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#Verificamos: Redução no número de óbitos por Covid-19 em SP ocorreu por causa de represamento de dados

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
29.mar.2021 | 17h39 |

Circula nas redes sociais a informação de que, com a obrigatoriedade do preenchimento de mais dados no sistema de notificação de casos de internação por Covid-19, a exemplo do CPF, o número de óbitos registrados em São Paulo “despencou”. A publicação sugere que os dados de mortes pelo novo coronavírus, portanto, seriam uma “farsa”, já que não haveria a obrigatoriedade de preencher o CPF do paciente no atestado de óbito. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação:

“CPF CURA COVID EM SÃO PAULO
Terça-feira: recorde de 1.021 mortes
Quarta-feira: 281 mortes”
Trecho de texto compartilhado no WhatsApp

EXAGERADO

A informação analisada pela Lupa é exagerada. A redução no número de óbitos registrados ocorreu porque o Ministério da Saúde exigiu a inclusão de dados que antes não eram obrigatórios no Sistema de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe), onde é feita a notificação de casos de internação por Covid-19. Essa alteração foi feita sem a devida comunicação, segundo governos locais, o que atrasou o registro do número de óbitos, levando ao represamento de dados. A alteração do Ministério da Saúde passou a exigir a inclusão de informações como o CPF, o número do Cartão Nacional do SUS, e se o cidadão era de nacionalidade estrangeira. Devido às reclamações, o Ministério da Saúde publicou nota na quarta-feira (24) informando a suspensão da mudança no SIVEP-Gripe.

São Paulo, por exemplo, registrou 281 óbitos na quarta-feira (24), contra 1.021 no dia anterior. Mas isso não quer dizer que houve uma queda brusca no número de óbitos ou que os dados divulgados diariamente seriam falsos. Outros estados, como Rio Grande do Sul, Goiás e Santa Catarina, também criticaram a mudança. Devido à alteração, os números divulgados na sexta-feira (26), que mostraram que o país registrou um recorde 3,6 mil óbitos por Covid-19, se deram em parte por causa do represamento de dados.

Em outra checagem feita pela Lupa em agosto, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde informou, por e-mail, que todos os estados seguem os procedimentos definidos por uma nota técnica publicada pela pasta em maio de 2020 para registrar óbitos por Covid-19 no SUS. As mortes causadas pelo novo coronavírus só são incluídas nas estatísticas quando há confirmação laboratorial. Ou seja, casos e óbitos suspeitos não fazem parte dos números oficiais, exceto quando especificamente mencionados.

O pesquisador em saúde pública Marcelo Gomes, do Programa de Comunicação Científica da Fiocruz, afirmou, por meio de sua conta no Twitter, que muitas vezes os profissionais de saúde não têm essas informações ao preencher o SIVEP-Gripe. E isso pode implicar em subnotificações. “Não, não é todo mundo que tem CPF. (…) CPF ao nascer é recente. A população anterior a essa mudança é enorme, e é justamente a mais afetada pela Covid-19”, diz. “O problema é a operação na ponta. A ideia é boa, mas uma mudança dessas no meio do caos atrapalha *muito*. A realidade é bem diferente do que se imagina como ‘normal’”, complementa.

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) chegaram a publicar uma nota explicando que solicitaram ao Ministério da Saúde a retirada da obrigatoriedade das informações solicitadas pela pasta. “Isso viabilizaria um período de transição para adequação do registro destas informações nos serviços de saúde”.

Na nota divulgada na quarta-feira (24) pelo Ministério da Saúde, a pasta explica que suspendeu a mudança no SIVEP-Gripe para atender a um pedido do Conass e do Conasems. “A alteração não tem relação com a notificação de óbitos. A medida foi realizada após solicitação do Conass e Conasems pela ausência de comunicado aos estados e municípios em tempo oportuno”, diz o texto. A pasta foi procurada para explicar se houve falta de comunicação às secretarias municipais e estaduais de Saúde sobre a alteração no SIVEP-Gripe. Não houve retorno.

Em nota, a Secretaria de Saúde de São Paulo informa que repudia a informação de que alterou ‘de propósito’ o número de óbitos por Covid-19 no estado. “Mesmo diante da ampla repercussão deste impacto em diferentes locais do Brasil (…) fica evidente que esta fake news tem caráter puramente ideológico, negacionista e desrespeitoso com os cidadãos que perderam pessoas queridas”, diz o texto.

Checagem similar foi feita por Estadão Verifica.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.

Editado por: Maurício Moraes

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A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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