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#Verificamos: Não há provas de que CNN e NBC ‘bancaram’ invasor do Capitólio

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
24.fev.2021 | 18h40 |

Circula pelas redes sociais que uma das pessoas que invadiram o Capitólio dos Estados Unidos, no dia 6 de janeiro, foi paga pela CNN e NBC News para participar do ato. A publicação apresenta o print de um conteúdo com foto publicado em um site norte-americano e sugere que o invasor é “Antifa”, abreviação para antifascista, e que recebeu das emissoras o montante de 70 mil dólares. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Um dos invasores do Capitólio (…) foi pago pela @CNN e @NBCNews. Quem está surpreso? 70 MIL DÓLARES (mais de 380 mil reais).”

Texto em post publicado no Facebook que, até as 13h30 do dia 24 de fevereiro de 2021, tinha mais de 300 compartilhamentos

VERDADEIRO, MAS

A informação analisada pela Lupa foi retirada de contexto. O homem que aparece na foto da publicação, acusado de ser um dos invasores do Capitólio dos Estados Unidos, é o cinegrafista John Sullivan. Ele documentou as manifestações contra o resultado das eleições presidenciais que culminaram com a invasão do centro legislativo norte-americano em Washington, D. C., e vendeu os direitos de uso dessas gravações para a CNN e para a NBC. Isso não quer dizer, no entanto, que as emissoras pagaram a ele para participar do ato, como sugere o post.

Ao jornal New York Post, um porta-voz da CNN confirmou que a emissora foi contatada a respeito de um vídeo feito por uma testemunha ocular dos tumultos no Capitólio. “A empresa firmou um contrato de uma semana para uso de 44 segundos do conteúdo principal, que foi atribuído à testemunha no ar. Quando seu papel no evento foi posteriormente questionado, a empresa informou aos funcionários que parassem de usar o vídeo”, disse o porta-voz.

recibo da venda dessas imagens — no valor de 35 mil dólares para cada uma das emissoras — foi, inclusive, apresentado pelo advogado de defesa de Sullivan como prova de que ele estava nas manifestações como jornalista, e não como manifestante. Em 14 de janeiro, Sullivan foi preso acusado de ter participado e encorajado o ataque. Ele, por sua vez, alega que apenas observou e documentou a manifestação. Também alega atuar como jornalista para o site Insurgence USA. Entretanto, consta no arquivo da denúncia contra o cinegrafista que ele não tem credenciais de imprensa e não é afiliado a qualquer organização jornalística.  

As gravações feitas pelo cinegrafista atraíram a atenção de líderes conservadores, entre eles o advogado do ex-presidente Donald Trump, Rudolph W. Giuliani. Pelas redes sociais, Giuliani afirmou que o movimento Antifa teria sido o verdadeiro responsável pelo ataque ao Capitólio — e não os apoiadores de Trump insatisfeitos com a vitória do democrata Joe Biden. Sites de notícias dos Estados Unidos relataram que a mídia de direita passou a difundir a teoria de que os manifestantes pró-Trump foram levados à violência pela esquerda e por agitadores antifascistas.

Conforme checagem feita pelo Politifact, não existem evidências de que a invasão do prédio em Washington foi liderada por ativistas Antifa disfarçados. Nas redes sociais, apoiadores de Trump alegaram falsamente que algumas das figuras símbolos seriam ativistas de esquerda. No entanto, essas alegações foram desmentidas. Em um dos casos, por exemplo, um símbolo do jogo eletrônico Dishonored foi confundido com a foice e martelo do comunismo.

Nem de direita nem de esquerda

Uma reportagem feita pelo jornal Washington Post mostrou que, embora John Sullivan tenha sido taxado como ativista Antifa, ele não é exatamente bem quisto por grupos de esquerda. Em entrevista ao jornal, um dos fundadores do movimento Black Lives for Humanity afirmou que ele “explorou os negros, lucrou com nossa dor e prejudicou o movimento”.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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