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#Verificamos: É falso que pesquisas comprovam a eficácia da ivermectina para tratar ou prevenir a Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
12.mar.2021 | 16h27 |

Circula por grupos de WhatsApp que estudos comprovaram a eficácia da ivermectina para tratar ou prevenir a Covid-19. O conteúdo é acompanhado de uma imagem com dados sobre várias pesquisas e seus respectivos resultados. Essas informações são atribuídas ao site ivnmeta.com e indicam que o antiparasitário seria 90% eficaz como profilaxia, 80% eficiente como tratamento precoce e 50% para tratamento tardio. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

Saiu o Randomizado da Ivermectina
Pronto esta ai a eficácia e a comprovação cientifica
https://ivmmeta.com/
PRA QUEM QUERIA ‘CIÊNCIA’ ESTÁ AÍ
90% de eficácia na profilaxia
80% no tratamento precoce
50% no tratamento tardio”

Conteúdo que circula em grupos de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Embora já existam muitos estudos sobre o uso da ivermectina no combate à Covid-19, os resultados ainda não são definitivos. Não é possível atestar, portanto, que o medicamento é eficaz como profilaxia da doença ou como tratamento precoce e tardio. A última atualização da Organização Mundial da Saúde (OMS) acerca das opções terapêuticas contra a Covid indica que ainda existem “incertezas sobre os benefícios e danos potenciais” do antiparasitário e que “mais pesquisas são necessárias” (pág. 10).

A conclusão da OMS baseia-se na análise de 22 estudos randomizados com um total de 2.944 pessoas. De acordo com a organização, a maioria dessas pesquisas têm limitações metodológicas importantes, como, por exemplo, “provável processo inadequado de randomização​​”. A conclusão, até o momento, é a de que é incerto que a ivermectina reduza a mortalidade ou a infecção sintomática. Esse posicionamento é compartilhado por entidades como a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, que não recomenda a fórmula para tratar a doença.

Em 5 de março, a Food and Drug Administration (FDA), agência federal de saúde norte-americana, emitiu, inclusive, um alerta sobre o uso da ivermectina para o tratamento ou para a prevenção da Covid-19. O parecer evidencia que o medicamento não foi aprovado para esse fim nos Estados Unidos: “Os comprimidos de ivermectina são aprovados em doses muito específicas para alguns vermes parasitas e existem formulações tópicas para piolhos e doenças da pele como a rosácea. A ivermectina não é um antiviral (um medicamento para o tratamento de vírus). Tomar grandes doses desse medicamento é perigoso e pode causar sérios danos”, diz o comunicado.

Em fevereiro, a farmacêutica MSD (Merck Sharp and Dohme), que produz a ivermectina, se manifestou e afirmou que ainda não há evidências de que o medicamento traga benefícios ou seja eficaz no tratamento da Covid-19.

De acordo com a plataforma UpToDate, base de informações médicas utilizada por profissionais da saúde, vários ensaios clínicos de ivermectina estão em andamento, “mas os únicos resultados disponíveis até agora são de ensaios não publicados de baixa qualidade”. 

Metodologia sem validade

A corrente do WhatsApp credita a fonte dos dados ao site ivnmeta.com, página que apresenta uma meta-análise de 45 estudos sobre a ivermectina e calcula a eficácia do fármaco a partir dos resultados de RR, sigla para Risco Reduzido, dessas pesquisas.

No entanto, a metodologia usada para fazer a análise dos resultados não tem legitimidade, segundo explicou um especialista ouvido pela Lupa, o médico cardiologista e pesquisador José Alencar. “Não tem validade porque usa um método ludibriador — a de fazer uma meta-análise incluindo apenas os estudos que quer e misturando alhos com bugalhos. Metodologicamente, essa análise não passaria em nenhuma revista séria”, explicou, por WhatsApp.

Para chegar ao dado de 90% de eficácia da ivermectina como profilaxia, por exemplo, a página avaliou 11 estudos. A análise, porém, mistura desfechos diferentes dessas pesquisas e acaba induzindo o leitor ao erro. “Há estudos que tiveram como desfecho casos [de Covid-19], outro morte, outro caso sintomático”, observou o pesquisador. “Você faz uma meta-análise para cada desfecho estudado, esse é o correto. Fora isso, [as pesquisas] têm doses [do medicamento] diferentes também”. Além disso, ressaltou Alencar, os estudos que basearam o cálculo possuem falhas metodológicas graves. “São estudos muito pobres e não têm poder confirmatório. Isso acaba com a qualidade da meta-análise”, concluiu o pesquisador. Um dos estudos citados, por exemplo, sequer foi revisado por pares. Outro conclui que mais pesquisas são recomendadas.

Ao contrário do que sugere a página, uma das pesquisas mais recentes sobre a ivermectina – um ensaio duplo-cego (em que um grupo recebe o medicamento e o outro, placebo, sem que os pesquisadores saibam quem recebeu o quê) e randomizado (com escolha aleatória dos participantes) publicado em 4 de março no Journal of the American Medical Association (JAMA) – avaliou se o antiparasitário era eficaz em pacientes com sintomas leves de Covid-19. O estudo incluiu 476 pacientes e indicou que a duração dos sintomas não foi significativamente diferente para os pacientes que receberam ivermectina por cinco dias em comparação com os que receberam placebo. A conclusão foi de que mais estudos eram necessários.

Além disso, não há informações sobre os autores da página. Na seção de perguntas frequentes, consta apenas a informação de que o site é assinado por um grupo de pesquisadores, cientistas e “pessoas que esperam dar uma contribuição, mesmo que pequena”. Esse grupo também assina como @CovidAnalysis no Twitter — a conta, entretanto, não foi encontrada na rede social e, segundo os autores, foi censurada. O grupo não divulgou o nome dos participantes e, como justificativa, sugere que leitores pesquisem termos como “ameaças de morte raoult” ou “simone gold despedida” em sites de busca. 

A primeira pesquisa leva ao nome do médico francês Didier Raoult, que ficou conhecido por defender a hidroxicloroquina como tratamento para a Covid-19 no ano passado. Em janeiro deste ano, ele admitiu que a substância não reduz a mortalidade nem diminui a gravidade da doença. A segunda busca, “simone gold despedida”, refere-se à médica norte-americana e ativista antivacina Simone Gold, também defensora da hidroxicloroquina e que estava presente na invasão do Capitólio dos Estados Unidos em janeiro deste ano.  

Além da ivermectina, o site faz meta-análise de estudos sobre outras substâncias, como vitamina D, vitamina C, zinco e hidroxicloroquina, entre outras. O endereço do site muda conforme o medicamento.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

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