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#Verificamos: É falso que 30% das pessoas vacinadas contra a Covid-19 morrerão em três meses

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
24.mar.2021 | 19h13 |

Circula por grupos de WhatsApp a informação de que 30% das pessoas que tomaram a vacina contra a Covid-19 poderão morrer num prazo de três meses. A publicação é acompanhada de um link para o site Tierra Pura. Na página, o dado é atribuído a Sherri Tempenny, osteopata norte-americana, que fez comentários sobre o funcionamento das vacinas de RNA. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Este artigo confirma o que disse a professora Dolores Cahill, de Dublin, que estima que pelo menos 30% dos vacinados morrerão em poucos meses de tempestade de citocinas (algo como uma alergia a amendoim), uma vez que o corpo tenha sintetizado proteína spike em grandes quantidades !”

Conteúdo que circula em grupos de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há evidências científicas de que as vacinas contra a Covid-19 possam causar morte. A “tempestade de citocinas”, citada como causa do óbito em pessoas imunizadas, pode ocorrer quando alguém tem um quadro grave da doença — e não em quem foi imunizado. Esse fenômeno ocorre quando o corpo cria uma resposta imunológica excessiva e produz muitas citocinas (proteínas feitas pelas células do sistema imune). Essa “tempestade” resulta num processo inflamatório exagerado que pode ser prejudicial. “Em pessoas vacinadas, isso não ocorre”, explicou, por WhatsApp, o professor Aguinaldo R. Pinto, chefe do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia e do Laboratório de Imunologia Aplicada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Também não procede a informação de que a vacina provocaria o fenômeno descrito na mensagem de WhatsApp – uma vez que faz o corpo sintetizar em grandes quantidades a proteína spike, usada pelo coronavírus para entrar na célula humana. Na verdade, as vacinas de mRNA, citadas no texto, são desenvolvidas para induzir o corpo a produzir a proteína spike por um curto período de tempo, o suficiente para que essa proteína seja “apresentada” ao sistema imune e, dessa forma, faça com que o corpo produza anticorpos que irão proteger o organismo caso entre em contato com o vírus real.

De acordo com o professor Aguinaldo R. Pinto, quando o RNA do vírus é injetado nas pessoas, ele vai entrar nas células e será traduzido em proteína. “Nesse tipo de abordagem, a gente ‘dá’ a informação genética do vírus para que o corpo produza a proteína. Só que esse RNA injetado não vai ficar eternamente dando origem a novas proteínas. Isso é limitado. É sabido que esse RNA mensageiro ficará por sete, dez dias. Depois ele será destruído”, explicou.

Além disso, os testes em humanos da vacina da Pfizer/BioNTech, exemplo de imunizante que usa a metodologia de mRNA, começaram em maio do ano passado. A fase 3 dos testes teve início em julho do ano passado em 43,6 mil pessoas. Passados oito meses, não foi registrado nenhum óbito entre os voluntários. Segundo a empresa farmacêutica, foram observados dez casos graves de Covid-19 no estudo, sendo que nove desses ocorreram no grupo de voluntários que tomou placebo. Além da Pfizer, a fórmula desenvolvida pela Moderna também é de RNA.

Cabe ainda destacar que nos países onde a campanha de imunização começou há mais de três meses, como os Estados Unidos, não foi relatado nenhum óbito comprovadamente ligado ao imunizante. Uma análise dos dados do Vaccine Adverse Event Reporting System (Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacinas, em tradução livre) dos Estados Unidos não detectou, até o momento, nenhuma morte que indicasse um problema de segurança com as vacinas contra a Covid-19. “Imagine que empresa poderia licenciar um produto que vai matar 30% das pessoas? Isso não tem lógica. As agências reguladoras não aprovariam algo que tivesse mortalidade dessa magnitude”, observou R. Pinto.

A médica que faz os comentários acerca das vacinas de RNA é uma ativista antivacina dos Estados Unidos. Ela é autora do livro Dizendo Não às Vacinas: Um Guia para Todas as Idades. De acordo com uma verificação feita pela agência de checagem norte-americana Politifact, Sherri Tempenny teve sua conta no Facebook removida em dezembro por espalhar informações incorretas.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

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A informação está comprovadamente incorreta
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