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#Verificamos: Nebulização com hidroxicloroquina não é recomendada por entidades e especialistas para tratar Covid-19

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
29.mar.2021 | 12h37 |

Circula pelo WhatsApp que a nebulização de hidroxicloroquina pode ser usada para curar pacientes com Covid-19. Esse tratamento foi defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante uma entrevista neste mês. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Hidroxicloroquin@ sendo aspirada na nebulização. A melhora é imediata! Q remédio é fantástico! Malditos todos os q impedem as pessoas de se curarem e as deixam sofrerem. A justiça divina é infalível!”
Texto de imagem que circula pelo WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há estudos publicados em revistas científicas que provem que a nebulização de hidroxicloroquina auxilie no tratamento de pacientes com Covid-19. Além disso, pesquisas feitas com metodologia rigorosa (randomizadas, com duplo-cego e grupo controle) mostraram que a droga não funciona quando ingerida na forma de comprimido para tratar a doença. Entidades e especialistas alertam ainda que inalar comprimidos diluídos pode ser prejudicial ao organismo. 

Segundo a Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia, a inalação deste medicamento diluído com soro fisiológico é danosa ao sistema respiratório. A entidade explica que o comprimido tem em sua composição substâncias agressoras, como talco, que podem causar broncoespasmo e provocar uma reação inflamatória nos pulmões. “Essa inflamação aguda se somando à inflamação pulmonar pela infecção viral tem o potencial de agravar o quadro”, diz o alerta emitido pelo órgão. “Em nenhuma diretriz para tratamento de nenhuma doença é recomendado o uso de comprimidos por via inalatória. O acúmulo desse material pode, inclusive, causar consequências a longo prazo, como insuficiência respiratória crônica.”

O Conselho Federal de Farmácia também afirma que a nebulização de hidroxicloroquina é totalmente contraindicada. A entidade explica que a inalação pode gerar um risco ainda maior para a saúde do que a ingestão da substância, que não tem nenhum efeito na prevenção ou na cura da doença. Assim como a Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia, o conselho destaca que o comprimido tem outros componentes que podem agredir o pulmão quando inalados. “O comprimido contém hidroxicloroquina, mas também traz outras substâncias que são usadas para garantir que ele tenha a forma e a consistência adequadas e que, uma vez ingerido, se dissolva no trato digestivo no tempo certo para garantir o efeito desejado. Ao ser dissolvido para ser inalado, terá partículas de tamanho incompatível para absorção pelos pulmões, podendo se alojar ali e causar infecções e outros problemas”, informa, em nota.

Outro problema, de acordo com o Conselho Federal de Farmácia, está na concentração maior no sangue causada pela inalação da hidroxicloroquina. Isso acaba aumentando os efeitos do remédio no organismo e também potencializa os eventos adversos. “A via inalatória garante uma maior concentração do fármaco na corrente sanguínea, em um tempo mais rápido”, destaca a entidade. “Entre os efeitos adversos provocados pela hidroxicloroquina estão as dores abdominais, diarreia, náusea e vômitos, lesão hepática aguda, miopatia, vertigem, reações extrapiramidais, convulsões (principalmente em pacientes com histórico prévio), taquicardia, prolongamento do intervalo QT [distúrbio no ritmo cardíaco], entre vários outros, sendo os cardiovasculares aqueles que mais suscitam preocupações.” 

Especialistas também não indicam o tratamento com nebulização. Por telefone, o professor Valdes Roberto Bollela, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, disse que desconhece qualquer tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina que seja feito pela inalação até mesmo no caso de outras doenças. Para tratar pacientes com lúpus, por exemplo, o medicamento é tomado pela via oral por meio de um comprimido. “Não há indicação para uso inalatório. Somente via oral. Usar comprimido para fazer inalação é errado e não está previsto na bula. Isto é uma invenção de quem tentou usar”, diz Bollela. De fato, a bula da hidroxicloroquina disponível no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) esclarece que esse medicamento só é comercializado como comprimido. 

Vale lembrar ainda que diversos estudos já mostraram que a hidroxicloroquina na sua forma de comprimido também não é capaz de curar pacientes infectados com o novo coronavírus. Em julho do ano passado, cientistas brasileiros publicaram um artigo no The New England Journal of Medicine mostrando que o remédio não trouxe qualquer benefício para pacientes leves ou moderados com Covid-19 — ou seja, a doença se desenvolveu da mesma forma para os que tomaram o medicamento e para os que receberam placebo. A droga foi administrada quatro dias depois de essas pessoas serem expostas ao vírus, de modo randomizado e com duplo-cego. 

Um estudo mais recente, publicado em novembro pela revista The Lancet, chegou à mesma conclusão. Pesquisadores do Qatar, do Reino Unido e da Austrália analisaram os efeitos da hidroxicloroquina em 456 participantes divididos em três grupos, com randomização e duplo-cego. Não houve diferença entre os resultados obtidos para cada um deles, mostrando que os remédios não trouxeram benefícios.

Após essas e outras pesquisas mostrarem que a hidroxicloroquina não é eficaz para tratar Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) passou a defender a nebulização com o medicamento. No Rio Grande do Sul, três pacientes com Covid-19 morreram após utilizarem esse tipo de tratamento. Atualmente, o Ministério Público do Rio Grande do Sul está investigando a conduta da médica responsável pelos casos. 

Nebulização

A Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia e o Conselho Federal de Farmácia alertam ainda para os riscos de pessoas contaminadas com a Covid-19 fazerem inalação. O procedimento tem potencial de contaminar todo o ambiente, por formar aerossóis que carregam partículas do novo coronavírus

Em março, a Lupa já desmentiu outros dois boatos recomendando a nebulização de outras substâncias que supostamente poderiam tratar pacientes com Covid-19. Foram elas: água sanitária com bicarbonato de sódio e água oxigenada com bicarbonato de sódio

Uma verificação semelhante foi feita pelo Estadão Verifica.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número
+55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

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