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#Verificamos: OMS não disse que isolamento sem restrições da Suécia é ‘modelo a ser seguido’

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
02.mar.2021 | 19h13 |

Circula pelas redes sociais que a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que a Suécia estabeleceu um modelo de combate à pandemia que deveria ser seguido. De acordo com a publicação, o país não realizou lockdown e, por isso, seria um bom exemplo para outros países. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“E AGORA? OMS afirma que Suécia, que não fez lockdown, é ‘modelo a ser seguido.’”

Texto em post publicado no Facebook que, até as 14h30 do dia 2 de março de 2021, tinha sido compartilhado 2,1 mil vezes

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Uma fala do diretor-executivo do Programa de Emergências em Saúde da OMS, Michael Ryan, feita durante entrevista em 29 de abril do ano passado, foi distorcida e compartilhada como se fosse atual. Diferentemente do que sugere a publicação, Ryan não disse que a Suécia, naquele momento, era um modelo a ser seguido durante a pandemia. Na verdade, ele afirma que as medidas do país europeu — que adotou, naquela ocasião, isolamento social baseado em cidadania, não em multas ou regulamentações severas — poderiam ser, no futuro, um exemplo para a realidade de um “novo normal”. “A Suécia representa um modelo futuro no qual, se quisermos voltar para uma sociedade em que não temos lockdowns, teremos que nos adaptar para um período médio ou potencialmente longo em que as relações físicas e sociais terão de ser dimensionadas pela presença do vírus”, disse. “Precisamos ter a percepção de que o vírus está presente e teremos que, como indivíduos, famílias e comunidades, fazer todo o possível diariamente para reduzir a transmissão desse vírus.”

Isso não quer dizer que a organização tenha afirmado que países devessem seguir o exemplo sueco e não realizar medidas de isolamento. Na verdade, na mesma entrevista, o diretor da OMS evidenciou o fato de que, embora o modelo baseado num pacto de confiança entre o governo e a população seja uma possível lição a ser aprendida no futuro, a Suécia agiu para tentar controlar a Covid-19.

Ryan também ressaltou que a Suécia teve, sim, políticas de isolamento — menos restritivas, mas teve — para evitar a propagação do novo coronavírus. “A Suécia implementou uma política de saúde pública muito forte em torno do distanciamento físico, em torno de cuidar e proteger as pessoas em instalações de longo prazo e muitas outras coisas”, disse. Ele ainda concluiu que essas medidas deveriam ser avaliadas. “O que [a Suécia] fez de diferente é que realmente confiou em suas próprias comunidades para implementar esse distanciamento físico e isso é algo que nos resta ver: se terá sucesso total ou não.” 

O modelo sueco

No começo do ano passado, a Suécia adotou políticas de isolamento social menos restritivas em comparação com outros países europeus — a Espanha e a França, por exemplo, decretaram bloqueio geral para diminuir a propagação do vírus. A estratégia sueca foi baseada em recomendações de distanciamento social, de não visitar parentes idosos e de evitar viagens. Comércio e serviços, porém, continuaram abertos.

Essa flexibilidade do governo, entretanto, resultou em um agravamento da pandemia no país ainda em abril do ano passado. Em junho, o epidemiologista Anders Tegnell, responsável pela estratégia, admitiu que o plano provocou muitas mortes.

Em dezembro de 2020, a Suécia registrou uma nova explosão de casos de Covid-19 e o rei Carl XVI Gustaf afirmou que o país falhou no combate à pandemia. De acordo com dados da Universidade Johns Hopkins, em 2 de março de 2021 a Suécia tinha o 22ª pior índice de mortes a cada 100 mil habitantes do mundo: 125,9 no total. Esse índice é pior que o do Brasil, que na mesma data era de 122.

Esse conteúdo também foi verificado pelo Boatos.org.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Maurício Moraes

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