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Foto: Isac Nóbrega/PR
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Em pronunciamento, Bolsonaro muda tom, mas repete mentiras sobre vacinação

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
23.mar.2021 | 22h31 |

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez um novo pronunciamento na noite desta terça-feira (23), dessa vez para falar sobre a vacinação contra a Covid-19 no Brasil. Em cerca de quatro minutos de fala, Bolsonaro citou contratos fechados com farmacêuticas para fornecimento de doses dos imunizantes e citou dados ― errados e distorcidos ― sobre a vacinação no país. A Lupa checou algumas das frases ditas pelo presidente, que foi procurado para comentar, mas não respondeu até a publicação desta checagem. Veja:

“Somos o quinto país que mais vacinou”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento realizado no dia 23 de março de 2021

VERDADEIRO, MAS

O Brasil é o quinto país do mundo que mais aplicou doses de vacinas, em números absolutos, segundo a plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford. Os Estados Unidos, a China, a Índia e a Inglaterra ocupam os quatro primeiros lugares da lista. Esse dado, contudo, não quer dizer que o Brasil tenha a quinta melhor cobertura vacinal do mundo. Se levar em consideração o número de doses aplicadas de forma proporcional à população, e não apenas o número de doses, o Brasil cai dezenas de posições no ranking de imunização.

Num total de 145 países cujas informações foram coletadas pelo Our World in Data, o Brasil ocupava a 73ª posição em relação às doses para cada 100 habitantes até 23 de março. Isso significa que foram aplicadas 6,6 doses a cada 100 pessoas até o momento. 

Israel, por exemplo, até 22 de março aplicou 9,7 milhões de doses, o que quer dizer que o país já distribuiu 112,9 doses para cada 100 pessoas (já que várias vacinas demandam a aplicação de duas doses). Embora tenha vacinado 11,4 milhões de pessoas, o Brasil aplicou apenas 6,6 doses para cada 100 habitantes.


“Temos mais de 14 milhões de vacinados”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento realizado no dia 23 de março de 2021

EXAGERADO

Dados do painel de acompanhamento da vacinação contra a Covid-19 do Ministério da Saúde mostram que o país imunizou 11,4 milhões de pessoas com a primeira dose até o dia 23 de março deste ano. O número citado pelo presidente é 22,8% maior do que o registrado pela pasta.

No total, já foram aplicadas 15 milhões de doses, mas esse dado não representa a quantidade total de pessoas imunizadas. Isso ocorre porque as vacinas contra a Covid-19 disponíveis hoje no Brasil (CoronaVac e Oxford/AstraZeneca) demandam a aplicação de duas doses.

Dos 11,4 milhões de brasileiros vacinados, apenas 3,6 milhões receberam a segunda dose do imunizante até esta terça-feira, de acordo com o Ministério da Saúde.


“(…) mais de 32 milhões de doses de vacina distribuídas para todos os estados da federação”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento realizado no dia 23 de março de 2021

VERDADEIRO, MAS

O site Localiza SUS indica que o Ministério da Saúde distribuiu um total de 29,9 milhões de doses de vacinas para as Secretarias Estaduais de Saúde até o dia 22 de março. O número citado por Bolsonaro é 6,5% maior do que o real ― dentro do percentual determinado pela Lupa para considerar a afirmação verdadeira. Mas a vacinação vem sofrendo recorrentes atrasos em todo o país, além de mudanças na orientação sobre a aplicação das doses pelo Ministério da Saúde.

Em algumas capitais, como Rio de Janeiro, Cuiabá e Salvador, as prefeituras precisaram interromper a vacinação por falta de imunizante, atrasando ainda mais o cronograma. 

Embora cerca de 30 milhões de doses tenham sido encaminhadas às secretarias estaduais, apenas 11,4 milhões de pessoas foram vacinadas com a primeira dose da vacina. Dessas, 3,6 milhões já receberam a segunda dose. 

No dia 25 de fevereiro, o Ministério da Saúde emitiu uma nota orientando os municípios a reservarem doses da CoronaVac para a segunda aplicação. “Isso vai nos dar segurança para que as pessoas vacinadas possam completar seu esquema vacinal no prazo correto”, afirmou o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. Contudo, no último sábado (20), a pasta mudou a recomendação e passou a indicar que as doses deveriam ser utilizadas.  


“Em setembro de 2020, assinamos um outro acordo com o Consórcio Covax Facility, para a produção de 42 milhões de doses”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento realizado no dia 23 de março de 2021

VERDADEIRO, MAS

Em setembro de 2020, Bolsonaro editou duas medidas provisórias. A primeira, garantia a adesão ao Instrumento de Acesso Global de Vacinas Covid-19 (Covax Facility), da Aliança global liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O objetivo do consórcio é fomentar a produção de imunizantes para diversos países. A segunda liberava cerca de R$ 2,5 bilhões de recursos para viabilizar a participação do Brasil no consórcio. 

O contrato firmado prevê a entrega de 42,5 milhões de doses até o fim de 2021. Segundo o Ministério da Saúde, o acordo foi firmado em 25 de setembro de 2020, logo após as medidas provisórias serem editadas. Porém, o presidente omitiu em seu pronunciamento que documentos previam a liberação de vacinas para ao menos 20% da população – o que corresponderia a cerca de 84 milhões de doses (duas para cada pessoa). A informação apurada pelo jornal Folha de S.Paulo explica ainda que foi uma escolha do governo federal adquirir doses para apenas 10% da população. 

Durante sessão no Senado Federal, em 11 de fevereiro deste ano, o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que o total de 42 milhões de doses era o “máximo” permitido pelo Consórcio. “Quando a gente fala em 42 milhões de doses, o pessoal abre o olho. São 10% da população, por isso é que foram 42 milhões, só 10%. É o máximo que a gente conseguiu nessa primeira negociação”.

No último domingo (21), o país recebeu a primeira remessa do Consórcio Covax Facility, de 1 milhão de doses da vacina Oxford/AstraZeneca.


“Em julho de 2020, assinamos um acordo com a Universidade de Oxford para a produção, na Fiocruz, de 100 milhões de doses da vacina AstraZeneca e liberamos, em agosto, R$ 1,9 bilhão”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento realizado no dia 23 de março de 2021

VERDADEIRO

No final de junho de 2020, o governo Bolsonaro aceitou a proposta de acordo de cooperação para o desenvolvimento tecnológico e acesso do Brasil à vacina contra a Covid-19 do laboratório AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford. O acordo previa ainda que, no Brasil, a vacina seria produzida pela Fiocruz. A assinatura ocorreu no fim de julho e previa a transferência de tecnologia e produção de 100 milhões de doses da vacina.

Em agosto, Bolsonaro assinou uma medida provisória destinando R$ 1,99 bilhão para a produção da vacina de Oxford. A medida, no entanto, só foi aprovada no Congresso em dezembro, quando virou lei.

Das 100 milhões de doses previstas da vacina de Oxford, as primeiras 4 milhões foram entregues em janeiro e fevereiro, importadas da Índia. As vacinas são as mesmas produzidas pela Fiocruz, mas resultado da parceria com o instituto indiano Serum.


“Sempre afirmei que adotaríamos qualquer vacina, desde que aprovada pela Anvisa”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento realizado no dia 23 de março de 2021

FALSO

Em 21 de outubro do ano passado, Bolsonaro afirmou que não compraria doses de origem chinesa da CoronaVac – vacina contra a Covid-19 produzida pelo laboratório Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan – mesmo se fosse aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A declaração foi feita no programa Pingos nos Is, da rádio Jovem Pan, após pergunta sobre se o imunizante seria comprado caso tivesse o aval do órgão. “A da China nós não compraremos, é decisão minha. Eu não acredito que ela transmita segurança suficiente para a população”, disse.

Na ocasião, ele afirmou que faltaria credibilidade à CoronaVac. “Tenho certeza que outras vacinas que estão em estudo poderão ser comprovadas cientificamente, não sei quando, pode durar anos”, afirmou. Ele citou que há uma grande parceria comercial entre os dois países, mas que nem todos os pontos precisam estar “alinhados”. “A China, lamentavelmente, já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido por lá.” Nessa entrevista, ele disse que compraria apenas o que fosse produzido no país – destacando que estava disposto a adquirir as doses feitas pelo Butantan.

Em janeiro deste ano, no entanto, o Ministério da Saúde requisitou as primeiras 6 milhões de doses da CoronaVac importadas da China pelo Butantan para iniciar a imunização contra a Covid-19 no país. Isso ocorreu semanas depois que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou que começaria a vacinação da população do estado em 25 de janeiro com doses adquiridas da China e produzidas pelo instituto. Em conversa com apoiadores no dia 13 de janeiro, Bolsonaro mudou o discurso e disse que compraria qualquer vacina aprovada pela Anvisa. “É a vacina que passar pela Anvisa. Seja qual for. Passou por lá…Já assinei um crédito de 20 bilhões [para comprar]”, prometeu.

Em 15 de janeiro, o governo federal solicitou a entrega imediata de todas as doses da CoronaVac importadas da China. A campanha de imunização foi antecipada pelo governo de São Paulo para o dia 17 de janeiro, logo depois da aprovação da CoronaVac pela agência. O estado acabou atendendo ao pedido do governo federal e repassou à União 4,5 milhões das 6 milhões de doses. Com isso, o Ministério da Saúde começou a distribuição do imunizante para outras unidades da Federação em 18 de janeiro.


“Em poucos meses, seremos autossuficientes na produção de vacinas”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento realizado no dia 23 de março de 2021

DE OLHO

Na semana passada, o Ministério da Saúde anunciou que vai fabricar, a partir de abril, o Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), matéria-prima para a produção de vacinas. A previsão da pasta é que em maio o país já consiga produzir vacinas contra a Covid-19 utilizando material nacional. 

Atualmente, o Brasil tem apenas dois centros de pesquisa capazes de produzir vacinas: Bio-Manguinhos, da Fiocruz, e o Instituto Butantan. Contudo, mesmo esses institutos muitas vezes dependem da importação do IFA de outros países como China e Índia para a produção em larga escala. Isso tem contribuído com uma série de atrasos na fabricação de imunizantes e, por sua vez, na entrega de lotes para os estados e municípios.


“Ao final do ano, teremos alcançados mais de 500 milhões de doses para vacinar toda a população”
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente da República, em pronunciamento realizado no dia 23 de março de 2021

AINDA É CEDO PARA DIZER

Segundo o Ministério da Saúde, está garantida até o fim do ano a entrega de mais de 562 milhões de doses das vacinas para a Covid-19. Entretanto, o governo federal vem alterando o cronograma de entrega de imunizantes no país — o que pode alterar a estimativa. Nesta terça-feira (23), por exemplo, o Ministério da Saúde reduziu em 10 milhões a previsão de doses da vacina da Covid-19 para o mês de abril. Antes, o governo previa entregar 57,1 milhões de doses. Com a alteração, passou a 47,3 milhões. 

Ao UOL, o Ministério da Saúde informou que a mudança se deve às informações enviadas pelos laboratórios. “Esse cronograma é montado com base no quantitativo previsto e enviado à pasta pelos laboratórios e pode sofrer alterações de acordo com o fluxo de produção das vacinas pelos fabricantes”.

No início do mês, o governo federal já havia alterado o cronograma de entregas de vacinas para março, de 37,4 milhões de doses para 30 milhões. O Ministério da Saúde espera entregar este mês 23,3 milhões do Instituto Butantan; 3,8 milhões da vacina da AstraZeneca/Oxford, produzida na Fiocruz; e mais 2,9 milhões de doses do mesmo imunizante, adquiridos via consórcio Covax Facility.

Editado por: Marcela Duarte, Maurício Moraes e Natália Leal

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EXAGERADO
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CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
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