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Depoimento alterado de Lula com ironias a Moro volta a circular após decisão de Fachin

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
12.mar.2021 | 08h00 |

Uma suposta transcrição de um depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao então juiz Sérgio Moro passou a circular nas redes sociais após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin anular, na última segunda-feira (8), condenações do petista no âmbito da operação Lava Jato. No entanto, a postagem contém trechos alterados e enganosos, com palavras e frases que nunca foram ditas pelo ex-presidente e pelo ex-juiz. O conteúdo tem sido compartilhado também em forma de vídeo, no TikTok, e contava com 90,7 mil curtidas até quinta-feira (11).

A Lupa localizou a primeira publicação com a suposta transcrição. Ela foi feita no dia 11 de maio de 2017, um dia depois do primeiro depoimento prestado por Lula a Moro, no site Jornalistas Livres. Procurado para se posicionar sobre os trechos alterados, o site não respondeu até a publicação desta matéria.

A postagem que voltou a circular após a decisão de Fachin não identifica a data do depoimento e narra embates nos quais Lula dá respostas contundentes e espirituosas ao ex-juiz, algumas vezes, em tom de deboche. Em um dos trechos, Moro começa a perguntar a Lula sobre um documento relativo ao triplex do Guarujá, objeto de um dos casos anulados, mas o ex-presidente pergunta de quem é a assinatura no papel. Moro, então, responde que a assinatura está em branco, e Lula pede, em tom professoral, que o então juiz guarde o documento. Mas, segundo a gravação disponibilizada pela Justiça de depoimento concedido por Lula a Moro no dia 10 de maio de 2017, o ex-presidente apenas disse que não tinha conhecimento sobre o documento.

Em outro trecho que circula nas redes sociais, Moro pergunta a Lula se ele sabia que Renato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras, “roubava” a empresa. Lula, então, faz uma analogia com o fato de que quando um filho vai mal na escola, não informa o pai a respeito. Moro diz que seus filhos informam, e o diálogo, supostamente, se encerra com a frase “Doutor Moro, Renato Duque não é seu filho.” O trecho nunca existiu. 

Desde 2017, a publicação original com os diálogos falsos entre Moro e Lula circula nas redes sociais, mas sem grande alcance. Os compartilhamentos aumentaram desde o último dia 8 de março, quando Fachin entendeu que a 13ª Vara Federal de Curitiba ― onde Moro trabalhava ― não tinha competência legal para julgar as acusações e anulou as condenações do ex-presidente. Além da sentença no caso do triplex do Guarujá, ficou anulado o julgamento pelo sítio de Atibaia. Em ambos, Lula havia sido condenado por Moro, em primeira instância, e pelos desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), em segunda instância. A anulação das condenações de Lula possibilita que ele seja candidato nas eleições de 2022. Com essa reviravolta, diversas publicações envolvendo Lula e Moro voltaram a circular nas redes sociais.

A assessoria de imprensa de Lula disse que não teria o que comentar sobre o assunto porque “nunca dissemos isso”. Moro disse apenas que não comentaria. A assessoria de imprensa da Justiça Federal informou que não iria se manifestar.

A seguir, compare os textos da postagem com a transcrição dos depoimentos prestados pelo ex-presidente Lula ao juiz Sergio Moro:

“Moro: o documento tem uma rasura
LULA : quem rasurou?
Moro: não sei….
LULA: então como eu vou saber também?”
Trecho da suposta transcrição de depoimento prestado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao então juiz Sergio Moro que, até as 12h do dia 10 de março de 2021, tinha mais de 15 mil compartilhamentos e 75 mil curtidas no Twitter

Em nenhum dos dois depoimentos prestados pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao então juiz Sergio Moro, em 10 de maio e em 13 de setembro de 2017, o petista questiona o juiz com a frase “como eu vou saber também?”. O diálogo real, conforme transcrição da Justiça Federal confirmada pela Lupa com o vídeo do depoimento (entre 13’24’’ e 14’10’’), é o seguinte:

Moro: Consta nesse documento, não sei se o senhor chegou a verificar, uma rasura, número 174, correspondendo a um triplex nesse mesmo edifício, que foi rasurado e em cima dele foi colocado o número 141. Isso foi objeto de um laudo pericial da Polícia Federal, eu posso lhe mostrar o laudo aqui, se o senhor quiser dar uma olhada.
Lula: Quem rasurou?
Moro: É, isso não foi identificado.
Lula: Eu também gostaria de identificar quem rasurou.
Moro: A indagação que eu faço ao senhor ex-presidente é: o senhor tinha conhecimento dessa proposta e dessa rasura e saberia explicá-la?
Lula: Não. Doutor Moro, eu tomei conhecimento desse apartamento em 2005, e fui tomar e voltar a discutir esse apartamento em 2013, só isso.


“Moro: Tem um documento aqui que fala do triplex…
LULA: Tá assinado por quem?
Moro: Hmm… A assinatura tá em branco…
LULA: Então o senhor pode guardar por gentileza”
Trecho da suposta transcrição de depoimento prestado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao então juiz Sergio Moro que, até as 12h do dia 10 de março de 2021, tinha mais de 15 mil compartilhamentos e 75 mil curtidas no Twitter

Em nenhum dos dois depoimentos prestados a Sergio Moro, Lula ordena que o juiz guarde qualquer tipo de documento. Na transcrição que circula nas redes sociais, a resposta do ex-presidente foi modificada. O diálogo real, conforme transcrição da Justiça Federal confirmada pela Lupa com o vídeo do depoimento (entre 14’30” e 15’53”), é o seguinte:

Moro: Na mesma localização dos autos, evento 3, COMP12, consta um termo de adesão datado de 01/01/2004, sem assinatura, com a Bancoop, relativamente à aquisição de uma cota correspondente a um apartamento de unidade duplex de 3 dormitórios nesse edifício em Guarujá, unidade 174-A. E depois, com a transferência do empreendimento à OAS, acabou se transformando no triplex 164-A. Posso lhe mostrar o documento para o senhor dar uma olhadinha.
Lula: Em 2004, assinado por quem?
Moro: Não, esse não está assinado.
Lula: Então, não sei
Moro: Consta que esse documento foi apreendido no seu endereço, no apartamento em São Bernardo do Campo.
Lula: Não me mostraram isso.
Moro: O senhor quer dar uma olhada?
Lula: Quem apreendeu não me mostrou no apartamento em São Bernardo do Campo. Está assinado por quem?
Moro: Não está assinado.
Lula: Então, se não está assinado, doutor…
Moro: Mas o senhor teria alguma explicação para esse documento ter sido apreendido no seu apartamento?
Lula: Não sei, talvez quem acusa saiba como é que foi parar lá, eu não sei como é que tem um documento lá em casa, sem adesão, de 2004, quando a minha mulher comprou o apartamento em 2005.


“Moro: O sr. Não sabia dos desvios da Petrobras?
LULA: Ninguém sabia dos desvios da Petrobras. Nem eu, nem a imprensa, nem o senhor, nem o ministério público e nem a PF. Só ficamos sabendo quando grampearam o Youssef.
Moro: Mas eu não tinha que saber. Não tenho nada com isso.
LULA: Tem sim. Foi o sr. quem soltou o Youssef.”
Trecho da suposta transcrição de depoimento prestado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao então juiz Sergio Moro que, até as 12h do dia 10 de março de 2021, tinha mais de 15 mil compartilhamentos e 75 mil curtidas no Twitter

O trecho analisado possui alterações e simplificações na transcrição. O diálogo exato, conforme transcrição da Justiça Federal confirmada pela Lupa com o vídeo do depoimento (entre 1h53’30” e 1h54’32”), é o seguinte:

“Moro: Senhor ex-presidente, o senhor tendo nomeado, indicado, pelo menos dado a palavra final para indicação ao conselho de administração da Petrobras de Paulo Roberto Costa, Renato de Souza Duque, Nestor Cuñat Cerveró, Jorge Luiz Zelada, o senhor não tinha conhecimento nenhum dos crimes por eles praticados enquanto diretores da Petrobras?
Lula: Não, não.
Moro: Ou desse esquema criminoso que alguns deles começaram?
Lula: Nem eu, nem o senhor, nem o Ministério Público, nem a Petrobras, nem a imprensa, nem a Polícia Federal, todos nós só ficamos sabendo quando foi pego no grampo a conversa do Youssef com o Paulo Roberto.
Moro: Eu indago ao senhor isso porque foi o senhor que indicou o nome deles ao conselho de administração da Petrobras, é uma situação diferente de mim que não tenho nada a ver com isso, nunca participei dessas indicações.
Lula: Mas o senhor que soltou o Youssef e mandou grampear, o senhor podia saber mais do que eu.
Moro: Não, eu decretei a prisão do Alberto Youssef, é um pouco diferente”


Moro: “saíram denúncias na folha de São Paulo, e no jornal O Globo de que…”
LULA: “Doutor, não me julgue por notícias, mas por provas.”
Trecho da suposta transcrição de depoimento prestado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao então juiz Sergio Moro que, até as 12h do dia 10 de março de 2021, tinha mais de 15 mil compartilhamentos e 75 mil curtidas no Twitter

Não foi possível localizar declarações similares em nenhum dos dois depoimentos prestados por Lula a Moro, nos dias 10 de maio e 13 de setembro de 2017. As transcrições dos depoimentos liberados pela Justiça mostram que Lula fez diversas críticas a veículos de comunicação, como Globo, Folha de S.Paulo e Estadão, mas em nenhum momento o ex-presidente pediu para que Moro não o julgasse “por notícias, mas por provas”.

Em uma das partes dos depoimento, Moro cita uma reportagem da Folha de S.Paulo sobre o triplex de Guarujá e pergunta se Lula saberia “explicar o conteúdo dessas informações” que teriam sido repassadas a jornalistas. O ex-presidente responde: “Eu me recuso a responder uma matéria da Folha de S.Paulo, que não tem autor, que não tem entrevista, é o achismo”. O diálogo exato, conforme transcrição da Justiça Federal confirmada pela Lupa com o vídeo do depoimento (entre 1h20’40” e 1h21’50”), é o seguinte:

Moro:­ Consta uma matéria de jornal que foi juntada…
Lula:­ Depende que jornal, viu?
Moro:­ A Folha de São Paulo?
Lula:­ Não, não.
Moro:­ Mas essa…
Lula:­ Depois eu vou mostrar uns dados aqui sobre a imprensa, o senhor vai ficar estarrecido.
Moro: Mas essa matéria da Folha de São Paulo foi em 29/12/2014, diz o seguinte, ‘O ex­-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estuda vender o triplex no Guarujá, que adquiriu em 2005 com sua mulher, Marisa Letícia, num prédio construído pela Bancoop; segundo os interlocutores do ex-presidente, a repercussão da reportagem sobre o apartamento fez com que Lula’, o senhor ex-presidente, ‘reavaliasse a efetivação da compra do imóvel, cuja reforma e decoração estão quase no fim’. Consta na matéria que ‘De acordo com a assessoria do Instituto Lula não há informações sobre o prazo para que Marisa e o ex-presidente façam a escolha’. O senhor ex-presidente sabe explicar o conteúdo dessas informações que teriam sido repassadas a jornalistas?
Lula:­ Eu me recuso a responder uma matéria da Folha de São Paulo, que não tem autor, que não tem entrevista, é o achismo.
Moro:­ Essa matéria então não seria verdadeira?
Lula:­ Na minha opinião, não.


“Moro: Senhor ex-presidente, você não sabia que Renato Duque roubava a Petrobras?
LULA: Doutor, o filho quando tira nota vermelha, ele não chega em casa e fala: ‘Pai, tirei nota vermelha’.
Moro: Os meus filhos falam.
LULA: Doutor Moro, o Renato Duque não é seu filho.”
Trecho da suposta transcrição de depoimento prestado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao então juiz Sergio Moro que, até as 12h do dia 10 de março de 2021, tinha mais de 15 mil compartilhamentos e 75 mil curtidas no Twitter

Em nenhum dos dois depoimentos prestados a Moro, nos dias 10 de maio e 13 de setembro de 2017, Lula diz que “Renato Duque não é seu filho”. O diálogo exato, conforme transcrição da Justiça Federal confirmada pela Lupa com o vídeo do depoimento (entre 2h11’00” e 2h12’45”), é o seguinte:

“Moro:­ Em 2015, ainda durante a presidência da senhora Dilma Roussef, a Petrobras reconheceu no balanço oficial dela perdas contábeis estimadas com corrupção, somente o custo da propina, de 6,194 bilhões de reais, o senhor ex-presidente saberia explicar esses custos de 6,194 bilhões de reais em propinas reconhecidas pela Petrobras?
Lula: Não.
Moro: Teriam ocorrido em parte durante a sua presidência?
Lula:­ Não, se a Petrobras soubesse da propina lá poderia ter evitado, a Petrobras sempre se orgulhou da governança dela, sempre se orgulhou da grandiosidade, sempre se orgulhou da quantidade de empresas multinacionais que faziam contabilidade para ela.
Moro: O senhor ex-presidente não tinha mesmo conhecimento nenhum desses fatos?
Lula:­ Não.
Moro:­ Pagamentos de propina da ordem de 6 bilhões de reais?
Lula:­ Não, nem eu e pouca gente, talvez só os que vivessem dela.
Moro:­ O senhor ex-presidente não se informava do que ocorria no âmbito da Petrobras ou com os diretores que o senhor indicou?
Lula:­ O senhor acha que as pessoas vinham falar de propina?
Moro:­ Peço para o senhor falar no microfone.
Lula: ­ O senhor acha que quando o seu filho tira uma nota baixa na escola ele chega em casa pulando de alegria para contar, se ele puder vai tentar esconder até o senhor saber, o senhor acha que alguém que começou a roubar vai contar para alguém que ele está roubando? Vai contar?
Moro:­ Mas os meus filhos eu fico sabendo a nota com o tempo, o senhor não ficou sabendo de nada?
Lula:­ Agora porque a escola diz até quando, a escola até comunica quando a molecada falta, no meu tempo não…
Moro:­ Mas eu checo sempre isso, senhor presidente.
Lula:­ No meu tempo era mais difícil.
Moro:­ Mas, enfim, o senhor não ficou sabendo de nada disso?
Lula:­ Não, não, doutor, tudo o que eu sei da Petrobras é pela imprensa, depois da delação do Youssef.”


“Moro: Sr. Lula, o triplex é seu?
LULA: Não.
Moro: Mas o Sr. tinha interesse em adquirir?
LULA: Não.
Moro: Mas visitou?
LULA: Sim.
Moro: Por quê?
LULA: Porque queriam me vender.
Moro: Mas o Sr. comprou?
LULA: Não.
Moro: Mas o triplex é seu?
LULA: Não.
Moro: Mas porque visitou?
LULA: Porque queriam me vender.
Moro: Mas o Sr. não comprou?
LULA: Não.
Moro: Mas…”
Trecho da suposta transcrição de depoimento prestado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao então juiz Sergio Moro que, até as 12h do dia 10 de março de 2021, tinha mais de 15 mil compartilhamentos e 75 mil curtidas no Twitter

Em nenhum dos dois depoimentos prestados pelo ex-presidente ao então juiz, nos dias 10 de maio e 13 de setembro de 2017, esse diálogo aconteceu da maneira em que está escrito no texto que circula nas redes sociais. No depoimento de maio, Moro questiona Lula diversas vezes, ao longo de quase cinco horas, sobre o triplex, sobre a intenção de adquirir o imóvel, documentos e visitas ao empreendimento. Porém, tanto as perguntas como as respostas não são feitas de maneira simplificada como mostra o texto verificado e não foram feitas sequencialmente.

O depoimento completo do dia 10 de maio de 2017 pode ser lido aqui e assistido aqui. O depoimento prestado no dia 13 de setembro de 2017 pode ser lido aqui e assistido aqui.

Editado por: Marcela Duarte, Maurício Moraes e Natália Leal

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