vírus. “A transmissão, aqui, é majoritariamente entre esse grupo. É uma questão pragmática, precisa verificar a eficácia, e não tem a ver com preconceito”, explica o coordenador da pesquisa.

Os testes estão sendo realizados, também, em outros países, onde outros grupos demográficos estão sendo testados. “Em alguns países da África Subsaariana, a transmissão é basicamente heterosexual. E tem um estudo com esse mesmo imunizante em mulheres desses países”, explicou.

Editado por: Chico Marés

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo