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#Verificamos: É falso que vacinas contra a Covid-19 causaram 501 mortes

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
03.mar.2021 | 17h54 |

Circula pelo WhatsApp um vídeo em que Ana Paula Henkel, comentarista do programa Pingo nos Is, da rádio Jovem Pan, diz que as vacinas contra a Covid-19 causaram 501 mortes. A ex-atleta cita ainda outros dados de efeitos adversos que teriam sido causados em pessoas logo depois de serem imunizadas. “Aí você pode pensar ‘É um número pequeno, 300 e pouco, 500 e pouco’. Mas virou uma roleta-russa”, diz. “Entrem no site da Anvisa, olhem ali todo o relatório das vacinas que são empregadas no Brasil.” Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“501 PESSOAS MORRERAM APÓS TOMAR A VACINA CONTRA COVID”

Legenda em vídeo que circula no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há comprovação de que 501 pessoas morreram depois de serem vacinadas contra a Covid-19. Os dados referem-se a eventos adversos suspeitos relatados em uma ferramenta de acompanhamento do Centro para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. Qualquer pessoa pode reportar problemas no Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacinas (Vaers, na sigla em inglês). Não é possível dizer que a causa das mortes e de sintomas foi a vacina, uma vez que outras doenças existentes podem ter provocado efeitos colaterais e os números podem estar errados ou incompletos. Apesar de os dados serem públicos, o próprio site avisa que os números não podem ser usados para concluir que todos os efeitos informados foram causados pelos imunizantes. Além disso, não há estudo científico que tenha mostrado que as vacinas contra a Covid-19 podem causar mortes.

O dado foi citado por Ana Paula Henkel na edição de 25 de fevereiro do Pingo nos Is, da Jovem Pan. A Lupa entrou em contato, por e-mail e por telefone, com a produção do programa na última terça-feira (2), na tentativa de ouvir a comentarista sobre os dados usados em sua fala – que foram classificados como falsos. Até a publicação desta checagem, no entanto, não houve retorno.

O vídeo que circula pelo WhatsApp traz apenas um trecho da intervenção de Ana Paula, omitindo a fonte dos números usados por ela. Logo que aborda esse assunto, ela diz que os dados foram extraídos do CDC. “Saiu um dado agora no final de janeiro, começo de fevereiro, que vem exatamente do CDC. O dado vem do Sistema de Notificação dos Eventos Adversos de Vacinas, que contabiliza e monitora exatamente essas alergias e todos os efeitos adversos. E os dados são, assim, um pouco alarmantes”, afirmou. Na sequência, ela menciona que “501 pessoas morreram pós-vacina”, trecho em que começa o vídeo que circula no WhatsApp.

A plataforma do CDC que reúne os dados do Vaers avisa, na página inicial, que são aceitos quaisquer relatos de problemas depois da administração de vacinas, fornecidos tanto por profissionais de saúde quanto pelo público em geral. “Apesar de serem muito importantes no monitoramento da segurança das vacinas, os relatos enviados ao Vaers sozinhos não podem ser usados para determinar que uma vacina causou ou contribuiu para um evento adverso ou doença. Os relatos podem conter informações incompletas, imprecisas, coincidentes ou não verificáveis”, diz o texto. Logo, esses números não podem ser usados como indicativos de que foram as vacinas que provocaram as mortes. 

A avaliação da segurança de uma vacina depende de monitoramentos feitos em outros países, ensaios clínicos e artigos científicos, entre outras análises verificadas por cientistas independentes e órgãos reguladores. Ferramentas como o Vaers são úteis para detectar rapidamente um evento adverso grave que começa a afetar uma grande quantidade de pessoas, abrindo caminho para uma investigação mais aprofundada. “O número dos relatos sozinho não pode ser interpretado ou usado para chegar a conclusões sobre existência, gravidade, frequência ou taxa de problemas associados a vacinas”, informa o CDC.

A lista de eventos adversos relatados após a vacinação contra a Covid-19 no Vaers, extraída nesta quarta (3), mostra que os problemas mais comuns reportados nos Estados Unidos foram dor de cabeça (20,5%), fadiga (15%), febre (15%), calafrio (14,6%), dor (13,6%), tontura (13,2%) e náusea (12,9%). O número de mortes chegou a 810, equivalentes a 4,1% dos 93.739 eventos submetidos ao sistema.

No vídeo que circula no WhatsApp, a legenda que aparece sobreposta às imagens foi alterada. Na gravação original exibida pela Jovem Pan, em vez de “501 pessoas morreram após tomar a vacina contra Covid”, está escrito “Bolsonaro pode vetar responsabilização” na primeira linha e “Projeto aprovado pelo Senado autoriza governo a assumir responsabilidade” na segunda linha. O programa tratou de um projeto de lei que permite que o governo se responsabilize pelos efeitos da vacinação, aprovado pelo Senado.

No início de fevereiro, a Lupa checou um post publicado no Facebook que disseminava uma informação falsa semelhante, baseada nos dados do Vaers. A publicação dizia que os números do CDC mostravam que 181 americanos haviam morrido em razão das vacinas contra Covid-19 em apenas duas semanas. O relatório emitido pelo CDC na época, no entanto, ressaltava que os óbitos “não devem ser assumidos como causalmente relacionados à vacinação” (página 33).

Dados do Brasil

Semelhante ao Vaers, o Painel de Notificações de Farmacovigilância da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também começou a ser usado para disseminar informações falsas sobre eventos adversos reportados após a imunização contra Covid-19. Todos os relatos reunidos pela ferramenta referem-se a suspeitas que podem ter diversas causas e, como no caso do sistema do CDC, não devem ser interpretados como problemas provocados pelas vacinas.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Marcela Duarte

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A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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