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Variante B.1.1.7  do novo coronavírus. Foto: NIAID/Flickr
Variante B.1.1.7 do novo coronavírus. Foto: NIAID/Flickr

Vacinas, máscaras, contágio: o que é falso sobre as novas variantes da Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
09.mar.2021 | 08h00 |

O surgimento de diferentes linhagens virais da Covid-19 tem alertado a população sobre a velocidade de transmissão dessas variantes no país. Estudos iniciais apontam, por exemplo, que a variante P.1, identificada em Manaus (AM), é duas vezes mais transmissível que o vírus SARS-CoV-2 original. Assim, dúvidas em relação aos cuidados para evitar a doença, uso de máscaras de tecido e a eficácia de vacinas têm aumentado entre a população.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) explica que, quando um vírus está circulando amplamente na população e causando muitas infecções, a probabilidade de mutação do vírus aumenta. Quanto mais oportunidades um vírus tem de se espalhar, mais ele se replica. “Dependendo de onde as alterações estão localizadas no material genético do vírus, elas podem afetar as propriedades do vírus, como transmissão (por exemplo, pode se espalhar mais ou menos facilmente) ou gravidade (por exemplo, pode causar doença mais ou menos grave)”. Por isso, a população deve manter os cuidados, a exemplo do uso de máscaras, higienização das mãos e distanciamento social, diz a OMS. 

A Lupa verificou as principais dúvidas e peças de desinformação que circularam pelo Twitter acerca das variantes da Covid-19. Confira:

“O que me chama mais atenção: todas as variantes remetem a um país, mas a primeira não remete à China?”

Post no Twitter publicado em 26 de fevereiro de 2021

FALSO

Segundo especialistas, não é correto dizer que uma variante é de um determinado país. Na verdade, o que é possível afirmar é o local de identificação, a exemplo das variantes P.1 (Manaus) e B.1.1.7 (Reino Unido). Mas isso não quer dizer que um vírus se originou nessas localidades. O mesmo ocorre com a origem do novo coronavírus, pois ainda não há estudos que comprovem que ela, de fato, se deu na China. Há suspeitas de que o vírus tenha infectado seres humanos pela primeira vez em um mercado a céu aberto em Wuhan, na China, mas essa hipótese ainda não foi confirmada.

Além disso, ao falar sobre ‘vírus da China’, há uma questão relacionada a preconceito. “Deve ser evitado. Perceba que até a forma que as pessoas dão a entonação quando denominam ‘vírus da China’, tem um cunho pejorativo. Além disso, as variantes identificadas hoje recebem siglas”, explicou a professora Caroline Florencio, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). 

O professor de microbiologia Vinicius Pietta, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), lembra que é difícil definir onde e em que momento exato uma variante surgiu. Por isso, cada nova cepa identificada recebe uma denominação que, de forma popular, acaba sendo relacionada à região geográfica onde foi primeiramente noticiada. “Um exemplo notório é o vírus da ‘Gripe Espanhola’, mas que provavelmente teve origem nos Estados Unidos e chegou na Europa através das tropas americanas que viajaram para combater na primeira guerra mundial. Os espanhóis não lutaram na primeira guerra mundial, mas foram os primeiros a noticiar o surgimento da doença”, conta Pietta. 

As principais variantes encontradas no mundo são a B.1.1.7, identificada no Reino Unido, a B.1.351, na África do Sul, e a P.1, em Manaus. Nos Estados Unidos, foram identificadas a CAL.20C, no sul da Califórnia e a B.1.526, em Nova York.


“Minha dúvida é se quem já teve a cepa inicial (sic) deve continuar na Ivermectina quinzenal devido a novas cepas”

Post no Twitter publicado em 25 de fevereiro de 2021

FALSO

A ivermectina é um medicamento que não tem eficácia comprovada contra o vírus original, tampouco contra as variantes identificadas até agora. “Ainda não possuímos nenhum medicamento capaz de prevenir a infecção e nossa única ferramenta eficaz para reduzir os números de casos é evitar que uma pessoa infectada transmita a doença para outra, por meio de medidas de distanciamento, uso de máscaras e lavagem das mãos”, explica o professor Vinicius Pietta.

A ivermectina, uma medicação usada para combater parasitas, entre eles piolhos, passou a ser disseminada após um estudo publicado na Antiviral Research indicar que o medicamento foi capaz de inibir a replicação do vírus da Covid-19 in vitro, ou seja, em laboratório, não em humanos. Isso não significa, porém, que o remédio seja comprovadamente eficaz contra o novo coronavírus, pois nem sempre o que é observado in vitro se repete quando o medicamento é testado em animais ou em humanos. 


“Se a nova cepa do vírus circulando produz carga viral dez vezes maior que o vírus original e sem medidas drásticas de restrição no país inteiro, é de se esperar a tragédia. Cuidem-se”.

Post no Twitter publicado em 28 de fevereiro de 2021

VERDADEIRO, MAS

Há um estudo da Fiocruz indicando que um adulto infectado com a variante P.1 do coronavírus tem uma carga viral – quantidade de vírus no corpo – 10 vezes maior em relação a uma infecção por outras variantes. No entanto, ele foi publicado na modalidade preprint, ou seja, ainda não passou pela revisão dos pares.

Também há um artigo do Centro Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), afirmando que a nova variante é até 2,2 vezes mais transmissível. Os cientistas estimam ainda que, em parte dos indivíduos já infectados pelo SARS-CoV-2 original – algo entre 25% e 61% –, a nova variante seja capaz de driblar o sistema imune e causar uma nova infecção. Mas ele ainda não foi publicado em nenhuma revista científica. 

Por isso, para os dois casos, são necessários estudos mais robustos a respeito.

Em um comunicado técnico publicado na quarta-feira (4), pela Fiocruz, pesquisadores alertam para a dispersão geográfica no território de “variantes de preocupação”, assim como sua alta prevalência nas três regiões do Brasil avaliadas (Sul, Sudeste e Nordeste). Em estados como Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e Paraná mais de 50% das amostras de testes PCR foram identificadas com a mutação. 

O pesquisador Felipe Naveca, do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), explica que as recomendações são as mesmas para os cuidados de disseminação do vírus, tanto do vírus original, quanto das variantes. “Se de fato ela for mais transmissível, a atenção tem que ser ainda maior, porque qualquer descuido pode levar à infecção. Do ponto de vista dos profissionais da saúde, eles já usam EPIs, os melhores possíveis, é só redobrar os cuidados para que sempre tenham a menor chance de serem infectados”, diz. 

A variante do novo coronavírus identificada no Reino Unido é entre 43% e 90% mais contagiosa, segundo uma análise publicada na revista Science, no dia 3 de março. Segundo o estudo, que analisou 150 mil amostras de pacientes do país, a variante B.1.1.7 apresenta mutações peculiares e se espalhou muito rapidamente pelo mundo. Os autores afirmam que, ao examinarem dados de outros países, chegaram a conclusões semelhantes: a variante parece ser 55% mais transmissível na Dinamarca, 59% mais nos Estados Unidos, e 74% mais na Suíça.


“A vacina de Oxford não protege de nada da cepa nova […]”

Post no Twitter publicado em 28 de fevereiro de 2021

AINDA É CEDO PARA DIZER

Até o momento, não é possível afirmar que as vacinas contra o novo coronavírus aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não são capazes de imunizar a população contra as novas variantes. Alguns estudos iniciais apontam que há, sim, uma eficácia garantida. 

A agência Reuters publicou no dia 5 de março que dados preliminares de um estudo feito pela Universidade de Oxford e pela AstraZeneca indicam que a vacina contra Covid-19 desenvolvida pelas duas instituições induz resposta adequada contra a variante P.1. Segundo o texto, não seriam necessárias adaptações.

A OMS diz que as vacinas contra a Covid-19 fornecem, sim, proteção contra novas variantes do vírus, pois induzem uma ampla resposta imune envolvendo uma gama de anticorpos e células. “Portanto, alterações ou mutações no vírus não devem tornar as vacinas completamente ineficazes. No caso de qualquer uma dessas vacinas provar ser menos eficaz contra uma ou mais variantes, será possível alterar a composição das vacinas para proteger contra essas variantes”, diz a organização. 


“Se faz necessária a atualização imediata da vacina do Butantan para a nova variante P1, na qual a vacina não funciona e é predominante no país. É como se vc estiver (sic) com dor de cabeça e tomar vonau [medicamento usado para combater enjoo]. Vacinação ainda é valida? É, mas não vai te proteger da maior parte das cepas”

Post no Twitter publicado em 2 de março de 2021

AINDA É CEDO PARA DIZER

Estudos estão sendo realizados para averiguar a eficácia da CoronaVac, vacina produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac,  contra as novas variantes. Em outra checagem feita pela Lupa, Luiz Gustavo de Almeida, doutor em Microbiologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), explicou que algumas vacinas que usam a tecnologia do vírus inativado – como a CoronaVac – ensinam o sistema imunológico a reconhecer outras estruturas do coronavírus além da proteína spike, o que possibilita uma resposta imunológica correta do organismo mesmo se houver mudança nessa característica. 

Em nota, o Instituto Butantan diz que está realizando estudos próprios em relação à variante identificada no Amazonas. A entidade explica que a vacina contra a Covid-19, desenvolvida em parceria com a biofarmacêutica Sinovac, por usar a tecnologia de vírus inativado, induz resposta imune ampla contra a doença. 


“[…] E a máscara de pano não protege [contra a nova variante]”

Post no Twitter publicado em 4 de março de 2021

FALSO

As máscaras caseiras continuam eficazes contra a Covid-19, inclusive contra as novas variantes, se usadas de forma correta. Para Thaís Guimarães, médica do Hospital das Clínicas (ICHC) da Faculdade de Medicina da USP, a máscara deve estar bem adaptada ao rosto da pessoa, pois, se ela estiver frouxa, o nariz fica exposto, tornando seu uso ineficaz. Além disso, deve-se evitar tecidos muito finos, dando preferência ao algodão duplo ou triplo.

“A gente sabe que essas novas variantes são mais contagiosas que as suas antecessoras, mas a partícula viral continua tendo o mesmo tamanho, continuamos falando de coronavírus. As máscaras cirúrgicas e N-95 são indicadas para os profissionais de saúde, mas a população em geral pode e deve continuar usando máscaras de tecido”, afirma a médica. 

Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) recomenda máscaras comuns, porém bem ajustadas ao rosto e com duas ou mais camadas de tecido lavável e respirável. A OMS afirma que máscaras de tecidos devem ser usadas em ambientes com aglomeração e que é necessário sempre limpar as mãos antes de colocar e de tirar a proteção, bem como antes de tocá-la enquanto a usa.

Editado por: Natália Leal

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