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De saída da Saúde, Pazuello exagera total de vacinados contra Covid-19

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
16.mar.2021 | 14h56 |

Às vésperas de deixar o ministério da Saúde, o general Eduardo Pazuello concedeu uma entrevista coletiva na tarde desta segunda-feira (15) para fazer um balanço da sua gestão no combate à pandemia da Covid-19. Bastante criticado pela demora na compra de vacinas contra a doença e por não determinar medidas de isolamento social com o agravamento do número de casos e óbitos, ele é alvo de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre suas ações. Especulações sobre a troca do comando do ministério se intensificaram no fim de semana. 

Na noite desta segunda, o nome do médico Marcelo Queiroga foi confirmado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para substituir Pazuello. A nomeação, no entanto, não foi publicada no Diário Oficial da União desta terça-feira. Na entrevista coletiva concedida à imprensa, Pazuello afirmou que adotou “total transparência” e que todos os esforços para combater a Covid-19 foram empenhados desde o início de sua gestão. A Lupa checou algumas das principais frases do general na coletiva. Veja o resultado:


“Uma das primeiras ações decorrentes desse diagnóstico [feito após Pazuello assumir a Saúde] foi de provocar total transparência de todas as ações do ministério e disponibilizá-las para toda a população brasileira”

Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, em entrevista coletiva em 15 de março de 2021

FALSO

Em junho de 2020, quando Pazuello ainda era ministro interino da Saúde, o governo federal restringiu a divulgação de dados de casos e óbitos por Covid-19. Com a mudança na metodologia, o Ministério da Saúde passou a divulgar somente os números registrados nas últimas 24 horas, ao contrário do que ocorria antes, quando o governo também divulgava os casos e óbitos que ocorriam anteriormente, mas que só eram confirmados em datas posteriores. Na ocasião, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) informou em seu Twitter que a divulgação dos dados nesse novo formato permitia acompanhar a “realidade do país”. “Ao acumular dados, além de não indicar que a maior parcela já não está com a doença, não retratam o momento do país”, disse o presidente. 

Entretanto, especialistas criticaram essa mudança. Ao jornal O Estado de S. Paulo, Domingos Alves, coordenador do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), explicou que a nova metodologia poderia ocasionar subnotificação dos dados, fazendo com que a divulgação do número de óbitos e casos por Covid-19 fosse menor em relação aos dados reais. O empresário Carlos Wizard, que na época foi chamado por Pazuello para assumir a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, disse que os dados apresentados pelo governo federal na ocasião eram “fantasiosos ou manipulados”. Após a polêmica, ele recusou o convite para ocupar o cargo.

No dia 5 de junho, quando o Brasil bateu recorde de mortos por Covid-19, o Ministério da Saúde também adiou a divulgação dos dados sobre casos e óbitos na pandemia, que costumava ocorrer às 19h. Os números passaram a ser informados depois das 22h. “Acabou matéria no Jornal Nacional”, disse o presidente Jair Bolsonaro, ao ser questionado sobre a mudança no horário da divulgação. “O Jornal Nacional gosta de dizer que o Brasil é recordista em mortes.” O telejornal da Rede Globo é exibido às 20h30.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou, em decisão liminar de 9 de junho, que todos os dados sobre a pandemia voltassem a ser divulgados pelo governo federal. Ele considerou haver uma “violação a preceitos fundamentais da Constituição Federal, sobretudo o direito à vida e à saúde, além do dever de transparência da administração pública e do interesse público”.

Em resposta às mudanças nos dados divulgados pelo Ministério da Saúde, um grupo de veículos de imprensa formado por Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Extra, G1 e UOL decidiu criar um consórcio e trabalhar de forma colaborativa para buscar os números de casos e óbitos por Covid-19. A coleta desses números pelo grupo ocorre por meio das informações oficiais divulgadas diariamente pelos governos estaduais.

O governo federal vem divulgando desde o início da pandemia, em março de 2020, os gastos específicos para o combate à Covid-19. Entre eles, as transferências aos estados e municípios, informações sobre auxílio emergencial e os contratos por dispensa de licitação. Esse painel, no entanto, foi criado durante a gestão de Luiz Henrique Mandetta no Ministério da Saúde.

Procurada pela Lupa, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde não respondeu.


“O ciclo da pandemia em 2021 está diferente. O vírus acumulou mutações, se tornando mais contagioso e, consequentemente, tem causado um maior número de óbitos (…)”
Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, em entrevista coletiva em 15 de março de 2021

AINDA É CEDO PARA DIZER

Apesar de alguns especialistas acreditarem que as novas variantes da Covid-19 são mais contagiosas, a exemplo da P.1, identificada em Manaus (AM), estudos mais robustos a respeito são necessários.

Há um artigo do Centro Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Cadde), afirmando que a nova variante é até 2,2 vezes mais transmissível. Os cientistas estimam que, em parte dos indivíduos já infectados pelo SARS-CoV-2 original – entre 25% e 61% –, a nova variante seja capaz de driblar o sistema imune e causar uma nova infecção. Mas o texto deve ser visto com cautela, já que não foi publicado em nenhuma revista científica e não passou pela revisão dos pares.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que também vem estudando as novas variantes, publicou um comunicado no início de março no qual alerta para a dispersão geográfica no território de “variantes de preocupação”, assim como sua alta prevalência nas três regiões do Brasil avaliadas (Sul, Sudeste e Nordeste). A nova mutação estava presente em mais de 50% das amostras de testes PCR no Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e Paraná.

Tampouco há estudos robustos sobre a letalidade das novas variantes. O Comitê de Assessoramento Científico Externo, formado por pesquisadores da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), instituições locais e outros estados, desenvolve 12 estudos sobre a cepa. Eles estão em fase preliminar de análises e, por essa razão, ainda não têm resultados conclusivos sobre a letalidade da variante.

Procurada pela Lupa, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde não respondeu.


“A vacinação no nosso país, pelo PNI [Programa Nacional de Imunizações], iniciou-se em 18 de janeiro de 2021”
Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, em entrevista coletiva em 15 de março de 2021

VERDADEIRO

Em 18 de janeiro, ao menos 15 estados começaram a vacinação contra a Covid-19, após ato solene que deu início à campanha de imunização no país. A oficialização ocorreu na presença de governadores no Centro de Distribuição Logística localizado em Guarulhos (SP) – local onde as primeiras 6 milhões de doses da vacina CoronaVac entregues pelo Instituto Butantan estavam armazenadas. 

O início da campanha de vacinação só foi possível depois que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou por unanimidade o uso emergencial dos imunizantes CoronaVac (da farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Butantan) e Covishield (AstraZeneca/Universidade de Oxford/Fundação Oswaldo Cruz). 

Logo após a aprovação dos imunizantes pela Anvisa, no domingo (17), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), resolveu antecipar a vacinação no estado. A enfermeira Mônica Calazans, de 54 anos, foi a primeira pessoa a ser vacinada contra a Covid-19 no Brasil. 


“Já distribuímos mais de 20 milhões de doses até agora”
Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, em entrevista coletiva em 15 de março de 2021

VERDADEIRO

Dados atualizados do Ministério da Saúde, com informações até 11 de março, mostram que foram distribuídas aos estados 20 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19. Desse total, as secretarias estaduais de Saúde já repassaram 16,7 milhões de doses aos municípios. Essa distribuição é feita de acordo com a logística de cada unidade da federação.


“Somos o quinto país do mundo na distribuição de vacinas”
Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, em entrevista coletiva em 15 de março de 2021

VERDADEIRO, MAS

O Brasil aparece em quinto lugar entre os países que mais aplicaram doses de vacinas, em números absolutos, de acordo com dados do projeto Our World in Data, da Universidade de Oxford. No entanto, proporcionalmente à população, o Brasil aparece em 67° lugar no ranking, com 5,37 doses para cada 100 habitantes.

Até agora, já foram aplicadas no Brasil 11,42 milhões de doses. Os Estados Unidos lideram o ranking em números absolutos, com mais de 107 milhões de doses aplicadas, seguidos por China (52,5 milhões de doses), Índia (29,9 milhões de doses) e Reino Unido (25,7 milhões de doses). 

Proporcionalmente à população, Gibraltar e Israel lideram o ranking, com 136,94 e 108,31 doses para cada 100 habitantes respectivamente – a maior parte das vacinas para Covid-19 precisa de duas doses. Considerando a América do Sul, o Brasil fica atrás de Chile (13ª posição, com 34,48 doses por 100 habitantes) e Uruguai (65º lugar, com 5,88 doses por 100 habitantes). 


“Atingimos mais de 11,5 milhões de brasileiros, efetivamente, dos grupos prioritários previstos, o que já representa 15% desses grupos”
Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, em entrevista coletiva em 15 de março de 2021

EXAGERADO

Desde o começo da campanha de vacinação contra a Covid-19 até a última segunda-feira (15), foram aplicadas 11.799.498 doses de vacinas, segundo dados do painel de acompanhamento do Ministério da Saúde. Isso não quer dizer, no entanto, que esse foi o número de brasileiros imunizados até o momento. Na verdade, 8.846.302 pessoas foram vacinadas com a primeira dose até 15 de março e, desse total, 2.953.136 já receberam a segunda dose. Ou seja, efetivamente, 8,8 milhões de habitantes foram, de fato, atingidos. O número mencionado por Pazuello é 30% maior.

Esse montante equivale a cerca de 11,44% ― e não 15%, como citado pelo ministro ― do total de pessoas incluídas nos grupos prioritários (profissionais de saúde, idosos, povos indígenas e quilombolas, entre outros), estimadas pelo governo em 77,2 milhões (pág. 28). Segundo informações disponíveis no Vacinômetro do SUS, 11,5 milhões de brasileiros desses grupos prioritários foram convocados —  nem todos, porém, foram vacinados até o momento.

Procurada pela Lupa, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde não respondeu.


“Totalizando então em março 38 milhões de doses, num cronograma que vem se mantendo desde o início, sem nenhuma alteração”
Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, em entrevista coletiva em 15 de março de 2021

CONTRADITÓRIO

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, já alterou em diversas ocasiões a previsão do número de doses de vacinas da Covid-19. Em fevereiro, a previsão da pasta era de 46 milhões de doses até o fim de março. Contudo, o número caiu para 38 milhões de doses em um primeiro momento e, depois, foi reduzido para 30 milhões. Na semana passada, o ministro afirmou que o total até março seria entre 25 milhões e 28 milhões de doses entregues.

As diferentes previsões estão relacionadas ao atraso na entrega de doses de algumas farmacêuticas, que alteram o cronograma previsto inicialmente. O ministro reconheceu que alguns laboratórios vêm atrasando o envio. “Então a AstraZeneca nos forneceu a entrega de 12 milhões de doses prontas, que seriam do laboratório indiano Serum. E esse laboratório vem fazendo uma postergação da entrega. Então, até agora vieram 4 milhões; ainda faltam 8 [milhões]”, disse o ministro, na semana passada.

Apesar disso, essa não é a primeira vez que Pazuello sustenta o discurso de que não há atraso no cronograma. Na semana passada, o ministro afirmou que a campanha de vacinação acontece de forma escalonada, de acordo com a disponibilização de doses de vacinas, ou seja, conforme o ministério for fechando acordos e a Anvisa for liberando os lotes.

Procurada pela Lupa, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde não respondeu.

Editado por: Marcela Duarte e Maurício Moraes

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SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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